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dezembro 2015 / Palavra por palavra / A metamorfose: a história de uma metáfora

Texto publicado na edição #186

A metamorfose: a história de uma metáfora

Raimundo Carrero discute a construção narrativa de A metamorfose, de Kakfa

> Por RAIMUNDO CARRERO

Franz Kafka, autor de A metamorfose

Franz Kafka, autor de A metamorfose

Este é um mundo kafkiano. A frase, de tão repetida, elogiada e ressaltada em todos os lugares, tornou-se medíocre. A culpa, óbvio, não é de Kafka, mas a sua influência é imperativa. Não se pode negar a sua força e a sua precisão a partir daquele início exemplar de A metamorfose, um achado literário mais do que uma expressão filosófica. Sim, porque a novela é absolutamente literária, criada com base no ponto de vista filosófico do autor, através do narrador, porque assim são os elementos essenciais da narrativa, conforme expressão de Graciliano Ramos, um dos escritores mais técnicos do Brasil. Aí se destaca, sem dúvida, a diferença fundamental entre a ficção, produzida como obra de arte, portanto compromissada com a estética e a invenção, e o texto ensaístico ou jornalístico, que visa, sobretudo, a precisão. No ensaio ou no jornalismo, o narrador poderia escrever uma frase — ou um jogo de frases — correta, bela, incisiva. Na ficção, os escritores têm a liberdade de investir em metáforas, símbolos e imagens, de forma a criar com visibilidade e força, ainda que abra caminho para interpretações.

Começar uma história é sempre um problema. Para a maioria, a primeira frase é o segredo; para outros, é preciso encontrar o ritmo — denso ou leve — e o clima narrativo. O exemplo mais eloquente é, sem dúvida, o começo de A metamorfose de Kafka, que coloca o leitor imediatamente dentro da história.

“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”, proclama o narrador, impiedoso e franco, metafórico, numa imagem dolorosa, cuja credibilidade está ligada ao mundo interno da ficção e não à realidade concreta. O ensaísta diria: “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, sentia-se maltratado, humilhado e ofendido”. Sem dúvida um belo começo, bem escrito e simples, mas não é literatura. A literatura reclama invenção e beleza, metáfora e imagens, já disse. E, através dela, provoca e inquieta o leitor.

E ainda mais, a novela não tem um único narrador, como parece ter, mas um narrador em terceira pessoa, outro em primeira pessoa — o próprio Gregor Samsa — e outros tantos narradores dissimulados, como se verá daqui pra frente.

Mais claro ainda:

Terceira pessoa: “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”.

Ainda terceira pessoa — “estava deitado sobre suas costas duras feito couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lamentavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos”.

Narrativa em falsa terceira pessoa — quem viu? E o que viu? Gregor Samsa, que passa a narrar dizendo o que viu, mas o narrador dá-lhe uma terceira pessoa que, no entanto, é falsa. Estas são as técnicas narrativas que enriquem a obra de ficção com artesanato exemplar.

Grito primal interno — “O que aconteceu comigo? — pensou”. Gregor pensa e grita porque viu, assombrado.

Outra frase incisiva do narrador para que o leitor, inteiramente seduzido, entre no plano do real, mostrando dois planos bem definidos — o fantástico em todo primeiro parágrafo e concreto ou real em todo segundo parágrafo.

É uma riqueza muito grande de técnicas e de movimentos presente no livro, de forma que o leitor não se sente enganado, mas permanece todo o tempo seduzido. Podemos dizer então que a narrativa começa na terceira pessoa, passa para a falsa terceira pessoa porque é o personagem que, indiretamente, narra o que vê. Vejam que predomina no narrador o verbo “ver’. Isto é, depois de anunciar, indiretamente, que Gregor Samsa acordou transformado num inseto, diz que ele levanta a cabeça e vê o corpo novo, portanto a narrativa é em falsa terceira pessoa porque se trata de Gregor Samsa narrando com os olhos e, ao se ver monstruoso, pergunta gritando — “O que aconteceu comigo?”.

Didaticamente: “O que aconteceu comigo? — pensou”.

Observem bem, no princípio, o narrador apresenta o personagem — narrativa em terceira pessoa — e coloca nele o peso do olhar — viu —, que dá maior credibilidade ao conflito. A narrativa deixa de ser indireta — na terceira pessoa —, para assumir a falsa terceira pessoa, fornecendo os elementos decisivos com incrível credibilidade. Numa única frase, o autor faz com que a narrativa deixe de ser indireta e passe a ser direta e, mais uma vez, verdadeira, sob a voz do olhar narrativo.

Logo em seguida Kafka dá um corte no clima psicológico, numa frase ainda mais curta em terceira pessoa, puxando o leitor para o real.

Rápido e ligeiro, definitivo: “Não era um sonho”. E em seguida mostra um cenário natural — que chama o olhar do leitor — sem renunciar, contudo, à metáfora e ao olhar de Samsa, o que se reforça agora no segundo parágrafo: “Não era um sonho. Seu quarto, um autêntico quarto humano, só que um pouco pequeno demais, permanecia calmo entre as quatro paredes bem conhecidas. Sobre a mesa, na qual se espalhava, desempacotado, um mostruário de tecidos — Samsa era caixeiro-viajante — pendia a imagem que ele havia recortado fazia pouco tempo de uma revista ilustrada e colocado numa bela moldura dramática. Representava uma dama de chapéu e estola de pele que, sensata em posição ereta, erguia ao encontro do espectador um pesado regalo também de pele, no qual desaparecia todo o seu antebraço”.

Podemos imaginar então que Kafka deve ter feito a primeira redação e percebeu que podia provocar o tempo psicológico do leitor trazendo a informação concreta do recorte da revista — sem dúvida uma metáfora —, localizando assim o quarto real para localizar verdadeiramente o lugar onde está o personagem e a sua realidade, reafirmada com a imagem do tempo turvo. Isso tudo mostra as etapas da criação literária. Os cortes narrativos são fundamentais, mas Kafka faz tudo isso através dos elementos narrativos literários e só depois recorre ao discurso de Gregor, marcado por travessão, sem aspas. Vejamos:

— Que tal se eu continuasse dormindo mais um pouco e esquecesse todas essas tolices? — pensou, mas isso era completamente irrealizável, pois estava habituado a dormir do lado direito, e no seu estado atual não conseguia se colocar nessa posição. Qualquer que fosse a força com que se jogava para o lado direito, balançava sempre de volta à postura de costas. Tentou isso umas cem vezes, fechando os olhos para não ter de enxergar as pernas desordenadamente agitadas, e só desistiu quando começou a sentir do lado uma dor nunca experimentada, leve e surda…

— Ah, meu Deus — pensou — que profissão cansativa eu escolhi. Entra dia, sai dia — viajando. A excitação comercial é muito maior na sede da firma, e além disso me importa esta canseira de viajar; a preocupação com a troca de trens, as refeições irregulares e ruins, um convívio humano que muda sempre, jamais perdura, nunca se torna caloroso. O diabo carregue tudo isso.

A partir daí se estabelece um tenso diálogo entre o personagem e o narrador, o que torna a narrativa mais ágil, enfocando-se a existência humana, embora com forte destaque para a técnica literária, justificando a convicção de que Kafka era, sobretudo, um Flaubert do século 20, com profundo domínio da narrativa, o que justifica o novelista. Isto é decisivo: o que qualifica o autor é sua capacidade de inventar e de criar, e não apenas para debater filosofia. O que faz a literatura é a literatura, mesmo reunindo os diversos saberes.

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