Dom Casmurro

janeiro 2013 / Dom Casmurro / A pianista (fragmento provisório de romance em processo de escrita)

Texto publicado na edição #100

A pianista (fragmento provisório de romance em processo de escrita)

…e vi que ela fixava seus olhos em mim, por um espelho em cima do piano. Agora mal tocava as […]

> Por SÉRGIO SANT’ANNA

Ilustração: Marco Jacobsen

Ilustração: Marco Jacobsen

…e vi que ela fixava seus olhos em mim, por um espelho em cima do piano. Agora mal tocava as teclas, para que eu pudesse ouvi-la:

— Vejo que você repara nos meus dedos. E, de fato, é preciso aleijar, além de alongar até o absurdo os vinte dedos, para interpretar Voradeck. Ele mesmo, você deve saber, obrigou-se aos sacrifícios mais extremos e aconteceu de ter todos os seus dedos paralisados. Já na Clínica, começou a tocar com os punhos, os cotovelos e até a cabeça, e a acompanhar a si próprio com sons guturais, primitivos, e percutia com socos no rosto, no estômago, nos dois ouvidos e na genitália, e uivava de dor — enfim, flagelava-se no desespero da loucura e houve até um ou outro músico que se disfarçou de enfermeiro, tentando criar uma notação para aquilo, mas aí sua irmã, apenas um ano mais velha do que ele e dizem que o único verdadeiro amor em sua vida, não se sabe em que nível (eram órfãos e criaram um ao outro), resolveu expulsar os vendilhões do templo, talvez até plagiários.

E foi só ela afastar-se, para ir em casa, que ele agitou-se ainda mais e começou a agredir-se tanto, embora sempre com ritmo, e a quebrar tudo ao seu redor, inclusive o piano que Sophia, a irmã, lhe trouxera, que tiveram de colocá-lo numa camisa-de-força, enquanto discutiam que injeção de barbitúrico deviam aplicar-lhe. Mas, como o senhor deve saber, logo sobreveio a sua morte, uma das mais impressionantes das literaturas médica e musical, pois se pode dizer que ele explodiu por dentro, com uma sonoridade inimaginável, quando suas artérias se romperam e seu sangue jorrou pela boca, nariz, orelhas, ânus, tudo, e, já na rigidez cadavérica, lágrimas rolaram de seus olhos, lágrimas da cor do rio Vlatava, disseram os mais mitômanos, incluindo Svoboda, o meu diretor de cena. “Um santo, um mártir da música”, Svoboda sempre repete, visando manter-me na atitude correta.

Talvez se lembrando disso, Béatrice voltou a tocar energicamente As flores venenosas, de Voradeck, e quando ouvi o som de violinos e de contrabaixo, percebi que seus dedos dos pés, longuíssimos e com unhas enormes, esmaltadas, usavam os pedais também como verdadeiros instrumentos, agora de cordas. Meu Deus, que piano era aquele?

— Aproxime-se mais, chéri — ela disse, agora com uma voz lânguida, meio rouca, correspondendo também a um trecho desfalecente, amoroso, da composição, e ela curvara-se sobre o piano, parecendo acariciar as teclas de modo um tanto suspeito. E foi sua posição que me permitiu ver, com o coração disparado, os seus seios inadjetiváveis. Objetivamente eram perfeitamente pontudos, como pêras, com os biquinhos ainda encolhidos. Os seios de uma mulher de vinte e poucos anos, que com certeza não tivera filhos, esses seres predadores. Livres das amarras de um sutiã, eles se movimentavam de um lado para outro, de acordo com as necessidades interpretativas de Miss Béatrice Cromstadt, e sempre elegantemente, sem balançar-se como tetas.

— Não quer tocar comigo?

— Tocar? Oh, miss Béatrice, eu não ousaria.

Ela deixou de ser suave:

— Ora, não seja ingênuo!

