Vidraça

dezembro 2017 / Vidraça / A morte de Neruda

Texto publicado na edição #212

A morte de Neruda

Notas sobre literatura e mercado editorial

> Por Jonatan Silva | Coluna

PABLO NERUDA

Considerado um dos nomes mais importantes poetas latino-americanos, o chileno Pablo Neruda (1904–1973) voltou aos holofotes no último mês. Dezesseis especialistas internacionais que, a pedido da Justiça do Chile, analisaram os restos mortais do poeta afirmaram que a causa mortis do autor de Vinte poemas de amor e uma canção desesperada não foi câncer. A teoria de que Neruda havia sido vítima do regime de Pinochet, que instaurou a ditadura militar em 1973, talvez seja comprovada. Segundo Manuel Araya, motorista e assistente de Neruda, o estado de saúde do poeta piorou depois que recebeu uma injeção no abdômen.

Intoxicação
O pedido de exumação do corpo, realizado em 2013, confirma que Neruda teve uma intoxicação causada por uma bactéria. Para Rodolfo Reyes, sobrinho e advogado do escritor, não resta dúvida quanto à fraude da certidão de óbito. “Com certeza, vamos ter mais clareza sobre a sua morte, vai mudar a história em relação à morte de Neruda”, afirmou. Ainda assim, alguns dos estudiosos que participaram do caso alertam para o cuidado necessário em relação à análise. “É preciso ser muito prudente e pensar que estamos analisando amostras degradadas com uma antiguidade significativa, e que isso sempre vai significar uma limitação às possíveis conclusões obtidas”, comentou Aurelio Luna Maldonado, especialista da Universidade de Murcia.

Luto
Morreu no último dia 10 de novembro o cientista político e escritor Moniz Bandeira, aos 81 anos, na Alemanha. A morte aconteceu pouco depois de lançar as versões ampliadas de O ano vermelho – a Revolução Russa e seus reflexos no Brasil e Lênin – vida e obra. Dono de uma vasta obra, capaz de esmiuçar a história brasileira, Moniz foi um dos principais intelectuais do século 21. Em 2014 e 2015, foi indicado ao Prêmio Nobel de Literatura.

Assédio sexual
As acusações de assédio sexual chegaram ao mundo literário. O editor Eddie Berganza, da DC Comics, foi afastado de suas funções após três mulheres alegarem terem sido vítimas de abuso. Responsável por supervisionar publicações como Super-homem e Mulher Maravilha, Berganza é acusado por Liz Gehrlein Marsham de tentar beijá-la à força em um bar em dezembro do ano passado. Histórias semelhantes são contadas por Joan Hilty e por outra mulher, que preferiu ficar anônima. Em resposta à reportagem, publicada originalmente no Buzzfeed, a DC afirmou que cultiva um “ambiente de trabalho de dignidade e respeito, que é seguro e livre de qualquer espécie de assédio”.

 Revoluções por minuto
A Companhia das Letras acaba de lançar uma nova edição de Doutor Jivago, considerada a obra máxima em prosa do russo Boris Pasternak. Com tradução de Sônia Branco e Aurora Fornoni Bernardini, o livro chegou a ser proibido na Rússia, sendo liberado somente em 1987. Doutor Jivago, cuja adaptação cinematográfica é considerada um clássico, narra a Revolução Russa – que neste ano completa seu centenário – pelos olhos do médico e poeta Iúri Andréievitch Jivago. O amor do médico por Lara é considerado um ato de resistência contra o governo que chegava ao poder após desmantelar o czarismo.

Carreira analisada
O jornalista Claudio Dirani analisa cada um dos discos solo de Paul McCartney, após passar anos garimpando a respeito do ex-beatle. Publicado pela Sonora Editora, selo idealizado pelo pesquisador Marcelo Fróes, Paul McCartney em discos e canções é um guia inédito e fundamental para entender a obra de Paul, dissecando faixa por faixa em cada uma de suas mais de 600 páginas. 

Clarice tradutora
O selo Fantástica Rocco publica Os crimes da rua Morgue, publicado originalmente em 1841, por Edgar Allan Poe e considerado a pedra-fundamental da literatura policial. A edição tem tradução de Clarice Lispector, que também traduziu – sob o pseudônimo de Mary Westmacott, os livros de Agatha Christie. Além do texto que dá título ao volume, o livro traz os contos A máscara da morte rubra, O gato preto e Ligeia.

Breves

• Estreia neste mês o documentário poético Cora Coralina Todas as vidas, misturando ficção e realidade para contar a vida de uma das poetas mais importantes do Brasil.

• A Alfaguara, selo da Companhia das Letras, lançou recentemente a obra-prima de Sinclair Lewis, Não vai acontecer aqui, uma resposta ao espectro do fascismo que rondava os regimes livres na década de 1935.

• A Belas Letras lançou em novembro a continuação de Dez (quase) amores, best-seller de Claudia Tajes, publicado em 2000. Dez (quase) amores +10 mostra a vida de Maria Ana após chegar aos 40 anos, entre um casamento e um divórcio.

• A Mundaréu acaba de lançar Andaimes, espécie de livro de memórias de Mario Benedetti (1920-2009). Escrito pelo autor de Montevideanos entre 1994 e 1996, o livro está dividido em 75 capítulos relativamente curtos.

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