Ensaios e Resenhas

julho 2015 / Ensaios e Resenhas / A recomposição do maestro

Texto publicado na edição #182

A recomposição do maestro

Músicas escritas por Tom Jobim ganham nova luz em antologia de contos

> Por MARILIA KODIC

Tom Jobim

Tom Jobim

Diz a história que Frank Sinatra declarou, durante um show em Nova York, que na plateia estava o maior compositor do mundo. Era Antônio Carlos Jobim. Vinte anos após a morte do músico brasileiro que, por meio de um legado perene, partiu sem deixar seus fãs órfãos, a afirmação que então soara hiperbólica ganha certa aura inviolável. Força inspiradora de inúmeras criações afluentes, sua herança musical é agora agente catalisador da literatura em Vou te contar: 20 histórias ao som de Tom Jobim.

A coletânea reúne contos cujo como ponto de partida são músicas de sua autoria exclusiva (motivo pelo qual ficam de fora clássicos como Garota de Ipanema, composta em parceria com Vinicius de Moraes), escritos por 20 autores contemporâneos, de estreantes a nomes consagrados como Menalton Braff e Silviano Santiago. Se a própria natureza do gênero antológico não fosse o suficiente para dar luz a uma obra multipolar, o fator sinérgico do uso da música como estímulo a torna ainda mais mosaica, uma vez que cada história representa uma catarse idiossincrática resultante das evocações provocadas por determinada música em cada autor.

Além disso, há inúmeras perspectivas envolvidas. Há a visão primeira, do letrista Tom Jobim. Há o olhar do escritor, que interpreta esta e a transforma para a literatura. E há finalmente a ótica do leitor sobre ambas, que se fundem num movimento involuntário para formar uma só percepção, fenômeno similar àquele imortalizado por Fernando Pessoa em seu Autopsicografia: “O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente./ E os que leem o que escreve,/ Na dor lida sentem bem,/ Não as duas que ele teve,/ Mas só a que eles não têm”.

A exemplo das letras do precursor da Bossa Nova, os contos tratam de temas universais, sobretudo o amor, as relações familiares e a natureza, e muitos acompanham referências diretas às letras de Jobim. O livro abre com Wave, em que a autora Adelice Souza imprime suas origens baianas ao narrar um romance na praia com aval de Iemanjá, rainha do mar. Todos os parágrafos iniciam-se com o primeiro verso da música, Vou te contar (frase cuja autoria, ironicamente, é de Chico Buarque, que não conseguiu seguir adiante com a letra), e muitos referem explicitamente a trechos da canção. “Vou te contar. Ele ainda demoraria na cidade uns oito dias até navegar. Oito é o infinito e teríamos ainda o tempo inteiro. A primeira vez era a cidade. A segunda o cais e a eternidade”, escreve.

Enquanto alguns contos revelam nitidamente a música em que foram inspirados, outros deixam a inspiração nas entrelinhas, como é o caso de Águas de março, de Vinicius Jatobá, que fecha o livro com uma beleza purgativa e movimento de fôlego, suprimindo a pontuação ao estilo Manoel de Barros. Já em Luiza, de Lúcia Bettencourt, a intertextualidade é indireta, aludindo à harmonia da música: “A nota inicial, como uma pedra, pesada e cortante, um fá, de faca, a faca com que tento extirpar o sentimento dentro de mim, mi. (Ah, a dor!) Mas, em seguida, o sol que explode em seus cabelos, se estilhaça e me corta outra vez como uma faca”.

Além de Luiza, outras cinco musas de Tom Jobim ganham adaptações literárias. Em Ana Luiza, Susana Fuentes faz uma homenagem ao recriar a história por trás da composição da letra, revelada por Jobim em uma entrevista: “Ana Luíza foi uma moça bonita que apareceu no Antonio’s, num dia que estava chovendo. Ela correu para aquela varandinha do Antonio’s. Era uma moça alta, grande, uma grande moça e uma moça grande. Estavam lá Chico Buarque, Carlinhos de Oliveira, uma quadrilha imensa. Chico começou a falar com aquele riso dele, aquelas palavras incríveis e depois a chuva passou e ela foi embora. E ficou o nome”.

