Ensaios e Resenhas

janeiro 2012 / Ensaios e Resenhas / A tragédia da primeira impressão

Texto publicado na edição #113

A tragédia da primeira impressão

  Rodrigo Lacerda fez uso incomum de lugares-comuns em Outra vida. O romance tem como um de seus pressupostos a […]

> Por MARCIO RENATO DOS SANTOS

 

Rodrigo Lacerda por Osvalter

Rodrigo Lacerda fez uso incomum de lugares-comuns em Outra vida. O romance tem como um de seus pressupostos a idéia de que as aparências, em geral, enganam. A longa narrativa ainda insinuará que os opostos não se atraem, os opostos se afastam (o escritor só não prova nada porque não escreveu uma tese, e sim uma obra de arte).

Um casal está dentro de uma estação rodoviária de uma grande cidade. Os bilhetes já foram comprados. O leitor não sabe qual será o possível destino dos personagens. A narrativa faz saber que aquele homem e aquela mulher, os protagonistas de Outra vida, podem viajar para uma cidade do interior, distante de onde estão no presente narrativo. Em um primeiro momento, não é possível saber nada, absolutamente nada, a respeito dos dois. Mas o livro deixará claro, posteriormente, que eles não foram, como diz o clichê, feitos um para o outro. Eles estarão separados, em um relativo breve espaço de tempo.

O tempo é um elemento muito importante neste livro. Os dois personagens, que não são apresentados por nomes, mas por marido e esposa, ele e ela, eles — enfim — estão no presente, no presente narrativo, e a partir, não de uma madeleine proustiana, mas, de um objeto do cotidiano, de repente, um deles pode olhar para a capa de uma revista e recordar de algum episódio do passado. É a partir dessas divagações, dos personagens, que os leitores saberão, por exemplo, que a mulher tem um amante, e que esse amante pretende encontrá-la na rodoviária para impedir que ela entre no ônibus.

O conceito do fragmento, que, para muitos, define o imaginário da sociedade contemporânea (e a própria vida nesse século 21), está presente em Outra vida. O livro é dividido em capítulos, alguns deles trazendo, como subtítulos, a marcação de horas e minutos. Por exemplo, o romance “começa” às 7:15. Em seguida, outros capítulos trarão as marcações 7:46, 8:05, 8:25, 8:26 até 9:30. Esse é o “tempo” de toda a trama, desde a chegada do casal na estação rodoviária até o momento em que um ônibus partirá rumo a uma cidade do interior.

No entanto, o tempo cronológico, o medido por relógio, de ponteiro ou com água (clepsidra), é relativo, como sabemos — já faz tempo. Um minuto, por exemplo, pode vir a significar muito, do ponto de vista narrativo. O personagem masculino, em um único minuto, revelará o motivo que o fez decidir abandonar a metrópole. Ele e a esposa conheceram-se em uma cidade do interior, onde ambos nasceram. Ele é filho de um açougueiro, tem origens humildes e não avançou (muito) nos estudos — não fez curso superior, por exemplo. Ela é filha de uma família que, no passado, teve uma empresa rentável, mas que durante a passagem do tempo viu o negócio entrar em falência. Na capital, ela busca (e consegue) um bom emprego, mais que isso: deseja conhecer (novas) pessoas, freqüentar (novos) bares, estar em meio a happy hours, etc. Mas o salário do marido não tem saldo para pagar essa vida. O marido é um funcionário público que ganha o salário (miserável) de um funcionário público de pouca estatura. A única saída que ele encontrou (para ter mais dinheiro) foi participar de um esquema de corrupção. Mas a ação (canalha) não deu certo. Ele, o marido, flagrado, passou a ser apontado como corrupto. Sem condições de permanecer onde estava, decide abandonar tudo e retornar à terra natal. Mas a mulher pensa de outra maneira.

Essa personagem feminina (essa esposa) não foi feita a partir da costela desse personagem masculino (o seu marido). Ele (o marido) quer uma existência sem ruídos, com mais tempo dentro de casa. Diferentemente dela, criada a partir de hábitos (arraigados) de consumo, consumo de objetos fúteis e descartáveis. O amante dela trabalha no sistema burocrático em que o marido (dela) é uma das menores engrenagens. Ela (a esposa) preferiria que o marido (dela) fosse mais ambicioso. Mas isso (a elocubração desse parágrafo) não passa de uma hipótese. Eles (marido e mulher), de fato, não combinam. Estarão definitivamente separados antes do final da longa narrativa.

O horário 8:25 aparece duas vezes, em seqüência, e dá a entender que o mesmo momento é diferente para cada um dos personagens (como cada segundo é um só para cada ser humano). O marido vai entrar no ônibus e partir em direção de sua cidade natal, destino, em seu entendimento, de onde ele nunca deveria ter saído. A esposa permanecerá na cidade grande, uma vez que pretende expandir os (seus) horizontes, e conhecer novos homens, talvez até continuar sendo a outra de seu amante, que é casado. O marido e a esposa (personagens centrais dessa ficção) não se afinam. Nunca se afinaram (apesar de terem insistido ou experimentado uma vida a dois). Mas eles tiveram uma filha, o legado de uma relação fracassada, filha essa que terá relativa importância no enredo, mas, que, no desfecho, adquire um papel arrebatador, e mostra — direta e indiretamente — que Rodrigo Lacerda conseguiu elaborar uma experiência ficcional com precisão, inteligência e “mão de escritor”.

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RODRIGO LACERDA

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É um carioca, de 1969, que vive em São Paulo. Assina, como editor, a revista Serrote (do Instituto Moreira Salles). Publicou diversos livros, por exemplo, O mistério do leão rampante (1995), A dinâmica das larvas (1996), Fábulas para o ano 2000 (1998), Tripé (1999), Vista do Rio (2004) e O fazedor de velhos (2008).

Ao sair de casa com uma antecedência muito maior do que o horário do ônibus exigiria, a mulher imaginava ter se livrado daquele outro homem de uma vez por todas. Um marido que usa seu deslize de corrupção como pretexto para se enterrar no passado idealizado, com direito a colo de mãe e praia de pobre, é ruim o suficiente; mas um amante que de repente fica maluco e passa a bombardeá-la com telefonemas, obrigando-a a agir como fugitiva, disposto a atropelar qualquer limite, é muito azar, é azar demais.

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Rodrigo Lacerda
Alfaguara
180 págs.