Ensaios e Resenhas

maio 2012 / Ensaios e Resenhas / A teia de mil fios

Texto publicado na edição #145

A teia de mil fios

A noite de mil olhos, de Flávio Moreira da Costa, publicado pela primeira vez em 1984 com outro título, apresenta-se […]

> Por VILMA COSTA

A noite de mil olhos, de Flávio Moreira da Costa, publicado pela primeira vez em 1984 com outro título, apresenta-se nesta edição revisado e reestruturado pelo autor, portanto, sob nova roupagem. Trata-se de um romance de suspense protagonizado por um narrador-personagem cuja principal obsessão é levar adiante um projeto de investigação jornalística com fins literários. A investigação gira em torno de uma suposta organização nazista criada depois da Segunda Guerra que protegia criminosos da SS. O jornalista Mário Livramento anuncia já nas primeiras páginas o conteúdo de suas buscas: “Desde o começo eu sabia que todos os caminhos me levavam a esta palavra, organização, mistério: O-des-sa. Mas o que era a Odessa? Ela existe ou é ficção?”. Pouco se sabe sobre sua existência documentada, no sentido do que ainda possa representar, mas alguns indícios de uma provável atuação nos anos 1980 apontam para um árduo trabalho.

O que no princípio seria uma reportagem ganha envergadura e torna-se uma pesquisa detalhada para a futura produção de um livro sobre o assunto. Algumas pistas começam a ser alinhavadas a partir de mortes ou de assassinatos de pessoas aparentemente comuns. Uma profusão de personagens traça os caminhos a serem perseguidos em diferentes cidades e países, no trajeto de uma viagem carregada de sobressaltos e aventuras. Cercando Mário Livramento, três mulheres e amantes deixadas no Brasil e alguns amigos feitos ou encontrados pelo caminho. As mulheres não chegam a constituir personagens, funcionam para uma abordagem superficial da subjetividade afetiva do protagonista. Ou seja, tem três amantes simultaneamente para não ficar sozinho e, ao mesmo tempo, para não se envolver com ninguém. Dentre os novos amigos encontrados, incluem-se um “inimigo da humanidade” que lhe ensina alemão, e Juarez, um traficante de drogas que o acolhe em Paris e o apresenta a uma francesa, com a qual parece começar a se envolver. Juarez é o típico bandido boa gente, pelo menos para os amigos.

Vulnerabilidade
O texto, embora traga alguns elementos do romance policial, muito se distancia da narrativa clássica do gênero. Isso porque é uma composição híbrida na qual o investigador, diferentemente do detetive clássico, é vulnerável em vários aspectos. “Sim, eu corria meus riscos — ah, essa fascinante profissão.” Nosso repórter corre o mundo em busca de evidências de suas hipóteses. Vive trafegando na corda bamba do que sua viagem vai tecendo: perseguições, seqüestros, envolvimento com tráfico e drogas, máfia, assassinatos, etc.

Duas tramas se entrecruzam: uma nos fala da história de um passado com seus personagens sinistros que, como fantasmas, retornam das sombras; outra é construída a partir de um presente narrativo, centrado no próprio processo de investigação. Apesar de a primeira ser o objeto de pesquisa, do ponto de vista do leitor o interesse predominante parece estar voltado para o processo de um presente em curso. Em dado momento, atiça-se a curiosidade sobre os passos e o futuro do protagonista, mais importante do que descobrir o que está por traz de crimes não desvendados. Além de repórter ele é detetive, pesquisador e, se escapar com vida de tantas aventuras, escritor de um livro.

O romance se divide em oito capítulos e um prólogo, cada um deles recebe títulos e subtítulos — em sua maioria sugestivos e relacionados à trama, funcionam como fios de sentidos que nos remetem a outros referenciais. Estes são inúmeros: além das tomadas intertextuais, personalidades como Glauber Rocha, Sartre, Nelson Rodrigues e outros são lembrados. Filmes (O pianista, por exemplo), letras de músicas e títulos de livros (Um táxi para Viena D’Áustria, de Antônio Torres) ilustram subtítulos ou transitam através da memória intelectual, afetiva e política do personagem. Embora não seja um texto panfletário, personagem e ação desenvolvida têm um teor político manifesto, tanto no papel do profissional no Brasil, ainda sob as sombras da ditadura militar, quanto à missão política de alertar para a ameaça nazista e de totalitarismos do gênero. Apesar de situado no tempo (de 1972 a 1982) e no espaço (cidades por onde o personagem transita e a investigação transcorre), o enredo não obedece exatamente a uma linearidade. O capítulo datado em 1982 é o primeiro e não o último, por exemplo. O cruzamento dos diferentes níveis da narrativa implementa mudanças de planos e de identidades dos personagens, idas e vindas.

Paranóia
Não há um enigma a ser desvendado no conforto de um escritório jurídico. No fogo do processo é que a ação se movimenta e sustenta o suspense. Ao mesmo tempo, isso possibilita uma velocidade tal que em determinados momentos o ritmo torna-se frenético. Precisamos preparar o fôlego para acompanhar a aventura.

Fechei a janela. Voltei pro meio do quarto. No meio da confusão. Estava no meio do redemoinho. Como o diabo gosta. Roupas por todos os lados. Sinuca de bico. Havia me aproximado da goela do dragão, do correu — cuidado, você esta se metendo em casa de marimbondo, cutucando onça com vara curta!

Assim, a língua se manifesta por vezes acelerada, simples, carregada de oralidade popular, tanto na semântica quanto na sintaxe, outras vezes entrecortada por referenciais já considerados clássicos: “Não esquecer: viver é muito, mas muito perigoso. Ora se”.

Uma leitura comparativa com livro produzido em 1984 pode começar pelo título, que tinha como foco a trama ligada à organização nazista; ou seja, os “inimigos da humanidade” que pareciam mortos poderiam estar vivos. O novo título amplia seu foco como câmeras cinematográficas que abordam outros aspectos. Dá movimento a uma trama muito mais complexa, encorpada por mil linguagens, por mil olhos, por mil fios, como uma teia.

Como anuncia a epígrafe atribuída ao velho mestre de capoeira Pastinha: “A aranha vive do que tece”. O repórter-escritor, envolvido por essas fascinantes profissões, vai tecendo sua teia e parte para viver ou morrer no seu emaranhado. A teia é construída pelos passos da viagem sem garantias, é alinhavada por fios que formam também o tecido de um texto composto de diversos entrecruzamentos, nem sempre se dispondo em harmonia, mas nem por isso deixando de estabelecer uma seqüência de sentidos. A narrativa em ação torna-se um jogo de signos, cujas regras não estão definidas de antemão. Mas isso não é problema, o escritor parece ser também um bom jogador de pôquer. Todo esse percurso desenvolve também uma paranóia intrínseca, não só do personagem, mas da própria textualidade. O que é a literatura, senão uma paranóia? Ou seja, a obsessão de atribuir sentido, mesmo onde parece não haver nenhum, como dizia, mais ou menos, o protagonista de Teatro, de Bernardo Carvalho.

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Flávio Moreira da Costa

Flávio Moreira da Costa

Nasceu em Porto Alegre, em 1945. É autor dos livros de contos Nem todo canário é belga e Malvadeza durão, e dos romances O equilibrista do arame farpado e Modelo para morrer, entre outros.

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Flávio Moreira da Costa
Nova Fronteira
264 págs.