Em Ligia, ao narrar um amor momentâneo, sem futuro, Mirna Brasil Portella também remete à memória sentimental da criação da letra. Tom Jobim conheceu Lygia Marina de Moraes num bar em Ipanema, mas o encontro não rendeu frutos amorosos pois ele era casado e ela casou-se em seguida com o escritor Fernando Sabino, amigo de Jobim. Foi apenas em 1994, quase duas décadas após o lançamento da música e ano em que o casal se separou, que Jobim admitiu a fonte de inspiração. Aparecem Angela e Bebel como musas frágeis e melancólicas, e Gabriela, originalmente inspirada na personagem de Jorge Amado e que reaparece novamente como mulher forte e obstinada.

Entre as letras que têm figuras femininas no cerne há ainda o Samba de Maria Luiza, que Jobim compôs para a filha. O escritor Caco Ishak transforma a canção em um drama freudiano com uma personagem que explora seu Complexo de Édipo ao narrar a transferência do amor que sente pela mãe ao pai. Na temática familiar estão também Espelho das águas, sobre um reencontro frustrante entre a filha e o pai que a abandonou; Fotografia, um ácido relato sobre o vazio na era tecnológica e a incomunicabilidade entre gerações; e Esquecendo você, que descreve um amor perdido do ponto de vista de um recém-tornado pai.

Amores frustrados
Histórias de amor frustradas como esta são recorrentes no livro. A perda da pessoa amada é o tema central de Passarim e permeia As praias desertas, em que Marcelo Moutinho apresenta uma protagonista delirante e obsessiva que aguarda, em vão, por um encontro acordado trinta anos antes. A separação conduz o ácido Você vai ver, do sergipano Antonio Carlos Viana, sobre o reencontro de um ex-casal e o reacendimento de antigos remorsos, e Cai a tarde, de Silviano Santiago, em que adquire ares filosóficos com a exploração da relação entre amor e culpa.

Já em Vivo sonhando e Na solidão da noite prevalece a atmosfera onírica e fantasiosa de amores bem-afortunados, enquanto o relato realista dos mesmos cabe a Branca de Paula em Querida e ao tarimbado Menalton Braff em Falando de amor: ambos tratam da surpresa da descoberta do amor, o sentimento ainda embrião. Assim, os amores que deram certo têm presença forte, como era de se esperar num livro que tem em Tom Jobim sua essência.

Suas canções falavam sobretudo de amor — pela mulher, pela família, pela arte, pela natureza —, mas também representavam mais do que isso: eram um retrato do sentimento e da identidade de um povo. Como escreveu Carlos Drummond de Andrade: “Esse generoso, espontâneo ser urbano-silvestre que é o maestro Jobim representa muita coisa mais do que uma sensibilidade pequeno-burguesa que modula crônicas de amor para consumo da classe média, a que logo adere uma suposta classe alta. É antes um criador musical que concentra o espírito do Brasil antigo, situando-o na atualidade sob condições novas”.

O livro não traz, por uma decisão editorial, as letras das músicas que inspiraram os autores, mas fica aqui a recomendação de que se leia duas vezes: a primeira, sem ouvir as canções, e a segunda deixando-se apreciar a sinestesia completa. Independentemente da qualidade literária, que é, como em muitas obras do gênero, flutuante, Vou te contar é uma aula sobre inspiração e uma oportunidade de encontrar um Tom Jobim distinto daquele que já conhecemos.

E, por que não, de reforçar a ligação entre música e literatura que o próprio já cultivava, como conta Chico Buarque em uma entrevista: “Era difícil falar de música com o Tom. Eu nunca vi ele falando de acordes, e também não falava de política. Mas ele adorava literatura. Era capaz de recitar trechos inteiros de Guimarães Rosa, poemas de Drummond, T. S. Eliot, textos inteiros que ele sabia de cor. Então, ele tinha muita ligação com a parte literária das canções”.

 

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Celina Portocarrero

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É poeta, tradutora, pesquisadora e antologista. Organizou a antologia poética Amar, verbo atemporal: 100 poemas de amor (2012). Publicou em 2013 seu primeiro livro infantil, A princesa e os sapos e é autora do livro de poesias Retro-Retratos (2007). Traduziu obras de Marcel Proust, Guy de Maupassant, Mark Twain, Liev Tolstoi e Jane Austen, entre outros.

Nada deixou de ser o que é, o passado todo aqui, vertiginoso como a ave de rapina que afunda de bico no vale, compacto como as montanhas lavadas de sol que avisto pela janela em lonjuras de infinito, recorrente como o canto da craúna que descansa suas rêmiges negras no parapeito à minha frente. (Passarim, de Marilia Arnaud)

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Org.: Celina Portocarrero
Rocco
208 págs.