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janeiro 2012 / Lance de dados / A permanência da crônica

Texto publicado na edição #120

A permanência da crônica

Penso que certa resistência em compreender a crônica como gênero literário específico assenta-se basicamente num preconceito e num estereótipo. O […]

> Por LUIZ RUFFATO

Ilustração: Tereza Yamashita

Penso que certa resistência em compreender a crônica como gênero literário específico assenta-se basicamente num preconceito e num estereótipo. O preconceito advém de sua dupla origem plebéia: nascida nas páginas dos jornais, veículo utilitário e descartável, é cultivada em troca de uma remuneração em dinheiro. Nada mais abominável para aqueles que imaginam um ofício aristocrático para as letras… Já o estereótipo é aquele que reduz a crônica a “um comentário ligeiro a respeito de assuntos cotidianos, vazado numa linguagem simples e direta”, como se “ligeiro” fosse sinônimo de “superficial”, “assuntos cotidianos” fossem “irrelevantes” e “linguagem simples e direta” equivalesse a “linguagem pobre e reducionista”.

No entanto, pelo caráter absolutamente original da crônica brasileira, que em seus melhores cultores alcança excelência de estilo e força de transcendência, deveria ser-lhe assegurado um lugar mais digno nos compêndios de literatura brasileira, já que, quando estudada, encontra-se relegada a rodapés ou apêndices secundários. Isso acaba criando situações extravagantes, como os casos de Rubem Braga (1913-1990) ou Fernando Sabino (1923-2004), entre outros, contrabandeados ambos como ficcionistas menores, quando são de fato cronistas maiores. Essa camisa-de-força teórica deveria ser encarada pelos críticos como um desafio.

Historicamente, a crônica brasileira estabeleceu-se no momento mesmo em que os jornais adquiriram caráter de empresa industrial, em meados do Século 19, portanto em plena vigência do Romantismo. Afrânio Coutinho afirma que a nossa descende diretamente do personal ou familiar essay inglês, inicialmente denominada “folhetim”[1] — palavra que mais tarde iria designar um gênero específico de ficção, publicada em fragmentos periódicos. O hibridismo da crônica, que dialoga ao mesmo tempo com o jornalismo, com a prosa de ficção e com a poesia, é o que dá a nota original ao gênero — sua riqueza ou sua deficiência, dependendo de quem a maneja.

Interessante é que a crônica não conhece exatamente uma evolução, pois os pressupostos do gênero já se encontram nos primeiros escritores que a ela se dedicaram, José de Alencar (1829-1877) e Machado de Assis (1839-1908), a partir da década de 50 do século 19. Eles perceberam de imediato a importância do espaço do jornal como forma de intervenção na sociedade, comentando desde pequenos incidentes cotidianos até os grandes fatos da nação, polêmico o primeiro, sarcástico o outro, nunca descurando ambos da língua. Alencar reuniu os seus escritos em livro, Ao correr da pena, ainda em vida, em 1874. Machado, com sua autocrítica impiedosa, embora tenha escrito perto de 700 textos, coligiu apenas seis no volume Páginas recolhidas, de 1899, além de um “debuxo” autobiográfico, a obra-prima O velho Senado. Posteriormente, seus trabalhos foram agrupados em diversos volumes[2].

Olavo Bilac (1865-1918), mais conhecido como poeta, foi entretanto também um badalado cronista no começo do século 20, escolhido para substituir Machado de Assis no prestigioso jornal Gazeta de Notícias. Mas quem forneceu contribuição original ao gênero por essa época foi João do Rio (1881-1921), autor que aos poucos vem sendo resgatado desse cipoal que se convencionou chamar “pré-modernismo”. É dele a síntese que melhor caracteriza o gênero — “espelho capaz de guardar imagens para o historiador futuro”[3] — curiosamente seguido à risca por seu desafeto, Lima Barreto (1881-1922). Com o advento do modernismo surge uma geração de ouro na crônica, Rubem Braga, Manuel Bandeira (1886-1968), Cecília Meireles (1901-1964), Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Eneida de Moraes (1904-1971), Rachel de Queiroz (1910-2003) e Joel Silveira (1918-2007), sucedida por outra não menos importante, Fernando Sabino (1923-2004), Clarice Lispector (1920-1977), Otto Lara Resende (1922-1992), Paulo Mendes Campos (1922-1991), José Carlos de Oliveira (1934-1986)…

