Dom Casmurro

outubro 2011 / Dom Casmurro / A oficina

Texto publicado na edição #139

A oficina

Trecho do romance inédito de Luciana Viégas

> Por LUCIANA VIÉGAS

Ilustração: Felipe Rodrigues

8.

O careca voltou. Uma da tarde.

Como vai, saúde boa? Claro que a saudação, na velha voz firme, acontecia da porta pra dentro, ultrapassados os três degraus com rejuntes largos do piso de lajotas de cerâmica vermelha com bordas arredondadas — com que esforço havia feito aquela travessia, quantos rubicões o careca havia percorrido para novamente pisar aquele quintal da terra prometida? E atualmente a saudação passou a ser ouvida como uma senha de conforto e afirmação pelos que, à margem das obrigações cotidianas, calhavam de estar por ali naquela fresta de dia. No comum da rotina, vinha almoçando solitário ou na companhia da irmã que, acolhendo agora netos quase adultos, preservara a casa do velho, ali crescera, ali estudara curso superior, ali noivara e desnoivara, dali partira para aperfeiçoamento na América do Norte, ali fizera a festa de casamento, ali abraçara a mãe no espasmo final, para ali retornara com as meninas pequenas quando o apartamento alugado ficou pequeno demais para o casal e suas meninas e a casa própria, por sua vez, grande demais para o velho alemão sozinho, ali manteve os almoços do pessoal da oficina, ali hospedou tantos pernambucanos regados a escoceses doze anos em rodadas que iriam terminar com bifes e ovos fritos tarde da madrugada, ali ficara quando o marido morreu, dali viu a debandada das filhas — de resto, é o tempo de um soluço para tentar não ver nesse menino criado a água de coco e sucrilhos, representante da quarta geração a subir de trinta em trinta centímetros os rejuntes largos do piso de lajotas de cerâmica vermelha com bordas arredondadas dos degraus da varanda, o cunhado chegando com a voz de locutor em seus bons ternos e a pele fina de quem não lida em pé o dia todo a aclamar “grande Beckenbauer, nossas congratulações!”. Ao que o careca, sabendo que era para ele o vocativo, responderia com alguma alusão pouco convicta sobre as atuações em campo de Gérson, Tostão, Rivelino, Pelé, num dialeto de pênaltis e beques ainda hoje tão longínquo — de tão longe quanto a pegada alexandrina em Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe — e tão próximo da camisa de algodão branco do pai, diante da Telefunken de caixa amarelada onde, juntos no sofá forrado pelos estofadores de Kombi, éramos noventa milhões em ação. E à roda da mesa firmava-se o diálogo dos homens, não sem antes o discretíssimo encostar dos antebraços e o abaixar das pálpebras diante do prato numa silenciosa prece de agradecimento, quando então o velho seguraria os talheres e faria algum comentário. Quase sempre era motivado por elas, sempre elas que, exatamente nesse instante, será que não viam que para quem trabalha o dia inteiro essa tinha de ser uma hora de sossego, inventavam de brincar de chacrete nos degraus da escada e, em rebolados e braços em rotação que podiam ser admirados na janela, como se a vidraça fosse a tela da televisão em que se transmitiriam ao vivo via Intelsat 3, alternavam que saudades de você, ou, ou, ou, ou, Ana, com a febre de quem pede vem, vem me ajudar, sem seu carinho eu não posso viver naqueles dias de coração verde, amarelo, branco e azul anil quando o Furacão da Copa metia dois a zero na Tchecoslováquia. (Tchecoslováquia, Beckenbauer, Trapatone, Tito, Chico Heráclito, Agamenon, China Gordo, Leonel de Moura Brizola, Cleofas, Kolontai, Atafona, Filinto, Pedro Salgado, Guilherme e Fenelón, até hoje se desconfia de que existem uns nomes que foram inventados com a exclusiva destinação de serem pronunciados do alto do tórax largo do pai). Óbvio que a esta altura o alemão era obrigado a bater com a faca no copo e pedir num roufenho

Alau, alau…

que diminuíssem a confusão, menos pelo barulho que elas aprontavam do que pelos cabelos soltos nas coreografias insinuantes de pernas de fora.

Antes da uma da tarde o almoço estava traçado. Saíam a pé na direção da esquina e de volta viravam para a esquerda o alemão, o careca e quem mais da oficina almoçasse. Se não tivesse algum telefonema a dar, logo depois o pernambucano estiraria as costas da mão perfumada para que a mulher beijasse e sairia em direção ao ponto do ônibus que o levaria, como a um advogado normal, ao escritório do centro da cidade, próximo ao Convento de Santo Antônio.

