Ensaios e Resenhas

setembro 2012 / Ensaios e Resenhas / A mosca azul

Texto publicado na edição #149

A mosca azul

O poeta é a testemunha sensível do seu tempo. É nas poesias — para além dos registros objetivos, históricos ou […]

> Por PAULA CAJATY

O poeta é a testemunha sensível do seu tempo. É nas poesias — para além dos registros objetivos, históricos ou jornalísticos — que emanam as emoções de certo grupo, inserto em dado tempo, cultura, contexto e história, numa expressão sensível que nunca poderia ser integralmente reproduzida de outra forma. Assim é que certas poesias são parte indissolúvel do contexto sócio-cultural, este dificilmente repetido por outro grupo, em circunstâncias diversas.

Não é por qualquer outro motivo que, como reconhecido pelo próprio poeta em um de seus versos, ele ainda será um dos três mitos de Brasília, ao lado de JK e Renato Russo, ambos mortos de forma prematura e intempestiva. Nicolas Behr, diferentemente dos dois, ainda está muito vivo, e com Brasilíada de fato subiu ao panteão dos mitos brasilienses. Isto porque somente aos artistas, em virtude de suas obsessões, esse misto intenso e profundo de amor e ódio por aquilo que retratam, é dado o privilégio de expor o objeto de sua fixação nas mais diversas transpirações/manifestações: poesia, arte, dança, música, cinema e tantas outras.

É assim que Brasília pode ser perscrutada, sondada, escavada, dissecada: nas linhas precisas de Niemeyer, nas letras inesquecíveis de Renato Russo e também nos versos contundentes de Nicolas Behr.

Mas Nicolas não é um franco-atirador — ou seria um jornalista, um político, um inconformado. Como é poeta, desloca o foco e observa sua amada Brasília de um ponto distante, quase mítico. Brasília não é mais uma cidade qualquer: é berço, civilização perdida, futuro ainda em promessa, enigma para se desvendar aos poucos, pelas beiras, pelos detalhes e registros de sua complexidade e grandiosidade.

Não é à toa que Barthes, em ensaio sobre a escrita poética — O grau zero da escrita —, afirma existir, por trás de cada palavra da poesia moderna, uma espécie de geologia existencial, e reconhece, ainda, que cada palavra poética se transfigura num objeto inesperado, numa caixa de Pandora de onde saem voando as virtualidades da linguagem, num discurso cheio de buracos e de luzes, ausências e signos (ou, como diria José Castello, cheio de sombras e fachos de luz) que permitem ao leitor apenas supor o que há além do visível.

Ainda que tenha apenas intuído essa serventia da escrita poética, é justamente isso que Nicolas explora: a geologia das palavras, para alcançar a geologia de uma cidade inexistente; a abertura de uma caixa de Pandora que situa o Mar Egeu no próprio Lago Paranoá; as inúmeras possibilidades que Brasília teve de ser algo maior que o sonho e o desejo de que um país, de tão grandioso, pudesse ter uma cidade (uma capital!) inventada.

Assim, buscando para Brasília outra história, erige-se também outro futuro: mais humano, talvez. Menos pautado por jornais e holofotes. Sem o gosto dessa hollywood-política que hoje, com todas as tecnologias de imagem e som, amarga na boca ao se desligar a TV Senado, a TV Câmara, a TV STF. Pelas mãos de Nicolas, Brasília deixa de ser palco para ser origem.

Cidade-sonho
Em agosto de 2012, auge do julgamento do mensalão, sistema político de compra e manutenção do poder em consenso, Brasília está na berlinda, mais exatamente no olho de um furacão. Fato não previsto pelo profeta Dom Bosco. Mais recentemente, ao lado do slogan gaiato “Sou de Brasília, mas juro que sou inocente”, a cidade ganhou uma epígrafe maldosa dos funcionários-grevistas: “Brasília — terra do mensalão”.

Afinal, o sonho de JK de construir uma cidade teria se frustrado? Ao invés de ter criado uma cidade capaz de se estruturar e ganhar corpo, identidade, história, o presidente-visionário teria apenas criado um monstro (deveria tê-lo destruído, mas não o fez). A cidade-sonho permanece, pois, sob a ameaça constante de sua destruição, única forma de se erigir uma cidade verdadeira.

