Sujeito oculto

outubro 2011 / Sujeito oculto / A mulher e a rosa

Texto publicado na edição #129

A mulher e a rosa

É triste o fim de domingo no ônibus. O veículo — um monstro de couraça vermelha — serpenteia pela rua […]

> Por ROGÉRIO PEREIRA

É triste o fim de domingo no ônibus. O veículo — um monstro de couraça vermelha — serpenteia pela rua exclusiva. Leva-nos em seu útero. Somos fetos a espernear contra o aborto. A tarde esgarça os braços e transforma-se em noite. Sono e lassidão se infiltram por nossas peles. A cidade aquieta-se, prepara-se para dormir. Estamos todos cansados neste ônibus no fim de domingo. Saio do escritório e rumo para casa. Carrego um livro do Gullar. Há espaço para ler em pé. Pouca gente ressona nos bancos. Eu sempre prefiro ir em pé. Assim, amplio o campo de observação. Sentada diante de mim, ela segura uma rosa. Vermelha e delicada. Eu seguro um livro. Branco e delicado. Nossos olhares se encontram. Ela o desvia para as pétalas da rosa. Eu, para os versos de Gullar.

Não é bonita. Tampouco, feia. É triste. Ou está triste. Ou apenas cansada. Segura a rosa como um troféu. O ônibus balança. Ela equilibra a rosa com o empenho de quem atravessa um oceano bravio a transportar cristais na proa de um barco clandestino. Pela janela, o vento entra ruidoso, limpa o ar, arrasta o pó. Ao redor, alguns sonham com a cabeça apoiada no vidro. Casais já não encontram a carícia necessária. Os filhos depositam a cabeça no colo das mães. Absorvem o calor que em breve não existirá mais. Algumas mães acariciam os cabelos dos filhos. As mães se arrependem pelos filhos que colocaram no mundo? Teriam esperado mais? Teriam tido menos filhos? Ela segura a rosa e, talvez, não tenha filhos. Talvez sonhe com um. Talvez deseje um. Talvez nunca tenha um. Talvez tenha vários. Agora, segura a rosa vermelha. De onde viera aquela rosa? Ganhara do amante suburbano no passeio pelo parque a lamber o sorvete na casquinha? Eu te amo, meu amor. E de repente a rosa na palma da mão lambuzada. Teria um amante nas bordas desta cidade? Um namorado? Ganhara da mãe na visita dominical? Ganhara do filho que vive com o ex-marido no bairro distante? Teria levado a rosa e, frustrado o encontro, a trazia de volta para casa? Impossível. Todo encontro renegado transforma-se em flores despedaçadas. Pela delicadeza do equilíbrio entre os dedos e o olhar atento à brusquidão do ônibus, a rosa teria vindo acompanhada de um beijo. Noto-lhe os lábios finos, sem muita vida, nenhum batom. No rosto sem maquiagem, há sinais de descuido. O cabelo escorre pela testa. O corpo é magro. Os seios pequenos. A rosa vermelha a ilumina. Mas não disfarça um incômodo que percorre todo o corpo neste fim de domingo.

Eu a esqueço, por um momento, na leitura dos versos de Gullar:

você é seu corpo
sua voz seu osso
você é seu cheiro
e o cheiro do outro
o prazer do beijo
você é seu gozo
o que vai morrer
quando o corpo morra
mas é também aquela
alegria (verso,
melodia)
que, intangível, adeja
acima
do que a morte beija. *

Quando o ônibus chega ao terminal, ela levanta-se com cuidado. Equilibra a rosa na mão direita e o cansaço no restante do corpo. Noto que olha para a capa do livro que estou lendo. Pelo gesto apressado rumo à porta, acho que poemas não lhe dizem nada. Da plataforma de desembarque, segue em direção à saída. A porta se fecha. Seguirei por mais algumas estações-tubo. Logo estarei em casa. Colocarei o livro sobre a mesa. Ela depositará a rosa num copo d’água? Ela sabe quem foi Gertrude Stein? Não faz a menor diferença. Cruza a catraca de saída. Ela carrega a rosa vermelha. Eu, os poemas de Gullar. Ambos seguimos para casa. Cansados no fim de domingo.

* Do poema Isto e aquilo (Muitas vozes, José Olympio, 1999)

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