Ensaios e Resenhas

fevereiro 2014 / Ensaios e Resenhas / A sujeira de cada um

Texto publicado na edição #167

A sujeira de cada um

“Meu coração de pedra-pomes”, de Juliana Frank, aborda a sujeira das relações humanas, dos desejos de cada um

> Por ROBERTA ÁVILA

Meu coração de pedra-pomes, de Juliana Frank, é um romance curioso. Apesar de ter começo, meio e fim, parece mais uma seqüência de contos com a mesma personagem principal do que um romance. A história principal não desperta muito interesse e são poucos os personagens do livro. As pequenas histórias são mais interessantes.

Boa parte da narrativa se passa nos pensamentos de Lawanda, que na verdade se chama Wanda, mas gosta de nomes que tenham significado e por isso acrescentou ao seu nome o “La”. Faxineira em um hospital, ela acredita que “faz parte da acaralhação da vida ficar lutando contra a sujeira”. Essa frase, que abre o segundo capítulo do livro, é uma das muitas grandes frases de Juliana Frank. Frases que ela solta aos montes, durante divagações de Lawanda (ou seriam divagações de Juliana?) e que são o melhor do livro. Juliana Frank parece acreditar que também faz parte da acaralhação da literatura escrever livros limpos, por isso Meu coração de pedra-pomes é isso. Aborda a sujeira das relações humanas, dos desejos de cada um. Impera no livro a soberania da vontade e do extraordinário sobre a razão e o comum. Por isso mesmo, Lawanda é louca. Não é incoerente, nem incapaz de conviver em sociedade, mas é considerada louca pelo psiquiatra, toma remédios e encontrou seu emprego pelo sistema de cotas do governo. Esse detalhe das cotas do governo é muito irônico porque em muitas empresas parece que de fato existe uma cota (generosa) de gente louca. Ao mesmo tempo, personagens como Vandercília, a dona da pensão onde mora Lawanda, talvez seja ainda mais louca do que ela, mas é uma louca religiosa, do tipo bem visto em sociedade.

Essa reflexão sobre o que é a loucura permeia todo o livro e traça um paralelo interessante com O alienista. Se no livro de Machado de Assis existe uma mobilidade que permite que o julgamento sobre quem é louco mude conforme o desenvolvimento da narrativa, Juliana Frank coloca a loucura como uma forma de opressão que cai apenas sobre Lawanda, não importando as maluquices dos demais personagens.

A opressão sob Lawanda é tão grande que lembra Macabéa, personagem de A hora da estrela, de Clarice Lispector. As duas personagens têm a mesma idade, 19 anos, as duas têm uma tia benfeitora que lhes arranjou o emprego e as duas moram em pensões. As semelhanças entre elas, no entanto, param por aí. Macabéa é conformismo, é a aceitação das coisas como elas são e pronto, é a falta de imaginação e malícia em pessoa. Já Lawanda é extremamente imaginativa, cheia de respostas dadaístas e conceitos únicos como o de que as pessoas deveriam poder hibernar e que seria normal acordar e ter mudado de idéia totalmente sobre determinado assunto. De fato, é assim que a cabeça dela funciona. Depois de tanto querer que seu amante, José Júnior, deixasse a mulher para ficar com ela, quando ele faz isso ela não o quer mais, assim sem mais nem menos. Além disso, se qualquer um poderia tirar proveito de Macabéa, Lawanda não tem vergonha de se aproveitar dos doentes do hospital para conseguir uma grana extra e nem tem pudores de fazer José Júnior lavar suas roupas, já que ela detesta fazer isso, mesmo sem ter a menor intenção de ficar com ele novamente.

O livro também tem pontos de vista interessantes sobre trabalho e tempo. No mundo árido em que vive Lawanda, moradora de São Paulo, ela se considera uma procrastinada que ignora o calendário gregoriano e chega todos os dias pontualmente atrasada ao trabalho. Para a moça, a memória é uma coisa seletiva, com um funcionamento tão obscuro quanto seu cérebro, e o esquecimento está relacionado ao não-amor: “Sem romance as pessoas se tornam esquecíveis. E o ser humano só não é insuportável numa situação: quando nos apaixonamos por ele”.

Apesar de ser faxineira, os pensamentos de Lawanda sobre seu trabalho com certeza são aplicáveis a muitas profissões e profissionais. Seja pela falta de vontade que ela tem de executar seu trabalho, seja pela maneira como ela vê seus afazeres como uma batalha que nunca será vencida, ou por hábitos estranhos, como conservar um pouquinho de sujeira onde ninguém vê, ou mesmo pelo desgosto que tem de seu avental, já que ela se considera muito mais bonita do que ele. Quando demitida ela reflete sobre a questão:

Penso no emprego que perdi. Tento me confortar: Lawanda, acalme-se. Este emprego tinha um futuro muito limitado. Foi bom acabar com ele antes que ele acabasse com você. Preciso calar essa pensamentação toda. É isso, vou agora mesmo, antes que seja tarde, jogar minha cabeça no lixo. Não quero mais roer os ossos desse desassossego.

Um pensamento irônico, já que para ficar em paz no emprego, o que ela teria que fazer seria exatamente a mesma coisa: calar os pensamentos e deixá-los de lado. E quem nunca se viu nessa situação no trabalho?

Como coloca Juliana Frank, a gente gostaria de sair por aí gastando dinheiro como se viver fosse de graça, mas o trabalho cobra um preço.

 

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Juliana Frank

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Nasceu em São Paulo (SP), em 1985. Também é roteirista e autora de Guenga de plástico e Cabeça de pimpinela. Para ela, explicar o que se escreve é como tentar dizer para crianças de onde vêm os bebês. Pelo menos foi o que ela escreveu no blog da Companhia das Letras, editora que publicou Meu coração de pedra-pomes em 2013. Para ela, um escritor passa a vida colecionando imagens, sensações, experiências vividas ou inventadas. Até chegar a hora de sentar na cadeira e deixar as palavras roerem nossas idéias.

Preciso me trocar. Tirar essa roupa sem predicados e ir embora como se o caminho não fosse retroativo (uma rua que sumisse depois que eu passasse, construída para eu nunca mais voltar).

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Juliana Frank
Companhia das Letras
112 págs.