Entrevistas

novembro 2012 / Entrevistas / A onda mineira

Texto publicado na edição #151

A onda mineira

Exclusivo no site

> Por RAFAEL RODRIGUES

Humberto Werneck, autor de “O desatino da rapaziada”

 

Publicado originalmente em 1992, O desatino da rapaziada, de Humberto Werneck, narra as venturas e desventuras dos escritores e jornalistas mineiros — estirpe à qual pertence o autor da obra — entre as décadas de 1920 e 1970. Neste 2012, para comemorar os 20 nos de sua publicação, o livro ganha nova edição pela Companhia das Letras.

Tendo como personagens figuras como Carlos Drummond de Andrade, Cyro dos Anjos, Otto Lara Resende e Fernando Sabino, entre outros autores, e os inúmeros jornais e revistas fundados e extintos nas Minas Gerais, O desatino da rapaziada é uma fonte preciosa de informação sobre pessoas e fatos que marcaram a vida intelectual brasileira no século 20. Não obstante sua importância factual, o livro brinda o leitor com a prosa precisa e bem-humorada de Humberto Werneck, mineiro que na década de 1970 trocou a terra natal pela portentosa São Paulo, onde vive até hoje.

Na entrevista a seguir, Werneck comenta o fato de Minas Gerais ter dado origem a tantos bons autores, fala sobre a escrita do livro e também sobre o “revival” mineiro que o mercado editorial brasileiro vem proporcionando aos leitores. 

• Vamos começar com uma pergunta à la Carmen Miranda: O que é que Minas Gerais tem? Inúmeros grandes escritores brasileiros nasceram lá. Muitos deixaram a cidade e adotaram Rio de Janeiro e São Paulo como lar, mas por que Minas Gerais deu origem a tantos bons autores?
É verdade: estatisticamente, Minas é berço de razoável quantidade de escritores. Por que esse, digamos, fenômeno? Talvez porque lá não houvesse, no passado, muito o que fazer. Na falta de vivências mais variadas, muitos, quem sabe, iam viver no papel. E quando saíam disso, nem sempre se davam bem — vide aqueles poetas entre os inconfidentes, revoltosos, que pensaram em tudo, até numa bandeira, menos na compra de uns trabucos para enfrentar o colonizador português… O fato é que, havendo fartura de escribas, vários deles, por ação de presença, serviam de exemplo para as gerações que iam chegando, o que levava à sua multiplicação. Brincadeiras à parte, é interessante notar como as gerações literárias mineiras, a partir do Modernismo, meio que se engatam umas nas outras, sem necessidade de ruptura para abrir espaço. Provavelmente tem a ver com o tal espírito conciliador do mineiro, que teria sido moldado pela geografia: já que estamos aqui entre as montanhas, obrigados a conviver uns com os outros, vamos tratar de nos entender. No passado pode ter sido assim. Hoje, acho que não mais. O mineiro parece ter descoberto que existe vida fora do papel…

• Quanto tempo foi necessário para escrever O desatino da rapaziada? Como foi a recepção do livro na época?
O desatino da rapaziada nasceu de uma idéia do poeta Antonio Fernando De Franceschi, na época à frente do Instituto Moreira Salles. Ele me proporcionou uma bolsa durante sete meses, além de uma infraestrutura para a pesquisa. Praticamente tudo foi feito naqueles sete meses, no ano de 1991. Eu estava na chefia da redação da sucursal paulistana do Jornal do Brasil, e lá escrevia, todas as manhãs, entre 7h e 9h30, horário em que me reconvertia em jornalista. Nos fins de semana, escrevia direto. Não pude esperar que a pesquisa estivesse concluída — ia fazendo enquanto pesquisava, porque o livro tinha que estar pronto para a inauguração da Casa da Cultura em Poços Caldas, marcada para agosto de 1992. Concluído, o copião teve, além do Franceschi, três leitores excepcionais: o jornalista Geraldo Mayrink, que não só bolou o título como se encarregou das legendas do caderno de fotos, tendo contribuído ainda com o saboroso texto de orelha; o historiador Francisco Iglésias, também meu amigo, ajudando a checar mais do que fatos e datas; e Otto Lara Resende, que, página por página, fez preciosas correções e observações. Lançado em agosto, O desatino foi recebido com muita simpatia pela crítica e pela imprensa (me levou pela primeira vez ao Programa do Jô, por exemplo, ainda no SBT) e pelos leitores.

