Sob a pele das palavras

setembro 2018 / Sob a pele das palavras / A rainha careca, de Hilda Hilst

Texto publicado na edição #221

A rainha careca, de Hilda Hilst

"A rainha careca" registra o auge da literatura perversa de Hilda Hilst

> Por WILBERTH SALGUEIRO

De cabeleira farta
De rígidas ombreiras
de elegante beca
Ula era casta
Porque de passarinha
Era careca.
À noite alisava
O monte lisinho
Co’a lupa procurava
Um tênue fiozinho
Que há tempos avistara.
Ó céus! Exclamava.
Por que me fizeram
Tão farta de cabelos
Tão careca nos meios?
E chorava.
Um dia…
Passou pelo reino
Um biscate peludo
Vendendo venenos.
(Uma gota aguda
Pode ser remédio
Pra uma passarinha
De rainha.)
Convocado ao palácio
Ula fez com que entrasse
No seu quarto.
Não tema, cavalheiro,
Disse-lhe a rainha
Quero apenas pentelhos
Pra minha passarinha.
Ó senhora! O biscate exclamou.
É pra agora!
E arrancou do próprio peito
Os pelos
E com saliva de ósculos
Colou-os
Concomitantemente penetrando-lhe os meios.
UI!UI!UI! gemeu Ula
De felicidade.
Cabeluda ou não
Rainha ou prostituta
Hei de ficar contigo
A vida toda!
Evidentemente que aos poucos
despregou-se o tufo todo.
Mas isso o que importa?
Feliz, mui contentinha
A Rainha Ula já não chora.

Moral da estória:
Se o problema é relevante,
apela pro primeiro passante.

Desde 1950, quando lançou seu primeiro livro (Presságio, poemas), Hilda Hilst veio se constituindo numa figura ímpar da literatura brasileira. A exuberante beleza e a rara inteligência, associadas a uma vida solitária e exótica, fizeram dela e, por extensão, de sua obra, alvos de frequentes incompreensões. Quando, quarenta anos depois, em 1990, publica a polêmica narrativa O caderno rosa de Lori Lamby é para se despedir de vez da dita “literatura séria” e, com este lance de dardos, vender (um pouco) mais, num país de parcos leitores. A Academia ainda tenta entender a dimensão de suas dezenas de obras, distribuídas entre versos, ficções e dramas. Cresce, feito vertigem, o interesse pela sua produção (vide a homenagem na Flip 2018), sobretudo porque toca naquilo que — a um tempo — paralisa e mobiliza: o erótico. Hilda passou do lírico ao obsceno, do luxo ao chulo, das nuvens ao chão, sem perder nesta viagem o que singulariza o poeta: a consciência da linguagem.

A rainha careca, de Bufólicas (1992), registra o auge da literatura perversa de Hilst, reviravolta e contramão partilhadas pela prosa de Lori Lamby, Contos d’escárnio / Textos grotescos e Cartas de um sedutor. Em Bufólicas, a galeria de personagens dos contos infantis comparece, com novas fantasias, desejos nunca dantes confessáveis. A parceria entre palavra e imagem auxilia o imaginário do leitor, no traço inconfundível de Jaguar (à semelhança do que fizera Millôr em Lory Lamby). O olho capta o texto em ação (palavra) congelada (imagem).

O poema reescreve a história ancestral da princesa (rainha, donzela, virgem) à espera do salvador. Dormindo, trancafiada, vítima de feitiçaria: um passado a ser redimido pelo valente, puro, respeitador, de nobres sentimentos — príncipe, de preferência (pois que a estratificação social é marca do gênero fadismo). Longe de maquiavélicos — dragões, venenos ou bruxas — antagonistas, a triste sina da Rainha Careca era: o completo desprovimento de pelos… púbicos!: “Ó céus! Exclamava./ Por que me fizeram/ Tão farta de cabelos/ Tão careca nos meios?”.