Permanência
Se não se deve falar em evolução, no sentido qualitativo e cumulativo, como exposto acima, a crônica, entretanto, desinibiu-se, ao longo do tempo, assumindo cada vez mais sua aspiração à permanência. Sendo ainda hoje possível ler com prazer as crônicas de José de Alencar; as de Machado de Assis oferecem, além disso, como toda sua obra, uma verdadeira reflexão a respeito dos costumes e hábitos da sociedade brasileira, atravessando praticamente todo o Segundo Império até a proclamação e instalação da República — reavendo assim seu caráter original de “relato dos acontecimentos em ordem cronológica”. O mesmo ocorre com João do Rio e Lima Barreto, tão díspares e tão complementares, em relação à compreensão do Brasil durante a República Velha…

O surgimento de Rubem Braga, na década de 1930, dará um novo fôlego e uma nova diretriz à crônica brasileira. Ombreando-se a Machado de Assis, o capixaba introduziu uma voz personalíssima no gênero, transformando toda matéria objetiva em substância para sua imaginação lírica, explicitada numa linguagem límpida e clássica, que injeta um frescor e uma atualidade impressionantes aos seus verdadeiros poemas em prosa. Esta ousadia emularia Carlos Drummond de Andrade, que, estreando um pouco mais tarde, se tornaria voz e consciência de praticamente todo o período moderno da História brasileira, contribuindo para o resgate da crônica em versos — usada antes apenas pontualmente. E emularia também o bem mais jovem Fernando Sabino, que aproximou ainda mais a crônica da narrativa de ficção, de tal maneira que em sua obra se confundem, enriquecendo-se ambas.

E havendo subversão na forma, não poderia deixar de haver no conteúdo. O humor foi definitivamente incorporado, com Arthur Azevedo (1855-1908) e Barão de Itararé (1895-1971) e seus sucessores, Stanislaw Ponte Preta (1923-1968), Luis Fernando Verissimo (1936) e Carlos Eduardo Novaes (1940); e os temas, ampliados, como o futebol, na obra do genial Nelson Rodrigues (1912-1980), e a política, no inesquecível Carlos Castelo Branco (1920-1993). Hoje, quase todos os jornais e revistas possuem seus cronistas e até mesmo o mundo virtual da internet ensaia os seus[4] — sinal de sua vitalidade.

Assim, poderíamos concluir que não há “gênero” menor, mas escritores menores. Como em todos os outros gêneros literários.


[1] In: COUTINHO, Afrânio. COUTINHO, Eduardo de Faria (co-direção). A literatura no Brasil. Vol. 6. 3ª edição revista e atualizada. Rio de Janeiro/Niterói: José Olympio Editora/Universidade Federal Fluminense. (p. 122)

[2] Eis alguns títulos:

Bons dias. Org. John Gledson. Campinas: Editora da Unicamp, 2008.

Comentários da semana. Org. Lucia Granja e Jefferson Cano. Campinas: Editora da Unicamp, 2008.

Melhores crônicas. Org. Salete de Almeida Cara. São Paulo: Global, 2003.

Notas semanais. Org. John Gledson e Lucia Granja. Campinas: Editora da Unicamp, 2008.

[3] In: Pall-Mall Rio: o inverno carioca de 1916. Rio de Janeiro: Villas Boas, 1917, p. 10.

[4] E aqui cabe chamar a atenção para a experiência interessantíssima da página Vida Breve, site que reúne crônicas diárias assinadas por um excelente time de novos escritores: Rogério Pereira (segunda-feira), Eliane Brum (terça), Fabrício Carpinejar (quarta), Luiz Henrique Pellanda (quinta), Tatiana Salem Levy (sexta) e Ana Paula Maia (sábado), apadrinhados pelo sempre genial Humberto Werneck, que escreve aos domingos. Cada uma das crônicas é ilustrada por um artista diferente: Ricardo Humberto, Ramon Muniz, Teresa Yamashita, Simon Ducroquet, Felipe Rodrigues, Osvalter e Marco Jacobsen, respectivamente.

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