Dom Casmurro

dezembro 2011 / Dom Casmurro / A terra e o céu de Jacques Dorme

Texto publicado na edição #124

A terra e o céu de Jacques Dorme

Tradução: Celso Mauro Paciornik O tempo de viverem juntos será tão breve que tudo lhes acontecerá pela primeira e última […]

> Por ANDREÏ MAKINE

Ilustração: Marco Jacobsen

Tradução: Celso Mauro Paciornik

O tempo de viverem juntos será tão breve que tudo lhes acontecerá pela primeira e última vez.

No começo da noite, na violência do amor, ele rompeu o fio do velho colar que ela nunca tirava. As pequenas pérolas de âmbar crivaram o assoalho, e a chuva que começara a cair imitou essa fina metralha de início, depois se soltou, virando aguaceiro, tromba-d’água e, por último, maremoto inundando o quarto. Após o calor intenso daquele dia de vento seco que zunia como asas de insetos, essa onda atingiu os corpos nus, encheu os lençóis do odor úmido das folhas, do frescor áspero dos prados. A parede, em frente ao leito, não existe, apenas as fendas dos esteios carbonizados, restos do incêndio de duas semanas atrás. Por trás do vão, o céu tempestuoso estufa pesadamente sua carne violeta, resinosa. O primeiro e o último temporal de maio daquela vida em comum.

Ela se levanta, empurra a mesa para o canto mais abrigado do dilúvio, depois para perto da parede esburacada. Ele se recompõe, vai ao encontro dela, aperta-a nos braços, a boca enterrada em seus cabelos, o olhar perdido no tumulto escuro além da brecha. O vento gruda em sua pele como um longo pano molhado. O homem estremece e murmura no ouvido da mulher: “Você nunca sente frio…”. Ela ri docemente: “Faz mais de vinte anos que estou nestas estepes. E você… Um ano? É isso… Vai se acostumar, você vai ver…”.

Um comboio sacode pesadamente os trilhos, bem perto da casa. O resfolegar da locomotiva perfura a escuridão, através da chuva. A massa dos vagões se imobiliza sob as janelas, o facho de uma lâmpada risca o quarto. O homem e a mulher se calam, apertados um contra o outro. Sobe do trem uma mistura de vozes sibilantes, lamentos, um longo estertor de sofrimento. Inválidos vindos do front sendo evacuados para as profundezas do país. É estranho sentir o próprio corpo tão vivo e ainda fremindo de prazer. Esses ombros femininos à carícia dos dedos, a pulsação lenta, cálida, do sangue, ali, na reentrância dos quadris. E sob o pé, o deslizar de uma pérola de âmbar. E o pensamento de que amanhã será preciso recolhê-las, consertar o colar…

O mais espantoso é pensar nesse dia de amanhã, nessa caça às contas. Nesta casa a apenas uma centena de quilômetros da linha do front, neste país, estrangeiro para a mulher e mais estrangeiro ainda para o homem… Sob as janelas, o comboio começa a se mover, a cadenciar seu tamborilar de aço. Acompanham os sacolejos que somem na distância por trás do gotejar da chuva. O corpo da mulher arde. “Mais de vinte anos nestas estepes…”, lembra o homem, e sorri na escuridão. Desde que se encontraram, dois dias antes, ele teve tempo de lhe contar o que acontecera na França nos últimos vinte anos. Como se fosse possível lembrar tudo, enumerar todos os acontecimentos, um a um, de 1921 até junho de 1940, quando ele deixara o país…

A chuva ricocheteia no assoalho, eles sentem um véu de umidade no rosto. “Acha mesmo que ele conseguirá se impor?”, ela murmura. “Sem exército, sem dinheiro. É bom ser general…” Ele não responde de imediato, tomado pela estranheza daquele momento: uma mulher que durante tantos anos não ouvia ninguém chamá-la por seu verdadeiro nome (“Churá”, dizem as pessoas daqui quando falam com ela, Churá ou, às vezes, Alexandra), ele próprio transformado em piloto russo, esta casa destroçada por uma explosão, este povoado à beira de um grande rio, no meio das estepes onde se prepara uma batalha gigantesca…

Um pássaro adentra o quarto, assustado com a tempestade, risca no escuro um vôo desnorteado, escapa pela fenda.

