Ensaios e Resenhas

janeiro 2012 / Ensaios e Resenhas / A revolução do livro

Texto publicado na edição #113

A revolução do livro

Humor debochado, linguagem enxuta, ritmo frenético são marcas de Solo, romance de Juremir Machado da Silva. Transitando entre o sarcástico […]

> Por CIDA SEPULVEDA

Humor debochado, linguagem enxuta, ritmo frenético são marcas de Solo, romance de Juremir Machado da Silva. Transitando entre o sarcástico e o pastelão, o autor compõe um panorama do Brasil real, passando pela história, pela antropologia, política, sexualidade, artes e outras áreas, ludicamente. Explicita o Brasil que a gente sente e vê, mas que a gente não é capaz de encerrar numa única análise, numa única tela.

Juremir Machado da Silva pega o Brasil e o coloca inteiro dentro do livro. São cenas e mais cenas que se sucedem; quadros e quadros fortemente ligados pela ironia, pelo escracho, pela desfaçatez com que o autor trata todos os assuntos. Não deixa pedra sobre pedra, questiona desde Cristo até a própria obra. É um crítico social, político, de artes. O escracho é a tônica dos inúmeros quadros que compõem a narrativa.

Não há variação de linguagem. Um só narrador preenche páginas e páginas com quadros do nosso cotidiano. O leitor poderia se enfastiar com o recurso da repetição, com a sensação de cair numa mesmice engraçada. Mas o autor é inteligente e sabe nos cansar e nos prender com a mesma armadilha: a linguagem leve e sacana. Sim, tão sacana quanto à insuportável visão de mundo de um narrador que se mostra às vísceras.

Pensei que não teria o que falar sobre o livro, já que o livro fala por si mesmo, mas eis que deliro a seu respeito, feliz por ler um contemporâneo excepcional, raro.

O narrador é um cara cuja namorada o deixou. O nome dela é Alice. Embora Alice não apareça na história, ela se torna muito querida do leitor porque, no fundo, é a provocadora do estado alucinatório do ex. Alucinatório, vírgula. Na verdade, ele enxerga demais e cutuca com vara curta as bases culturais sobre as quais a sociedade transita numa burrice de suicidar pensantes.

Alice talvez seja o próprio personagem no mundo contemporâneo das maravilhas. Ao menos, os ritmos e as cores da narrativa têm parentesco com os de Alice no país das maravilhas.

Pode-se pensar que o autor planejou fazer uma abrangente crítica à televisão, já que o narrador é grande conhecedor dos programas da telona, um viciado em TV. Mas, após algum tempo trancado no apartamento, ele decide tentar outras saídas para sua desilusão: desde consultas esotéricas a fugas para Paris, Roma, Peru. Uma intensa viagem ao Peru, onde busca respostas, explicações para seus dramas. No final da história, há uma surpreendente revelação que não sabemos se real ou surreal, pois imaginário e realidade podem trocar de posições, segundo o narrador.

Embora muito diferente na linguagem e na maneira de abordar os temas, Juremir me lembra Henry Miller, pela coragem de rasgar máscaras. Lembra-me também Phillip Roth, pela fluência. Juremir tem características de uns e outros bons, mas não é clone de ninguém, tem seu próprio escrever. A linguagem concisa não dá margem para retoques: é redonda, circular, persegue o próprio rabo e o expõe, com maestria.

O Brasil precisa valorizar seus verdadeiros talentos. Juremir Machado da Silva é um deles. Precisa valorizar a literatura escrita por quem pensa, questiona, por quem acrescenta à cultura inovação, valor. O que a gente tem visto é prêmio para romances almofadinhas, dramas bem comportados. O que a gente vê é a valorização apenas da fluência e da simplificação de conteúdos e linguagens.

Não se encontrará isso em Solo. Há muita erudição e conhecimento histórico, antropológico, psicológico, literário, e demais lógicos que enriquecem a narrativa. O autor é lúcido e perspicaz, utiliza-se de sua cultura com emoção. Sua cultura está no seu corpo e se coloca no papel assim — sedução.

A linguagem de Juremir Machado é sedutora. Eis o segredo de Solo. Transgressora. É a linguagem carregada de sarcasmo. Mas não só. Há um sonho que a move, o sonho de, através da arte, revolucionar. Que revolução faz o autor? A revolução do livro. Afinal, o livro pode conter (freqüentemente não o contém) tesouros vitais ao leitor. E isso, só encontra quem procura.

Mãos à obra, leitor pensante!

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Juremir Machado_livro

Juremir Machado da Silva
Record
367 págs.