Então, apesar de ser um homem tímido, resolvi correr os riscos, da bofetada ou da expulsão da sala por Jean Louis, o guardião corcunda, e pus minhas mãos em concha, delicadamente, no interior do vestido de gala da virtuose, e oh, êxtase, assim que comecei a acariciar os seus seios, senti brotar os seus biquinhos, provocando um profundo suspiro em Béatrice, combinando com uma pequena pausa na composição, que ela depois voltou a tocar, em tons e ritmos os mais variados, acompanhando-se com meneios de cabeça (pura paródia, intuí). E, à medida que fui perdendo o receio e manipulando mais e mais à vontade aquelas duas formosuras gostosas, ora com mais, ora com menos pressão, fazendo Béatrice gemer também mais, ou menos, percebi que eu era um dos executores do concerto, talvez até um dos criadores improvisados da composição, compreendendo assim o gênio de Voradeck — o maior de todos os tempos de Praga, pois K. era um artista de língua alemã — que escrevera apenas notações que previam infinitas possibilidades, até de interferências de sujeitos como eu, quase antimusicais.

Nas pautas que Béatrice ia virando, verifiquei que essas notações eram hieroglíficas e ideogramáticas, sem deixar de ser ocidentais, empedernidamente ocidentais, como as da Física. A mim era permitida minha composição, e voltei às cantigas das ruas de Botafogo, às calcinhas das meninas pulando corda, peitinhos em botão, os desejos de minhas mãos só agora liberados tanto tempo depois e tão longe, livrando-me de minhas insatisfações e angústias, que sempre procurei descrever em crepúsculos róseos e cafonas, ainda mais que Béatrice me correspondia, agora se acompanhando com uma voz maviosa de soprano, com uma sensualidade lírica e arfante, de modo que cravei minhas unhas em seus seios, e ainda bem — para Béatrice, suponho — que minhas unhas eram aparadas. Ela tirou notas mais graves e violentas no piano e gritou:

— Ai, você me machuca, seu bruto! — e sua voz me pareceu um tanto dramática.

— Oh, desculpe-me, miss Cromstadt — e tirei minhas mãos de dentro do seu vestido.

— Desculpar o quê, seu tolo? Está pensando que sou a Branca de Neve? Pois você se comporta como um anão — e ela deu uma risada, sem dúvida operística, com todo o grotesco do gênero.

— Sim, Branca de Neve, com essa pele que parece nunca ter tomado sol, sua vagabunda, e com a raiva que eu sentia, não tive receio de descer o meu zíper.

O que aconteceu a seguir foi espantoso, não propriamente pelo comportamento sexual do dueto que formávamos, mas porque, retirando ela suas duas mãos do piano, para puxar meu pau lá de dentro, com seus dedos longos e habilíssimos, para não dizer suas presas, a música continuou a se fazer ouvir, ainda mais ricamente, agora com flautas, saxofones, instrumentos para o quais é necessário, sugestivamente, usar a boca. Era um piano preparado, então, e talvez toda a musicalidade da grande virtuose não passasse de uma farsa encenada por Svoboda, o grande diretor, o gênio contemporâneo de Praga, pelo menos era o que estava escrito sob sua estatua no Museu de Cera, ao lado de Mick Jagger e Ferenc Puskás.

Mas se farsa, uma farsa bem real, pois logo miss Béatrice colocara meu pau em sua boca, e como era uma virtuose também nisso, pois eu ia às nuvens e achava fantasticamente obsceno que ela falasse com meu pau em sua boca, pronunciando palavras tão abafadas e incompreensíveis que talvez fossem em tcheco, enquanto antes vínhamos falando em inglês e francês, salvo algumas obscenidades idiomáticas.

— O que você está dizendo? — eu disse, só para concentrar meu pensamento em palavras, para retardar um possível orgasmo, pois se eu desejava, sim, esporrar na boca tão suave e delicada de miss Cromstadt, e suponho que ela também — queria retardar isso.

Pensei que fizera uma besteira, pois ela afastou seu rosto e disse, presumivelmente o que estivera dizendo com o cacete na boca:

— Ó senhores das luzes e das trevas, ó glória fugaz!

— Era isso que você dizia? — e tentei meter o pau de novo em sua boca, mas ela apenas roçava seus lábios perfeitos nele, como se fosse um bastãozinho de batom.

— São palavras de Voradeck em pessoa — para acompanhar a composição, ela finalmente disse. Frases de um libreto fragmentado. Não desconfiou que foi por isso que você foi aceito para a audição privada, por que é um autor incapaz de terminar ordenadamente o que quer que seja?

