Sujeito oculto

maio 2011 / Sujeito oculto / A pequena ilha

Texto publicado na edição #134

A pequena ilha

Aconteceu mais uma vez: a platéia aguarda palavras definitivas sobre o que não tenho a menor idéia: a literatura. Nunca […]

> Por ROGÉRIO PEREIRA

Ramon Muniz

Aconteceu mais uma vez: a platéia aguarda palavras definitivas sobre o que não tenho a menor idéia: a literatura. Nunca tive a intenção de descobrir, de desvendar um significado para ela. É sempre assim: o convite, a dúvida, a viagem. E lá estou eu novamente diante de alguém à espera de uma frase com algum sentido sobre algo cujo sentido me escapa o tempo todo. A voz trêmula do início há alguns anos cedeu espaço a um jorro incessante de palavras, frases, mentiras, elucubrações, visagens, fantasmas. Agora, digo tudo de uma só vez— as cataratas do Niagara se sentiriam reduzidas a riachos diante da pressa que envolve cada sílaba atirada feito perdigotos enlouquecidos. Livro-me das explicações como se elas não passassem de maldições a rondar as minhas poucas certezas. Ao fim, é comum ouvir: “você se diz um tímido, mas é um mentiroso”. Apenas concordo com um meneio de cabeça: sou um mentiroso em busca de uma saída. Então, escapo por um vão qualquer na inútil tentativa de desaparecer.

A técnica é bastante simples. Basta mirar um ponto qualquer da platéia. Tenho optado por um pé de cadeira, uma mancha ou uma rachadura na parede. Esqueço todos os olhares e me imagino no deserto a pregar para as dunas. Tudo parece mais fácil. Ao fim, funciona, apesar de ser tachado de mentiroso. Não me incomoda nada. Faz parte do jogo lúdico que inventei para a vida. Logo, tenho certeza, levarei uma rasteira. Mas enquanto o tombo não vem, continuo sonhando com a loucura que me entorta as pernas a cada esquina.

Quase sempre, dominado pelas frases que invento, vejo a mão a me estender a nota de pouco valor. Pouquíssimo. Quase uma esmola simbólica ao pedinte em frente à igreja central. Tenho, com certeza, entre 8 e 10 anos — este pedaço da vida em que é possível acreditar na eternidade. Já sei ler e escrever alguma coisa. Minha mãe me entrega a nota de papel, após pentear meus cabelos curtos. A caminho da escola, não escondo a ansiedade de visitar minha primeira feira de livros. Juntamente com os demais alunos, entro no ônibus que nos levará ao centro de Curitiba, à praça Osório do início dos anos 1980. Ali, em barraquinhas que hoje me parecem ridículas, e vendem pamonha e pinhão, o primeiro contato com o mundo literário. Nem poderia imaginar que décadas depois, percorreria feiras similares em busca de uma resposta que nunca virá. Enfim, viver é carregar um punhado de interrogações. Ou pouco mais que isso.

Quando cheguei em casa e disse à mãe que precisava de dinheiro para ir a uma feira de livros, ela olhou-me com estranheza. Não tinha a menor idéia do que seria. É difícil conhecer o território jamais pisado. Contei-lhe com entusiasmo suficiente que iríamos ao centro da cidade, que teríamos de comprar livros. Igual a uma feira livre, mas no lugar de chuchu e abobrinha, livros. Mesmo sem que ela entendesse quase nada, conquistei a nota de dinheiro. Possivelmente, algo em torno de dois reais hoje. O suficiente para pouco mais de um quilo de chuchu.

No cesto da promoção, o livro possível. Estendi a nota ao vendedor e recebi o esquálido exemplar. Folheio-o rapidamente. A decepção infiltrou-se com rapidez pelo corpo todo. A cada página apenas uma curta frase. As ilustrações mostravam um homem numa ilha. Somente um homem numa ilha. Nada mais. Um homem solitário numa pequena ilha. Hoje, imagino que não servia nem para adaptação canhestra de Robinson Crusoé. Em menos de 20 páginas, a aventura pela feira de livros transformara-se em ligeira decepção. Logo esquecida na algaravia infantil a preencher todo o ônibus escolar.

Em casa, entreguei o livro à mãe. Após folheá-lo com sincero interesse, devolveu-me aquela solidão. Não lembro o título. Não lembro se o personagem conseguiu deixar a ilha. Não sei como ele foi parar ali. Não sei nada sobre aquele primeiro livro. Perdeu-se no baú fechado há muito tempo. Agora, sempre que me perguntam sobre a importância da leitura, tenho vontade de contar esta história, de distorcê-la, de reinventá-la, de dizer que aquela mão que me estendeu uma nota de dinheiro e recebeu em troca um livro logo não poderá mais fazer este gesto, que não estará mais aqui. Nada faz muito sentido. Tudo nunca será muito mais que um homem numa pequena ilha.

NOTA: A crônica A pequena ilha foi publicada originalmente no site Vida Breve: www.vidabreve.com.br.

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