Ensaios e Resenhas

fevereiro 2019 / Ensaios e Resenhas / A pontualidade e o fatalismo

Texto publicado na edição #conteúdo on-line

A pontualidade e o fatalismo

Homenagem ao gaúcho Rubem Mauro Machado, morto no início de fevereiro

> Por KÁTIA BANDEIRA DE MELLO-GERLACH

Rubem Mauro Machado, autor de A idade da paixão

Rubem Mauro Machado, autor de A idade da paixão

Tenho medo dos domingos. Sempre desconfiei dos silêncios dominicais, das manhãs vagarosas e suas horas derradeiras a vazarem por uma noite cheia de incertezas. Este poder de vazar os olhos e cegar com raios de luz, quando a claridade se acentua e provoca escuridão. São os dias de sol que conseguem anunciar as grandes tristezas no cerco do silêncio; sei que foi este o silêncio que embalou o meu admirável amigo Rubem no sábado anterior ao domingo da sua cremação; o silêncio culminou na manhã azul, absoluto em seu reino de dispersões, o silêncio trazido pelos djinns que não se inibem ao atravessarem a alma com uma espada para avisar: o seu amigo partiu. Nota após nota, eis a sinfonia da perda, a orquestra pronta, o violino a desafinar, a dor fina que vem e se expande à guisa da música derramada, toda a música tem qualidade líquida, toda a morte se esparrama pelo corpo da gente, contamina dentro e fora e estes meus dias são de luto.

Com o Rubem, aprendi lições que ele insistiu em repetir porque certamente sentia, no alto de seus anos, que eram lições ainda não apreendidas por mim. Em primeiro, dizia-me que as amizades não requerem agradecimento. Na minha distração e teimosia, escrevia-lhe expressando a minha gratidão pela amizade com que me presenteava, ao que ele retornava com palavras levemente severas significando que entre nós não cabiam os agradecimentos, que os amigos se dão aos amigos por se darem e nada mais. Em segundo, o Rubem recomendava que não me criticasse a ponto de me transformar na minha pior inimiga; alto lá, não devemos nos tornar os nossos piores inimigos, retrucava. Como escritores, cabe-nos concentrar na escrita, executar o trabalho bem, as críticas que venham dos outros, se necessárias.

Apresentamo-nos no cemitério São João Baptista, na ocasião do falecimento da nossa amiga em comum, a escritora Sonia Coutinho, baiana radicada no Rio, sua morte tão despercebida quanto a do Rubem, os brasileiros não conhecem sequer os nomes de seus escritores, os jornais onde trabalharam ignoram os seus destinos. Assim como antecedeu à partida do Rubem, a Sonia e eu havíamos nos comunicado de véspera, assuntos corriqueiros, marcamos um café no Parque Lage, traduções por terminar, a vida seguia sob o céu carioca povoado de andorinhas negras como corvos, fotografadas pela Sonia, e o Rubem me assegurou naquele domingo: você perdeu uma amiga e ganhou um amigo, fazia sol e era domingo.

Desde então, tão próximos do campo aberto virado para a eternidade, quisemos crer que a nossa amizade se perpetuaria; conversamos sempre e mais sempre, e o Rubem me contou de suas paixões, algumas avassaladoras, revelou-me; dos problemas políticos, passagens doloridas; dos cruzeiros dançantes nos quais viajava em companhia do seu irmão Milton, navios onde se bailava o tango; das visitas dos sobrinhos à cidade; da sua primeira viagem a Nova York na juventude descrita em seu livro A idade da paixão, um bildungsroman [romance de formação] memorável, uma juventude que o Rubem trazia consigo; do dia em que conhecera Borges em Buenos Aires.

As nossas conversas, astros que disparavam ao infinito, os assuntos se desdobravam, era preciso resumir as nossas existências para preencher aquele elo tão natural e sincero. Nos últimos tempos, compartilhamos sofrimentos, separações e perdas, os nossos lutos. O Rubem sofreu a perda da irmã, viajou ao sul, despediu-se; a doença da irmã o abalou, uma porção de infância desfeita.

A vida a oferecer enfrentamentos e o Brasil o decepcionava, o coração a falhar, não adianta a imagem do homem sair do espelho. O homem caminha e entristece-se com o rumo do país, uma desilusão que a brisa do Leme não ofuscava, os tiroteios nos fundos da rua não apaziguavam tampouco, enquanto o mar permanecia à sua frente, disposto a sussurrar imagens para as telas e histórias e os manuscritos na gaveta a demandar do Rubem edições, concertos e desconcertos; o seu romance Puta Copacabana aguardava assumir capa e corpo, ele sorria faceiro ao confessar o título, quem sabe uma peça de teatro a partir do livro, uma década dedicada, um palco, os atores.

“Como escritores, cabe-nos concentrar na escrita, executar o trabalho bem, as críticas que venham dos outros, se necessárias.”

Com a sua partida, querido amigo Rubem, a vida perdeu humor e leveza e me sinto mais só, a nossa amizade, um belo diadema, objeto raro de sinceridade.

Talvez me repreendesse agora e me aconselhasse, em sua imensa generosidade, em seu instinto de proteção, que eu me mantivesse otimista. Entretanto, um novo domingo não nos devolve ninguém, enterramo-nos nesta sucessão obediente de domingos quando aqueles que amamos se esvaecem (qual o país depois do silêncio & há lá um lago?), as manchas das andorinhas enfileiradas no espaço sideral impedem resignar-me aos desígnios divinos que o levaram antes de mais um jantar no Rio que as chuvas destroem, antes de lhe contar que este inverno pôde ser mais frio do que todos os passados. Marcaríamos às oito, oito e meia em algum lugar que não fosse o restaurante francês de Ipanema cujo cardápio você, Rubem, achava sem graça, tão sem graça quanto um domingo acabado. 

Não devo tardar porque sei da sua pontualidade e do seu fatalismo. Seremos alegres.

LEIA Inquérito com Rubem Mauro Machado

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