Ah, então era isso, por meus defeitos que acabaram por se tornar inovações literárias? Mas o que me interessava agora era o meu pau nos lábios finíssimos, em todos os sentidos, de Béatrice. E forcei meu pau novamente em sua boca. Queria mesmo gozar lá dentro justamente pela brancura e magreza etéreas da pianista, seu vestido de uma elegância e sensualidade sóbrias, próprio de uma concertista de alto nível.

Me aguardava, porém, a surpresa das surpresas. Ela afastou-se no banquinho, encostou-se no piano e, com seus pés descalços, agarrou meu pau com dois dedos. Jamais experimentei sensação tão emocionante e deliciosa, eu que me julgava um homem experimentado. E, com aqueles dedos, garras ainda mais hábeis do que as das mãos, ela não apenas me batia a melhor punheta de minha vida, pois não só a agilidade dos seus dedos era impressionante, no vaivém com o meu pau, como ela sustinha, lá na raiz do membro, toda a possibilidade de um orgasmo prematuro. Mais impressionante ainda era como a manipulação desse pau se refletia na música, como se ele fosse uma vara de condão.

— Ai, meu amor, eu te adoro Béatrice, faça-me gozar, que eu não agüento mais — eu disse isso, enlouquecido, e percebi que a música também propiciava um clima de orgasmo, e a voz suavíssima, feminíssima, de Béatrice, que também se masturbava com as garras das mãos dentro de sua calcinha, ato que eu via em êxtase, imorredouro para o meu olhar ávido (ah, a putaria também do olhar):

— Gozemos muito como amantes loucos! — implorei.

Isso deve ter soado como uma frescura intolerável, pois Béatrice parou com tudo, tirou a mão direita de sua xoxota, agarrou meu pau agora duro, grosso e comprido como nunca, e puxou-me por ele até o piano. Estava ela longe de parecer aquela dama frágil do princípio da audição.

Pelo contrário, batendo com o meu cacete energicamente por todo o teclado, prosseguiu com as mutáveis Flores venenosas que nesse momento atingiam um momento dramático e apoteótico. Mais impressionante ainda era que isso vinha de mim, apesar de a mão esquerda de Béatrice, cruzando com a outra que tocava energicamente com o pau, tirar do piano uma melodia suave, lírica, sutil em sua beleza excêntrica. E percebi como era necessário esse dueto para aquela composição que refletia, concretamente, o sexo como amor e brutalidade, como o é na natureza. E, oh, que orgulho, senti que apesar de ser ela, naturalmente, pois era do metier, quem conduzia meu instrumento, este era também intérprete e talvez até co-compositor, e só mesmo um gênio como o de Voradeck — ainda que possivelmente traído por Svoboda — seria capaz de unir tão radicalmente carne e espírito, sexualidade e arte, sofrimento e prazer. E, por um momento de delírio, senti-me como uma das estátuas de mártires sobre a amurada da Pont Charles.

Fui acometido então de ciúme, pensando que Béatrice, a minha adorada Béatrice, poderia ter conspurcado as suas mãos e boca com outros paus, mas ao mesmo tempo tive certeza de que cada audição era única, exclusiva e irrepetível, improvisada sobre o núcleo de Voradeck, improvisada não só por Béatrice, mas também por mim, e sob a influência nos bastidores, é claro, daquela bicha-louca, Svoboda.

Faltava-me apenas, para deixar minha marca indelével, gozar sobre as teclas, melar aquele piano, fertilizá-lo com meus espermatozóides livres das concepções mesquinhas, como duendes minúsculos da música do terceiro milênio.

O problema é que agora esse meu instrumento doía muito, começava a negar-se e ameaçava encolher. Por isso, com uma voz fragilizada, como a de uma virgem no momento da defloração, implorei, segurando as lágrimas, à virtuose que de certo modo me violentava:

— Por favor, miss Cromstadt, mais devagar. Doucement, doucement.

Seu comportamento, porém, foi cruel e inflexível, como o de muitos grandes artistas, antes de largar com desprezo o meu pau murcho e machucado:

— Está pensando o quê, meu querido? Que pode existir arte sem dor?

NOTA
Estes são fragmentos provisórios de um romance, ainda sem título, ambientado na cidade de Praga, onde o autor passou o mês de setembro de 2007, como participante do projeto Amores Expressos.

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