“É verdade, há poucos ao redor dele”, murmura o homem, “e além disso, os ingleses, não sei se podemos contar com eles… Mas, sabe, é como num combate aéreo, nem sempre é o número de aviões que decide, nem mesmo a qualidade, é… Como te dizer? É o ar. É, o ar. Às vezes você sente que o ar te leva, joga a teu favor. O ar ou o céu. É só acreditar muito nisso. Para ele também é o céu que vai decidir a partida, mais que todo o resto… E ele acredita.”

No caminho, refiz várias vezes o cálculo dos anos que me separavam dos dois amantes.

“Cinqüenta anos, mês a mais, mês a menos…”, penso de novo, acompanhando pela janelinha do avião a monotonia das horas noturnas sobre a Sibéria. Cinqüenta anos… A cifra deveria me impressionar. Mas, em vez do espanto, um sentimento muito vivo da presença desses dois seres em mim, de sua profunda vinculação ao que sou.

Fora, só se consegue andar enfiando um pique ou bastão de esqui na camada de gelo varrida pela nevasca. No interior, na longa sala de jantar da isbá, a estufa de aço está vermelha. O ar cheira a cortiça queimada, tabaco forte, álcool a oitenta graus misturado com xarope de canneberge. Faz apenas uma hora que cheguei, o objetivo foi alcançado, estou ali, na casa que chamam de a Beira. (“É à beira”, disse um nativo indicando o caminho. “À beira do quê?” “A Beira simplesmente, é assim que a chamamos, é a última casa, você verá, lá tem um heliponto. Enfim, agora, na nevasca, você não vai enxergar nada. Principalmente, não largue o cabo!”) Saí andando curvado sob as rajadas, a mochila balançando nas costas, numa das mãos um velho bastão de esqui, a outra escorregando por uma corda grossa estendida de uma casa a outra.

Agora, no calor desta cozinha, só me resta esperar meu corpo se acalmar, ofegante do percurso. Muitos dias de trem, depois de avião, por último essa terrível máquina com correias metálicas que me trouxe até aqui pelos desertos de gelo. E a última etapa: esse avanço interminável ao longo do cabo coberto de geada, um arrastar penoso até a Beira. À beira do quê? À beira de tudo. Da terra habitada, do Ártico, da noite polar. O cabo terminava ali, preso aos esteios da última casa.

Agora consigo mexer os pés dentro das botas. Minhas mãos, as falanges dos dedos, revivem, obedecem, e seguro a xícara sem derrubar como pouco antes. O objetivo foi alcançado, penso, sorrindo. Estou nos locais que Jacques Dorme sobrevoou um dia. Amanhã verei o lugar onde se rompeu uma vida que trago em mim desde a infância. Sua vida e a da mulher que o amara. Na sonolência bem-aventurada da minha exaustão, essas vidas antigas se animam por detrás de minhas pálpebras, ressuscitando o relato de uma viagem, uma cidade, a lembrança imaginada de uma noite. Dessa noite em que a chuva imitou o staccato das pérolas de âmbar…

“Escute, amigo, conhece a história do jovem moscovita, meio como você, que vem pela primeira vez à taiga da Iacútia? Espere, vou contar…”

É um dos que me hospedam que fala. São três na casa da Beira. Esses dois geólogos que ao me apertarem a mão tinham repetido, numa coincidência engraçada, o mesmo nome: Liev. Dois Léon, dois leões, pensei, contendo um sorriso. O primeiro, grande e parrudo, decerto adivinhou meu pensamento e quis ser preciso: “Não, o verdadeiro leão sou eu. Ele é um leãozinho…”. O segundo, pequeno, o rosto mosqueado de queimaduras do frio, gritou: “Cala a boca, Trótski!”. Bebi com eles um trago de boas-vindas, essa beberagem desumana, álcool apenas adocicado pelo canneberge, depois com uma facilidade quase mágica consegui ser aceito na expedição do dia seguinte. “Mas é claro, amigo, basta dizer duas palavrinhas ao piloto e é como se já estivesse resolvido. Ele o levará aonde você quiser enquanto nós fazemos a montanha estalar.” Tirei da mochila uma garrafa de conhaque que trouxera de Paris, e nós a despejamos em três copos grandes, com faces iguais. Eles beberam, se entreolharam, o ar desconfiado. O costume russo proíbe criticar o que é oferecido. “É… bom”, concluiu o grande Liev. “É, nada mau”, confirmou o pequeno Liev. “Parece aquele vinho que dão na igreja. As mulheres devem adorar. Vália, aceita um copinho?”

