Ensaios e Resenhas

abril 2017 / Ensaios e Resenhas / À sombra de ruínas

Texto publicado na edição #204

À sombra de ruínas

Em "Parque Cultural", Serguei Dovlátov trata dos próprios fracassos para contar a história dos últimos dias da União Soviética

> Por YURI AL'HANATI

Serguei Dovlátov, autor de Parque Cultural

Serguei Dovlátov, autor de Parque Cultural

Entre 1824 e 1826, Alexander Pushkin se exilou na propriedade rural de sua família nas colinas de Mikháilvoskoie e Trigórskoie, próximo a Pskov. Exílio é a palavra certa: já havia sido expulso de Moscou, e logo em seguida o maior poeta nacional russo — como cunhou posteriormente o escritor Nikolai Gogol — conseguiu também ser banido de Odessa, graças a uma interceptação de correspondência por parte do governo local, que identificou defesas ao ateísmo entre outros conteúdos indesejáveis. Restou o exílio na propriedade em que se passa o romance Parque Cultural, do soviético Serguei Dovlátov, originalmente impresso em 1983 e publicado agora no Brasil pela Kalinka.

Dovlátov, como em muitos de seus romances, transforma a si mesmo em personagem para adentrar a propriedade convertida em museu durante o regime socialista. Seu alter-ego, o também escritor Bóris Alikhánov, mantém uma série de paralelos com o autor: os traços de alcoolismo, a carreira literária subaproveitada, os problemas conjugais e o ingresso nas Colinas de Pushkin para trabalhar como guia turístico. O local é considerado especial pelos estudiosos que trabalham no museu, afinal de contas foi lá que o poeta teve sua fase mais produtiva, onde concluiu os Contos de Biélkim, As pequenas tragédias e Ievguéni Oniéguin, seu maior clássico, posteriormente transformado em ópera por Tchaikovsky em 1879.

A verdade é que uma quantidade estrondosa de museus brotou de cada lugar em que Pushkin botou o pé — o apartamento em Odessa onde passou apenas trezes meses antes de se desentender com as autoridades, inclusive — e muito antes de Lênin conferir a Mikháilvoskoie-Trigórskoie o status de patrimônio histórico em 1922, Pushkin já havia adquirido um status de deidade entre o povo russo. Diversos autores renomados, como Dostoievski e Gogol, ajudaram a exaltar o poeta como o maior representante do espírito russo, por ser o primeiro a buscar a voz de sua poesia nos recônditos esquecidos do povo campesino — uma ideia que viria a ganhar força com Liév Tolstói e amplamente explorada em um momento posterior pelos sovietes, que moldaram o mito de Pushkin à sua própria imagem e semelhança.

O mito soviético de Pushkin, conforme explica o detalhado e atento prefácio de Yulia Mikaelyan, ressaltou alguns traços da vida do escritor, como sua proximidade com os movimentos revolucionários, em especial os dezembristas, pioneiros no combate ao regime czarista, e suas ideias democráticas. “A ascendência africana [seu bisavô Abram Petróvitch Gannibal era oriundo da região da Etiópia] foi usada como um símbolo do internacionalismo e a proximidade de sua babá como um interesse pela cultura popular, o que de fato acontecera — poemas dedicados a Arina tornaram-se matéria obrigatória do currículo escolar”, escreve a tradutora. Por outro lado, os trejeitos aristocráticos e ideias conservadoras de Pushkin foram obliterados a fim de se construir um artista mais politizado e menos elitista.

Exílio do mundo
É com esse mito que o protagonista de Parque Cultural se choca quando adentra o parque-museu, encarando também o período nas colinas de Pushkin como um exílio do mundo que, com algum esforço, poderá culminar em uma época produtiva. Rodeado por personagens que vivem e trabalham pela imagem construída do poeta Alikhánov, sempre sarcástico e observador, vai se dando conta de que um mito nada mais é do que uma narrativa coletiva sustentada por monólitos dinâmicos que são moldados conforme os interesses. Um diálogo inicial com uma funcionária do museu retrata a comicidade dessa ficção soviética:

— Por exemplo, tiraram o retrato de Gannibal.

— Por quê?

— Um pesquisador insiste que não é Gannibal. Diz que as condecorações não coincidem. Diz que é o general Zakomiélski.

— E quem é na verdade?

— Realmente é Zakomiélski.

— Mas por que ele está tão moreno?

— Ele guerreava contra os asiáticos, no Sul. Lá faz calor. Então ficou moreno. As tintas também escurecem com o tempo.

— Então fizeram bem de retirar o retrato, não?