• Pelas histórias que você conta, imagina-se que várias outras tiveram que ficar de fora. Como foi o processo de selecionar o que seria publicado?
Felizmente, havia fartura de material, e creio que o melhor chegou ao livro. Acho que aquilo que é bom tem que entrar, pelo simples fato de ser bom, e que vale a pena batalhar para que as inserções pareçam pertinentes e naturais. Minha narrativa, que cobre os anos de 1920 a 1970, é basicamente cronológica, mas isso não me obriga, como contador de histórias — O desatino é uma crônica, no sentido de relato histórico —, a me escravizar ao fio que avança no tempo. Vou e volto, antecipo coisas que virão mais adiante, de forma que a narrativa freqüentemente envereda por isso que chamo de “aliases”, umas estradinhas, umas picadas que se abrem a partir do tronco principal do texto. O importante — isso aprendi com a Sherazade, minha santa padroeira — é seduzir o leitor e mantê-lo cativo até o ponto final.

• Você conviveu com vários dos escritores citados no livro: Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Murilo Rubião… Como era a relação entre esses autores e as gerações que vieram depois deles (inclusive a sua)?
Para mim e para alguns outros jovens escritores da minha geração, o grupo formado pelo Fernando Sabino, o Paulo Mendes Campos, o Otto Lara Resende e o Hélio Pellegrino foi uma referência muito forte, e não apenas literária. O encontro marcado, do Fernando, não era só um texto no qual procuramos aprender truques narrativos, e mesmo, no nosso verdor, a imitar escancaradamente. A gente sabia que ali estava a história de quatro talentosos conterrâneos nossos que brilhavam nacionalmente. A certa altura, na adolescência, eu queria ser um deles, num Rio de Janeiro que sempre me fascinou, longe da pasmaceira e do moralismo da vida belo-horizontina de então. Como escritores, a gente conhecia pouco o Otto Lara Resende, até porque publicava pouco, e quase nada o Hélio Pellegrino, que não publicava nada a não ser poemas em jornais, de quando em quando. O Fernando e o Paulo a gente tinha não só em livros como toda semana, como cronistas da revista Manchete. Custo a crer que a cada sete dias tínhamos crônicas desses dois e mais o Rubem Braga, o maior de todos, e, de quebra, o Henrique Pongetti, mais fraquinho. Quanto ao Murilo Rubião, figura misteriosa de quem mal ouvíamos falar — além de ser muito discreto, tinha passado em Madri a segunda metade da década de 1950 —, só fomos descobri-lo em 1965, quando saiu Os dragões e outros contos. No ano seguinte, ele criou dentro do Minas Gerais — o insípido diário oficial do governo mineiro — um ótimo suplemento literário semanal. Murilo, o intelectual mais generoso e tolerante com quem já cruzei, abriu as páginas desse suplemento para jovens escritores e artistas plásticos, ainda que a produção não batesse com o seu gosto pessoal. Entre 1966 e o começo dos anos 1970, enquanto esteve no comando, Murilo Rubião fez do suplemento mineiro um chão onde puderam reunir-se grupos ou autores isolados.

• Nos últimos tempos, a literatura mineira vem recebendo excelentes notícias: reedições de livros de Jaime Prado Gouvêa, Pedro Nava e Carlos Drummond de Andrade; obras de Fernando Sabino e Otto Lara Resende ganhando novos projetos gráficos; você e Ivan Angelo publicando novos livros de crônicas; além de novas edições de obras de Paulo Mendes Campos. Como você vê essa espécie de “revival” mineiro?
Dos escritores que você citou, todos — menos um, claro, este entrevistado, por sinal nada modesto — têm obra sólida que já se mostrou capaz de resistir à passagem do tempo e dos modismos literários. Mas acho que ainda não se deu o devido reconhecimento ao romancista Cornélio Pena, por exemplo. Está faltando levar a mais gente a obra pequena porém notável de Jaime Prado Gouvêa, apenas dois livros, lançados pela Record porém mal divulgados — Fichas de vitrola e outros contos e o romance O altar das montanhas de Minas. Falta, também, editar de maneira menos amadorística os notáveis livros de ficção do Ivan Angelo, em especial o romance A festa, as cinco novelas de A casa de vidro, a novela Amor? e os contos de A face horrível.

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