Vália, a cozinheira, abanou a cabeça recusando. Com os braços brancos de farinha até os cotovelos, ela misturava a massa sobre uma grande mesa do outro lado do recinto. Uma mulher enorme: o peito pesado e redondo estufava o pulôver grosso, as nádegas largas, sobre um tamborete, recobriam por completo o assento. Os olhos puxados, como os dos iacutos, mas a pele muito branca, uma potência carnal que lembrava as mulheres da Ucrânia. Que homem poderia abordar um gigante desse?, pensei com um pavor cheio de admiração.

Escuto agora a história já iniciada pelo pequeno Liev.

“Aí ele desembarca vindo de Moscou, em plena taiga, não conhece nada, mas fica um pouco como você, cheio de dedos. E os velhos siberianos vão logo dizendo: ‘Se quer ser um dos nossos, tem de fazer três coisas: primeiro, entornar uma garrafa de vodca; segundo, trepar com uma mulher iacuta; e terceiro, entrar na taiga e apertar a mão de um urso’. Então nosso camarada se anima, pega a garrafa e entorna de um gole! Corre para dentro da taiga. Uma hora depois, volta todo arranhado e grita a plenos pulmões: ‘Bom, me apresentem uma mulher iacuta, que eu vou apertar sua pata!’. Rá, rá, rá…”

Eles riem de perder o fôlego, eu também, contagiado, ainda mais diante da graça da pantomima que o pequeno Liev começa a encenar: um jovem neófito entorna meio litro de álcool e corre para dentro da taiga, onde violenta um urso. Vália se aproxima nesse momento trazendo uma travessa com batatas fumegantes. O pequeno Liev, em plena agitação teatral, lança-se em sua direção, agarra-a por trás, com as mãos enlaçando as ancas da mulher, o queixo espetando suas costas largas. Uma ursa atacada pelo ingênuo moscovita. Ela se vira, o sorriso nos lábios, os olhos porém lançando chispas: como ousa esse nanico? Sua mão desce sobre a cabeça de Liev exatamente como faria a pata de uma ursa, com uma potência bonachona. O homem, o rosto empoeirado de farinha, é jogado contra a parede.

De noite, o assobio da nevasca torna-se o fundo único para todos os outros ruídos: o ronco dos Liev, os estalidos da madeira na estufa e, de tempos em tempos, o ruído de uma folha virada. No recinto ao lado, Vália lê o grosso livro que vi, ao chegar, pousado no peitoril de uma janela. Um desses romances dos anos sessenta em que o amor era vivido à sombra de imensas centrais elétricas em construção, da taiga conquistada, façanhas enaltecidas pela mãe-pátria. Uma ficção não muito distante, de fato, da vida dessa mulher ou de seus sonhos, quem sabe? Não percebo o momento em que ela apaga a luz.

Perto do meio da noite, o açoite das rajadas encobre tudo o que os ouvidos ainda poderiam escutar. Imagino o ponto minúsculo da minha presença neste lugar do globo. Que referência encontrar? A costa gelada do oceano Ártico? O estreito de Bering? O pico da Vitória, com três mil metros de altura, a oeste da casa? Penso que, no fim, nada localiza melhor esta região para mim que a recordação da vida de Jacques Dorme.

