A literatura na poltrona

junho 2018 / A literatura na poltrona / A roda traiçoeira

Texto publicado na edição #218

A roda traiçoeira

Conto aqui um caso pessoal que anda me atormentando. De uns tempos para cá, venho me sentindo como se fosse Felipe Montero

> Por JOSÉ CASTELLO

Ilustração: Conde Baltazar

Ilustração: Conde Baltazar.

Em O ofício do escritor, o argentino Ricardo Piglia nos fala do caráter “inatual” da ficção e de seus desajustes em relação ao presente, de suas relações elípticas e cifradas com a realidade. “Ela constrói enigmas, os mascara, os transforma, os coloca sempre em outro lugar.” Creio que é como enigma, como um discurso ambíguo ou mesmo incompreensível, que devemos ler toda ficção. Mesmo sabendo que sua potência é inesgotável, que ela se parece com a cartola do mágico da qual qualquer coisa pode sair, quase sempre lemos uma narrativa em busca de fios, ou algemas, que a liguem ao real. Ligações indiretas, sofríveis, provocativas, mas também estimulantes e ricas, que nos ajudem, enfim, a viver.

Conto aqui um caso pessoal que anda me atormentando. De uns tempos para cá, venho me sentindo como se fosse Felipe Montero, o protagonista de Carlos Fuentes em Aura, novela que o escritor mexicano publicou em 1962. Não só “como se fosse”, mas, o que é bem pior, achando que sou mesmo. A literatura tem a capacidade não só de expandir nosso Eu, de dissolvê-lo sobre outras realidades e circunstâncias, mas também o poder de nos duplicar. Lendo ficção, permitindo que a mente seja invadida por personagens desconhecidos, esbarramos em duplos, em sócias, em clones, e é a essa experiência que agora, relendo Aura, eu me submeto. A experiência que aqui venho narrar.

O estranho é que, sentindo-me “como se fosse” Felipe Montero, ou me tornando de fato Felipe Montero — tenho até vontade de usar seu nome para assinar essa coluna —, reproduzo a experiência que o próprio Felipe vive na novela de Carlos Fuentes. Tento, precariamente, explicar. Jovem historiador, Felipe Montero esbarra no jornal com uma oferta de trabalho: procura-se alguém para ordenar os papéis e terminar de escrever as memórias de um falecido general. “Você lê esse anúncio: uma oferta assim não é feita todos os dias. Lê e relê o anúncio. Parece dirigido diretamente a você e a ninguém mais.” Apanha seu porta-fólio e se apresenta no endereço assinalado. Já no primeiro encontro, Consuelo Llorente, a viúva do general, depois de lhe oferecer o salário de quatro mil pesos, apressa-se a fazer uma estranha exigência: que, enquanto estiver trabalhando para ela, Felipe deve morar em sua casa. Desconfiado, mesmo assim aceita a proposta.

No mesmo casarão, vive ainda a jovem Aura, sobrinha de dona Consuelo, que lhe serve como governanta. “A jovem mantém os olhos fechados, as mãos cruzadas sobre uma coxa: não olha para você.” O narrador de Aura dirige-se, sempre, diretamente ao personagem; os dois estão, todo o tempo, dialogando, estratégia que os aproxima e que acentua o caráter mágico da ficção. Algumas linhas atrás, falei na cartola do mágico: dona Llorente tem ainda como companhia inseparável um coelho. Seu quarto é cheio de ratos, sua casa é úmida e obscura, ela só se alimenta de vísceras; tudo isso acentua seu caráter inatual, como se pertencesse a outro século, ou a outra esfera cósmica.

“Nessa mesma noite você lê os papéis amarelados, escritos com uma tinta cor de mostarda; às vezes, furados pelo descuido com uma cinza de cigarro, manchados por moscas.” Felipe começa a trabalhar. Tenta melhorar o estilo, organizar as referências históricas, mas não encontra nos originais as qualidades prometidas pela senhora. Ainda assim, precisa seguir em frente. Aos poucos, enfastiado com as leituras, passa a se ligar a Aura, a se apaixonar por ela e, mais ainda, a desejar salvá-la do jugo da anciã. Aos poucos, contudo, ele descobre que a sobrinha vive naquela casa não tanto para trabalhar, mas “para perpetuar a ilusão de juventude e beleza da pobre velha enlouquecida”.

Descobre mais: que Consuelo Llorente carrega uma culpa: a de nunca ter dado um descendente ao general. Com a ordenação de suas memórias, agora parece querer purgá-la. Os manuscritos, embora sem grande interesse, se tornaram não só uma obsessão, mas um substituto do filho que nunca lhe deu. E Felipe logo descobrirá mais ainda: que o forte laço que liga a senhora Llorente a Aura vai muito além da necessidade, mais além ainda do afeto; guarda aspectos mágicos que ele não ousa decifrar. De certo modo, e numa transgressão violenta do tempo, Aura ocupa o lugar de Consuelo. Aura “é” o que Consuelo não pode ser mais. A ele, aos poucos descobre horrorizado, cabe agora o papel do general. O passado se desdobra no presente, na esperança de que possa, enfim, ser corrigido. A correção seria: Aura e Felipe conceberem um filho, que seria, enfim, o primogênito que nunca nasceu.

Meu leitor deve se perguntar, afinal, por que me identifico com Felipe Montero. Não, não tenho nenhuma veleidade de juventude, ou de renascimento. Ocorre, apenas, que Felipe vive, de certo modo muito sinuoso, uma realidade que eu também vivo; e digo mais: que todos nós hoje vivemos. O desejo triste e quase obsceno de retroceder no tempo para repisar os mesmos passos dolorosos da história. Observo em torno: a onda de conservadorismo e de retrocesso me empurra (nos empurra) de volta ao passado. Como se quiséssemos nem tanto corrigir, mas ressuscitar e radicalizar o que já passou. A História hoje se contorce como um feiticeiro que, por descaso, por maldade, por vingança retorce e reverte a linha do tempo. Não sou apenas eu: todos nos sentimos repetindo os passos de Felipe Montero, que por sua vez repisa o caminho do general Llorente, que por sua vez — mas o retrocesso parece não ter limites, e nem fim.

A literatura tem não apenas um caráter premonitório, no qual empurra o tempo para frente e nos leva a antever coisas que, no dia a dia, nos escapam. Ela é também um enigma que guarda fortes visões do presente. Que o fatia, o destrincha, o decifra; ou, se não decifra, nos abre vários caminhos para sua decifração. Ao relatar o caráter recorrente do tempo que, como a roda de uma carruagem, gira velozmente para tocar novamente o mesmo chão, a literatura nos obriga a esquecer de nossas ilusões de calendário. Ler nos leva a pensar que a História não caminha só em linha reta, mas também aos saltos, e frequentemente retornando aos mesmos tristes lugares por onde já passou. Felipe Montero é o general Llorente, mas eu também, enquanto leio a novela de Carlos Fuentes, posso ser Felipe Montero. Nunca estamos no lugar que imaginamos. Como disse Piglia, a ficção nos coloca sempre em outro lugar, e mais outro, e ainda outro, empurrando-nos em um abismo que, enfim, é a própria existência.

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