Encenando certo desprezo pela dita “alta literatura”, H. Hilst repetidas vezes denuncia o descompasso de ser considerada uma grande escritora num círculo tão restrito. À pergunta, no suplemento Ideias do Jornal do Brasil, de 3 de outubro de 1992, sobre se Bufólicas seria um livro pornográfico, Hilda tergiversa: “Bufólicas é o conto de fadas que ainda não tinha sido escrito. É um livro político. Ele usa os personagens dos contos de fadas tradicionais, mas subvertendo o imaginário desses contos. (…) Não, é tão grotesco que não pode ser considerado pornográfico. Bufólicas é muito engraçado, e a pornografia não é engraçada, ninguém goza rindo”.

Hilda Hilst se apodera de jargões à solta e os devolve, programaticamente iconoclástica. Ponto alto das paródias, cada moral da estória desensina. Instalada, a moral se torna, então, amoral. Em A rainha careca, o happy end entre Ula e o biscate produz o hilário desenlace: “Se o problema é relevante,/ apela pro primeiro passanteˮ. Ficam, mais longínquas, as cristalinas poéticas de Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa, a religiosa sublimação de Adélia Prado e, mesmo, a vocabular elegância brechtiana de Ana Cristina Cesar.

O poema se exibe em um grande bloco estrófico com 48 versos e um arremate com três versos. Percorrem-no, não sem ironia, algumas rimas no diminutivo (passarinha, lisinho, fiozinho, passarinha, passarinha, contentinha), que encontram eco no substantivo “rainha” (quatro vezes), provocando graça ao conflitar o teor erótico do poema com sua vinculação ao mundo infantil. Além dessas, na aparente dispersão dos versos polimétricos, as rimas se sucedem, deixando ver no poema um ritmo que parecia não ter: farta/casta, beca/careca, cabelos/meios, peludo/aguda, cavalheiro/pentelhos, peito/pelos, poucos/todo, importa/chora/estória, relevante/passante etc. E, lembrando recomendação de Décio Pignatari em A comunicação poética de que as melhores rimas são as imprevisíveis, Hilda surpreende com “ósculos” e “colou-os”, anagramáticos.

A ausência de mais estrofes (à exceção da “moral da estória”) dá ao poema um aspecto linear que o confirma (sempre parodicamente) como uma narrativa clássica (“bucólicas”) de teor infantil, relida sob a perspectiva adulta de um bufão ou bufona, portanto, a partir de um “modo cômico, ridículo, inoportuno ou indelicado” (Houaiss). Chama atenção o nome “Ula”, para a rainha, que significa “correria, confusão”, que remete à dinâmica e à velocidade do poema, e lembra o parônimo “Ulo”, “lamento, gemido”, que ganha correspondência explícita no verso “UI! UI! UI! gemeu Ula”. Uma ótima análise, bem mais ampla, desses e de outros aspectos se encontra no artigo Hilda Hilst e as Bufólicas, de Paulo Roberto Sodré, em que, por exemplo, se afirma: “Sobretudo, satiriza-se o leitor, ainda capaz de se escandalizar, como os súditos dos poemas, diante de gays, de mulheres que desejam claramente ter seu monte de Vênus coberto, de meninas perversas, de erros divinos, de lésbicas”.

Atento, e avesso, aos estereótipos que, desde a infância, querem pasteurizar e inibir o pensamento crítico do homem, Theodor Adorno no fragmento 52 de Minima moralia, “Onde a cegonha vai buscar os meninos”, afirma: “Para cada ser humano existe um protótipo nos contos; basta apenas ir procurá-lo. Lá está a bela que pergunta ao espelho se é a mais bela de todas, como a rainha da Branca de Neve. É ansiosa e chata até a morte; foi criada à imagem da cabra que repete uma e outra vez: ‘Estou farta, não quero mais nenhuma folha, mé, mé’.”. Contra a mesmice, a carolice, a chatice se levantam os poemas de Bufólicas, como A rainha careca (e ainda tem, na mesma pegada, O reizinho gay, Drida, a maga perversa e fria, A chapéu, O anão triste, A cantora gritante e Filó, a fadinha lésbica). Em tempos racistas, homofóbicos e feminicidas, em que “cidadãos de bem” defendem a tradição mais careta, conservadora e punitiva, provocar abalos, espantar, carnavalizar, fazer pensar de forma libertária na sexualidade faz, de fato, como quis a autora, de Bufólicas um livro político, radicalmente político.

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