A história de Jacques Dorme me acompanhou durante toda a viagem. Ela atenuava com sua intensidade a cidade que eu atravessava, a estação, me isolava no meio das multidões. De Paris eu ia a Varsóvia, chegava sem dificuldade à Ucrânia (que acabava de proclamar sua independência), permanecia bloqueado por muitas horas na novíssima fronteira com a Rússia. As palavras “fronteira”, “visto”, pronunciadas diante de um pequeno acampamento enegrecido de neve molhada, pareciam sair de um conto satírico de Tchekhov. Assim como o uniforme dos guardas de fronteira, de corte estranhamente efeminado, e as águias sobre sua chapka, de um dourado ordinário lembrando árvores de Natal. E mais ainda os papéis que eu lhes apresentava. Aquele passaporte de apátrida que me autorizava a entrar “em qualquer país, exceto na União Soviética”. A União Soviética já não existia, e essa proibição adquiria um sentido perturbador, quase metafísico. Mal plastificado por um velho argelino de Barbès, o documento tinha sofrido com a umidade, e sua cartolina fina envergada, com carimbos borrados, só podia incitar a desconfiança. Foi a compaixão pela minha ingenuidade que fez um caminhoneiro acabar me indicando o equivalente em álcool exigido para a passagem. Eu levava duas garrafas de conhaque. Segundo ele, uma apenas devia bastar. Uma garrafa achatada que o chefe do posto escorregou para o bolso do capote antes de soprar um pequeno carimbo índigo.

Era meu primeiro retorno à Rússia, e eu voltava clandestino. A estranheza de minha vinda se desfez, aliás, rapidamente, diante da bizarrice ora cômica, ora penosa do novo estado das coisas. Esse monumento, numa cidade ucraniana, dois personagens apertando as mãos, e a legenda em letras douradas: “Viva a união da Ucrânia e da…”. A seqüência (“… Rússia”) tinha sido arrancada. Meu “visto” comprado com uma garrafa de conhaque. Depois, uma noite, em Moscou, um amontoado de homens atrás do prédio feio de um restaurante. Arrastavam-se na neve barrenta do início de março, sorriam, piscavam uns para os outros, mas os sorrisos eram crispados, os olhares fixos nas duas grandes janelas abertas do térreo. No interior, no halo fluorescente, via-se um muro branco ladrilhado, dois espelhos, um secador de mão que zumbia no vazio. Uma mulher apareceu e, sem se incomodar com a presença de espectadores, expôs a alva nudez de seu corpo. Chegou a girar sobre os saltos altos, exibindo os seios fartos, os mamilos castanhos, o triângulo protuberante do ventre. Outra colocou o pé sobre o rebordo do muro e começou a puxar o cordão da bota. Sob a minissaia, sua perna se expôs até o quadril, a coxa grossa espremida num collant vermelho… Esse desfile improvisado por prostitutas no banheiro do restaurante atestava uma liberalização inegável. Menos hipocrisia, mais imaginação. Um progresso…, pensei, retomando a caminhada.

Eu repetiria isso dois dias depois, numa grande cidade às margens do Volga. Para matar o tempo antes de pegar o trem, deixei-me arrastar pela multidão e me vi nesse parque. No meio dos quiosques pintados com cores berrantes, desenrolavam-se festejos barulhentos, uma “festa da cidade” qualquer, ou simplesmente um belo domingo, o sol abundante reverberado pela neve que caíra na véspera. Eu caminhava, tropeçando nos montículos de gelo, embriagado pelo frescor ácido da neve, pela fusão com os risos, os olhares, as palavras que já não precisava interpretar. Esse reencontro parecia um sonho em que a compreensão é imediata e o contato físico, de coração a coração, maravilhosamente evidente. Embriagado pelo sol e pela alegria dos outros, me ocorreu inclusive este pensamento exaltado e benignamente patriótico: “Eles têm três rublos no bolso, se tanto, mas riem e festejam como antes. Um país em perdição, mas quanta aptidão para a felicidade! No Ocidente, teríamos…”. Idiotizado pela alegria, eu ia continuar minha análise comparativa entre a alma eslava e o Ocidente sem alma quando, de repente, a felicidade encontrou sua expressão perfeita, condensada no rosto daquela criança. Uma menina de nove ou dez anos, uma beleza quase sobrenatural que andava segura pela mão de uma mulher, a avó, com certeza. Pararam a alguns passos de mim, a criança me olhou curiosa. Sorri para ela. E de repente percebi que aquele rostinho incrivelmente belo estava maquiado. Com muita discrição, mas por mão experiente, adulta. Não maquiado para a festa popular, mas transformado num excitante rostinho bonito de mulher-boneca. Notei também que a noite começava a cair, que os quiosques acabavam de fechar. Ressoavam ainda em minha cabeça os risos e o sol… As primeiras lâmpadas de rua tremeluziam com uma luminosidade lilás. A mulher se virou e me encarou com um olhar de quem avalia. Depois, acariciando o queixo da criança, murmurou: “A festa acabou, você não vai ganhar suas balas…”. A criança me olhava fixo. Contive, no último momento, a frase já em meus lábios: Você tem uma neta muito bonita… Pensei ter adivinhado o jogo. A mulher puxou a mão da criança, e fiquei vendo as duas se dirigirem ao grande hangar pré-fabricado, a cervejaria. Às minhas costas, piava num suspiro descontente a discussão de duas vendedoras: “A velha voltou com a pequena, você viu? Também, o que você queria?, é a criança que a alimenta… Esses patifes que fazem isso, eu os enforcaria…”.