Para Nicolas, justamente sob essa Brasília-inventada de JK é que está enterrada a verdadeira cidade, aquela que foi e que será, a prometida Brasília, que habita passado e futuro, mas que se encontra soterrada pelo presente.

como chegar: não se chega
pois não se parte
onde ficar: não se fica (cidade suspensa)
o que ver: não há nada para ver
pois brasília
(bem imaterial)
só existe na teoria
como sair: a cidade não tem saída
nem entrada
é labirinto

Até hoje cariocas e fluminenses se condoem da mudança de 1960 — “Ah, se o Rio de Janeiro ainda fosse capital…” é o desabafo que se ouve dos mais velhos. Fixar a capital no Rio, ou em São Paulo, vá lá, seria isso o mais lógico, o mais racional: geralmente, ganha status de capital o agrupamento político e humano que tem a fatia maior do PIB (quem paga a conta), ou alguma de suas cidades próximas que acomodem com facilidade as estruturas do poder.

Mas não: o deus kalimbu ou o monstro burocrotauro não permitiriam tais facilidades. Quantos sacrifícios ainda seriam necessários para aplacar sua sede de carne e sangue?

Brasília é um frankenstein brasileiro que não nasceu — começou a existir artificialmente (“brasília começou do nada”); não é um ajuntamento relevante de pessoas que moram e discutem o bem-estar do povo, mas um local para o qual foram transferidos todos os assuntos políticos e administrativos desse mesmo povo, como se o Brasil precisasse de um escritório gigante e bem longe de casa (porque, afinal, em casa a gente não consegue trabalhar direito).

Testemunho e lirismo
Por entre os versos de Nicolas, vamos desvendando esse enigma homérico: o “murro no muro inexistente”; mais adiante, observamos o “muro substituído pela distância”; e, de certa forma, acabamos observando esse embarque numa viagem sem volta, encontrando e desencontrando Brasília, essa que é cidade de fato para uns, dormitório para outros; essa que é morada, mas também uma espécie estranha de casa de eventos, onde o que geralmente se festeja é a iniqüidade, a pornografia, a patifaria, a malandragem daqueles que sabem aproveitar as qualidades dessa cidade-gabinete, dessa cidade-escritório.

Muito embora Nicolas tenha participado da Geração Mimeógrafo (distribuindo panfletos com o famoso cheiro de álcool e letras em azul) e tenha contribuído para a estruturação do que se denominou posteriormente Poesia Marginal, muito embora tenha sido inclusive preso pelo DOPS, a poesia de Brasilíada não é descaradamente política, não é panfletária, não indica soluções, não levanta bandeiras, não se escancara. Ao contrário, é inquisitiva, desconcertante, inquietante, desamparada e adota a melancolia própria dos desejos impossíveis. É testemunho e lirismo, fala de algo enterrado, ou de um futuro distante, e utiliza recursos e formas próprias da literatura para dizer o que somente em verso seria possível.

Naqueles que realmente vivem em Brasília, um sonho se repete toda noite: “os políticos são visitantes ocasionais/ e logo logo os expulsaremos”. Tomara. E que outra possa ser erigida sobre essa nossa capital: cidade-distrito, cidade-fantasma, cidade-plano, cidade-desejo, cidade-golpe, cidade-muro, construída e destruída por força de cimento, saliva, areia e lábia de JK, este sim um ser mitológico. Agora é tarde.

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Nicolas Behr

Nicolas Behr

Nikolaus von Behr nasceu em Cuiabá, em 1958. Mora em Brasília desde 1974, tendo estreado em 1977 com um livro mimeografado que vendeu 8 mil exemplares. Até 1980, publicou mais 10 livros em mimeógrafo. É autor de Porque construí Braxília e Laranja seleta: Poesia escolhida (1977-2007). Braxília, curta-metragem de Danyella Proença, é baseado em sua obra.

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Nicolas Behr
Língua Geral
72 págs.