— Ah, que diferença faz: Gannibal, Zakomiélski… Os turistas querem ver Gannibal. Eles pagam por isso. E que raios vão fazer com Zakomiélski? Por isso o nosso diretor colocou Gannibal… Quer dizer, colocou Zakomiélski e, embaixo, o nome de Gannibal. E um pesquisador não gostou disso…

Inverdades como essa permeiam a propriedade de Mikháilvoskoie-Trigórskoie. A própria casa onde está situada o museu não é a casa que Pushkin habitou. Ela foi destruída em 1860 por seu filho Grigóri e reconstruída com arquitetura distinta, explica Mikaelyan em seu prefácio. Não à toa, o próprio Dovlátov se utiliza de distorções ficcionais para jogar cor em seu próprio mito. Considerado próximo a Hemingway por seu estilo realista e por dramatizações de sua biografia, Dovlátov faz dessa morada de mentira o palco para suas verdades. Ficcionista inveterado, distorce ele mesmo a história de Pushkin para se aproximar de sua própria. Diz que o grande poeta também estaria por lá quando estava com seus trinta e poucos anos, que, assim como ele, teve problemas com o governo por causa de suas ideias e sofreu de males nas relações amorosas enquanto estava por ali.

Em nenhum momento, porém, Boris Alikhánov tenta se igualar a Pushkin. Como um bote desamarrado, tem os acontecimentos narrados no romance como resultado de resvalos e correntezas nonsense que o levam ao sabor das marolas. Alcóolatra, dissidente em potencial e de origem judaica em meio a uma intensificação do espírito antissemita da era Brejnev (para ser completamente honesto, a história da Rússia é permeada por um antissemitismo perene, talvez, só um pouco abrandado durante o governo Putin), Bóris, mais do que um escritor sem sucesso, é um autossabotador glorificado pelo próprio vitimismo artístico — de novo, como Hemingway, ou, talvez, como Arturo Bandini, protagonista do romance Pergunte ao pó, de John Fante.

É como se Dovlátov, por detrás de um pano e de posse de cordéis, dramatizasse com marionetes seus próprios fracassos para, por meio deles, contar a história dos últimos dias da União Soviética. Como as artes e o pensamento livre estavam comprometidos, como os mitos estavam ruindo e como todo o país se organizava ao redor de ruínas que, desformes, pouco poderiam dizer sobre o que já foi a sociedade idealizada na revolução de 1917. A figura de Pushkin construída pela União Soviética, nesse sentido, é apenas mais um dos cadáveres exumados e maquiados para desfile de orgulho pátrio, sustentado pelos defensores do Parque-Museu em situações absurdas que alternam entre a comicidade e a total desolação. Recheado de referências a teóricos e escritores russos, além de paráfrases de muitos versos de Pushkin, Dovlátov tenta dar conta de toda a tradição literária russa que adveio não do capote de Gogol, mas da pena de seu maior poeta nacional. Não são raros os autores que escreveram, ficcionalmente ou não, sobre a vida de Pushkin, inclusive sobre as colinas em que a história se situa. Na época da publicação do romance, porém, o horizonte era sombrio. Colocando-se ao lado do símbolo da literatura de seu país, Dovlátov sugere a total impossibilidade de qualquer magnus opus como Ievguéni Oniéguin em um país carente de heróis e de gênios para cantá-los. A beleza de Parque Cultural é a beleza de um exótico monumento soviético em ruínas: as curvas arrojadas que sugerem, quem sabe, um lampejo de genialidade que foi extinguido com o cansaço de seu tempo.

 

 

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Parque Cultural
Serguei Dovlátov
Trad.: Yulia Mikaelyan
Kalinka
168 págs.

 

 

 

O AUTOR
Serguei Dovlátov
Nasceu em 1941, em Ufá, na União Soviética. Filho de um diretor teatral judeu e de uma revisora armênia fugidos de Leningrado durante a Segunda Guerra Mundial, chegou a estudar no departamento de Finlandês da Unidade Estadual de Leningrado, onde voltou a morar depois de 1944, mas foi reprovado depois de dois anos. Trabalhou como carcereiro, jornalista correspondente em Tallinn, na Estônia, e como guia turístico no Parque-Museu dedicado a Pushkin, nas colinas de Mikháilvoskoie-Trigórskoie, de onde tirou a inspiração para escrever o romance Parque Cultural. Mudou-se para Nova York em 1979 com a mãe, a esposa e a filha, onde coeditou o periódico The New American, um jornal em russo para emigrantes. Morreu em 1990, antes de completar 50 anos.

 

 

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