Ensaios e Resenhas

novembro 2017 / Ensaios e Resenhas / A Nigéria é aqui

Texto publicado na edição #211

A Nigéria é aqui

Chimamanda Ngozi Adichie é implacável com a classe rica, mas um tanto indulgente com os da periferia

> Por LOURENÇO CAZARRÉ

Chimamanda Ngozi Adichie, autora de No seu pescoço

Chimamanda Ngozi Adichie, autora de No seu pescoço.

Arbitrariamente, podemos dividir os doze contos de No teu pescoço, da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, em dois grupos: histórias que se passam na Nigéria e casos que ocorrem nos Estados Unidos, mas tendo sempre como personagens pessoas oriundas do mais populoso país da África.

A maioria dos protagonistas dos episódios é da elite nigeriana — profissionais liberais, empresários ou professores universitários, seus pares e descendentes — mas que contracenam aqui e ali com alguém da margem: a vovó depositária das crendices ancestrais, o gay pobre com o visto americano vencido.

Filha de professores universitários, casada com um médico que reside nos Estados Unidos, beneficiada com bolsas no exterior graças ao seu talento literário, Chimamanda é uma implacável observadora da classe a que pertence. Mas que é um pouco indulgente com os da periferia.

Para um brasileiro, o que interessa é que a Nigéria que surge desse livro é muito parecida com um grande país da America Latina que conhecemos bem. Os que vivem no andar de cima querem se mandar para os Estados Unidos ou querem educar seus filhos lá. E o povão que se vire com a violência e com a corrupção. Mas acontece que os pobres também querem dar no pé. Como se vê, em A embaixada americana, que descreve uma imensa fila de solicitantes de vistos, acossados o tempo todo por vigaristas diversos, vendedores de bilhetes, sorveteiros e mendigos.

A corrupção nigeriana é igual a nossa, majoritariamente petroleira, e também disseminada. Nesse aspecto, aliás, é importante considerar que só recentemente ascendemos aos padrões africanos de roubalheira. Antes nos consolávamos com a velha e mais modesta corrupção cucaracha.

Já a violência de lá é diferente. Além dos assassinados corriqueiros, por um tênis, um boné, tão numerosos quanto na América, há as chacinas étnicas ou religiosas. Numa nação dividida igualmente entre a Cruz e o Crescente, ora os criminosos são muçulmanos, ora são cristãos. Os matadores ora são igbos; ora são iorubás, ora são hauçás, as três principais etnias de um país que tem — dizem — cinco centenas delas.

Em onze dos contos, as protagonistas ou narradoras são mulheres. Só há um conto sem elas, Fantasmas. É o mais esquemático. Nele, dois homens cultos, professores universitários, discutem a guerra de Biafra (1970).

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Esqueça o lado folclórico, antropológico ou sociológico do livro. Leia porque Chimamanda Ngozi Adichie é uma jovem senhora que sabe contar bem boas histórias.

Multiculturalismo
No seu pescoço, que dá nome ao livro, não é certamente o melhor. Mas é, digamos, o que reúne o maior número de fatores caros ao multiculturalismo. Conta a história de uma nigeriana, pós-graduada, que trabalha nos Estados Unidos como babá para um casal interracial: ele, judeu, advogado, de família muito rica; ela, americana com ascendência africana, artista plástica e mãe ausente. Há críticas à cultura de “plástico” norte-americana e ao jeito entre histérico e paranoico com que são criadas as crianças daquele país. Surge até mesmo uma insinuação de homoerotismo feminino. Um conto muito moderno, como se vê.

Uma experiência privada narra o encontro, na cidade de Kano, entre uma jovem igbo, da alta extração, estudante de medicina, com uma vendedora de rua, hauçá, inculta, durante um pega-pra-capar em que muçulmanos estão decapitando a machadadas cristãos, depois que um deles, inadvertidamente, passou de carro por cima de um exemplar do Corão.

A embaixada americana tem condimentos políticos. Descreve o drama de uma mulher que se apresenta na representação dos Estados Unidos para pedir asilo depois que oficiais do governo — que buscavam seu marido, um jornalista crítico — matam seu filho por engano. O relato da frieza e da insensibilidade da funcionária ianque na Nigéria reproduz bem o processo de humilhação a que são submetidos todos os brasileiros que resolvem obter um visto para levar os filhos a conhecer o Pateta no Mundo Disney.

A única história divertida, se é que podemos dizer que há humor nesse livro, é Jumping Monkey Hill, que descreve uma ridícula oficina literária, na África do Sul, para jovens e promissores escritores de diversas nações africanas.

Depois de ler No seu pescoço — cuja edição em inglês apareceu em 2009 —, sente-se a tentação de, replicando aquele antigo compositor baiano, dizer que “A Nigéria é aqui”. Vemos isso nos policiais torturadores de Cela 1. Num dos professores de Fantasmas que não recebe mais salário porque “o ministro da Educação roubou o dinheiro da aposentadoria”. Nos nigerianos de classe alta que, nos Estados Unidos, importam empregadas do país de origem. Nos simplórios que dizem: “um governo militar faria a Nigéria funcionar”. No jornalista que, ao investigar o governo, encontra apenas “assassinatos, contratos não cumpridos e dinheiro desaparecido”. Nas “crianças vendendo coisas nos sinais”. Na moça que insistia “com o tio, que era senador, que lhe arrumasse um emprego em Abuja”.

Por fim, esqueça o lado folclórico, antropológico ou sociológico do livro. Leia porque Chimamanda Ngozi Adichie é uma jovem senhora que sabe contar bem boas histórias.

 

 

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No seu pescoço
Chimamanda Ngozi Adichie
Trad.: Julia Romeu
Companhia das Letras
233 págs.

 

 

A AUTORA
Chimamanda Ngozi Adichie
Nasceu em Enugu, na Nigéria, em 1977. Sua obra foi traduzida para mais de trinta línguas e apareceu em inúmeras publicações, entre elas a New Yorker e a Granta. Recebeu diversos prêmios, entre eles o Orange Prize e o National Book Critics Circle Award. Vive entre a Nigéria e os Estados Unidos.

 

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