33.

O careca voltou, uma da tarde.

Desceram as insígnias da companhia estrangeira que adornavam os cantos da fachada do galpão. O material de papelaria, aquietado nos blocos de ordens de serviços e orçamentos, resistiria por algum tempo ainda com as logomarcas da indústria alemã. Os adesivos para os vidros dos carros e os chaveiros e canetas de brinde foram distribuídos, a contabilidade há muito tempo espremia daqui, esticava dali para dar conta dos salários em dia, dos vales semanais, cortados os caraminguás mensais com que a irmã contava para a escola particular das meninas, os filhos trabalhando distante, a mulher visivelmente definhando, não há de ser nada. A contabilidade, sejamos francos, era a soma dos haveres que passavam pela caneta do careca. Em pé diante de uma caderneta no balcão lateral, onde os fregueses retardatários pousavam seus envelopes e suas pastas de couro para, aproveitando a prosa à toa, adiarem a chegada em casa, ele ia anotando somente o resultado de sua aritmética mental, produzindo uma soma da qual se subtraía o montante dos deveres que ele e mais ninguém craneava, advogados e contadores inclusive. A essa altura não era preciso nem pensar duas vezes para saber quem nesse escritório rodaria rápido, com o pessoal da mecânica era preciso mais paciência. Mesmo com os que inventaram de trabalhar ouvindo o egoísta desses walkmans apertados no braço. Muitos anos de impostos vencidos, débitos acumulados com fundo de garantia (esse total ele também pensa que sabe, mas os juros e a correção acumulados criaram um monstro de mil patas), é da inflação a culpa de terem cortado o crédito na praça, querem receber tudo cash. E essa moda de computador, essa exigência da fábrica de tudo ser informatizado. Como arranjar de uma hora para outra quem trabalhe nisso? Lanterneiros, não, desde o tempo do velho é difícil encontrar nessa cidade quem faça melhor. E na oficina, é fácil: quem não aprende a encontrar de ouvido onde está o problema de um motor, de uma correia, até da temperatura de um radiador, passar bem. Aqui, não, não iam encontrar quem dissesse que era problema de pistão o que poderia ser resolvido só com balanceamento. Aqui não, não iam encontrar vendedores de riso fácil abordando quem não queria nada diferente de limpar o carburador de carro que chegava aos vinte mil quilômetros em excelente estado, tipos que só pensam em salvar a comissão no final do mês. Dinheiro se consegue é com mão na ferramenta, é com prazo cumprido, é com ouvido atento, não é com discurso aprendido nos auditórios alugados pela firma para treinamento de promotores, que é como os vendedores se chamam quando voltam carregados de panfletos em papel brilhoso, tabelas e um totem triangular de aço escovado com o nome. Pior do que perder os clientes que têm carro da firma e fazem questão do funcionário uniformizado circulando em pátios onde não se vê gota de óleo, é ampliar novamente a freguesia, agora dona desses carros 1.0 de ignição eletrônica pilotados por garotos marombados que não têm o que fazer às três da tarde. Ou por mulheres histéricas pelos horários e o trânsito da cidade, carregando bolsas imensas, impossibilitadas de aguardar um segundo enquanto o servente termina de verificar as velas. Nem tanto. Pior mesmo são os borrachudos, os cheques reapresentados, a financeira que não antecipa uns papagaios, as seguradoras desautorizando os orçamentos. O pior mesmo logo viria, os funcionários vestidos em jalecos remendados e calças de tac-tel, alguns trocando as botas de material isolante por tênis vietnamitas (repara aquele, botou um brinco numa orelha só), em comitiva à casa da irmã, subindo os três degraus com rejuntes largos do piso de lajotas de cerâmica vermelha com bordas arredondadas logo depois do almoço, para reclamar as baixas na carteira. Os elevadores penhorados pelas autoridades da Justiça do Trabalho. O terreno na lista de imóveis a serem leiloados pela prefeitura. E ainda pior também viria: alguns poucos funcionários remanescentes na oficina, dois no escritório que aos trancos vão tocando a escrita, a moça do lanche e da faxina dos banheiros, um deles arrumando um colchão nos fundos para ficar por lá nos fins de semana, acumulando as funções de vigia com um descanso da família — nenhum conserto esta semana. A cidade cada vez mais entupida de carros, as ruas lotadas e sem vagas de estacionamento, carros de modelos e cores que nunca se viu, os ônibus são insuficientes, financiamento para todos os modelos, em todo canto tem propaganda, o metrô anda superlotado, é carro novo que não acaba. Outra semana recomeça, não há de ser nada.

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