Eu via no fim da alameda as duas silhuetas, a grande e a pequena, que se recortavam contra a luz da cervejaria. Seria preciso alcançá-las. Dar o dinheiro que tinha. Prevenir a polícia. Levar a criança… Mas seria de fato o que achei que entendera? Ao longo da alameda, as portas basculantes fechadas dos quiosques filtravam os raios de luz do interior. Adivinhava-se a presença silenciosa dos proprietários. A escuridão do parque, aqueles minúsculos pavilhões, cada um com seu segredo, a criança maquiada que havia pouco me sorria… Preferi acreditar num engano.

Os únicos lugares onde tive a impressão de um verdadeiro retorno foram as galerias do metrô e as passagens subterrâneas transformadas em bazar de miséria. Os velhos colocavam à venda objetos que gritavam terem sido arrancados de um apartamento, de um quarto onde sua ausência criara um vazio impossível de preencher. Não era a alegre miscelânea de uma feira de antiguidades, mas os vestígios de existências destruídas pelos novos tempos. Eu reconhecia a louça usada de uma xícara, a forma dos saltos de um par de sapatos, a marca de um rádio transistor… Destroços que tinham a idade da minha infância. Toda uma época resumida nas velhas mãos azuladas pelo frio.

Mais que todas as outras mudanças, mais até que a ostentação obscena da nova riqueza, foi esse passado humano desfeito que me chocou. A rapidez febril com que o faziam desaparecer. Esse passado e também a beleza da criança maquiada. Minha ignorância do que se devia fazer, nesta nova era, para proteger essa criança.

A Sibéria me fez esquecer esses reencontros frustrados. Nada tinha mudado aqui. Algumas repúblicas recentes, surgidas da queda do Império, tinham apenas colorido os mapas geográficos. A terra continuava a mesma: infinita, branca, indiferente às raras aparições humanas. No torpor invernal, ficava-se à espreita, não dos últimos sobressaltos da atualidade, mas do curso avermelhado do sol, que em alguns dias roçaria o horizonte depois de uma longa noite polar.

Escutando os geólogos na isbá da Beira, eu pensava que eles vinham da mesma época que aqueles objetos vendidos pelos velhos nas galerias do metrô. Viviam como se os oito mil quilômetros de neve que os separavam de Moscou tivessem retardado o curso do tempo. Os anos sessenta? Setenta? Tudo em sua maneira de viver, de falar, tinha vinte ou trinta anos de atraso. Aquela história engraçada do novato recém-chegado que violenta uma ursa… Eu a tinha ouvido mais de uma vez na juventude. Um tempo deslocado de vinte anos. Não, antes um tempo fora do tempo, uma seqüência de dias cadenciada pelo zumbido das rajadas contra o vidro, pelo hálito do fogo, pela respiração dessas três pessoas adormecidas, tão diferentes e tão próximas, esses dois homens com o rosto queimado pelo Ártico, essa mulher grande de olhos puxados que dorme no quarto ao lado. (Quais são os seus sonhos? Sonhos todos de neve? Ou, ao contrário, cheios do sol do sul?) O tempo noturno cadenciado pelo pulsar do sangue no braço dobrado sob a cabeça, pulsação quente perdida no meio do infinito branco, nas profundezas do negrume cósmico irisado pela fosforescência boreal.

Print Friendly