Ensaios e Resenhas

outubro 2011 / Ensaios e Resenhas / A máscara da velhice

Texto publicado na edição #129

A máscara da velhice

Bioy Casares foge do fantástico para se concentrar no absurdo do cotidiano

> Por LUIZ GUILHERME BARBOSA

Adolfo Bioy Casares. Foto: Paola Agosti Opale/Divulgação

Abrir um livro com a assinatura de Adolfo Bioy Casares é, na certa, arriscar uma aventura por uma arte que, talvez por ilusão de nossos sentidos ou conhecimentos, parece literatura. É por concebê-la como um acontecimento fantástico, diante do qual hesitamos quanto à sua veracidade, que Bioy Casares convida seus leitores a se tornarem repetições de seus personagens. Como no seu livro mais famoso, A invenção de Morel (1940), no qual o protagonista, foragido da justiça venezuelana, chega até uma ilha do Pacífico supostamente despovoada, e que, no entanto, se mostra habitada por figuras que pareciam pessoas. Na solidão da ilha, como um novo Robinson Crusoé, ele duvida daquilo que vê — pessoas ou aparições? — e precisa investigar essa máquina de fazer gente, seja ela uma ilusão produzida por si próprio ou uma invenção mirabolante de alguma cabeça sonhadora. De todo modo, entre ilusão e invenção, não se escapa da ficção. É preciso dizer de outro modo: não se escapa da ficção de ser gente. Sim, pois, como o protagonista de Bioy, os leitores ficam entre duvidar do que lêem — por parecer absurdo o que lêem — ou duvidar do que percebem do mundo — “há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe”… A vã filosofia deste argentino espalha a dúvida para fora da obra, instala a dúvida no leitor, faz do mundo ficção. Afinal, fingir não é um modo de duvidar do mundo?

Também sabia disso um poeta, leitor de Daniel Defoe na solitária infância, que espalhou a ficção dessa “comprida história que não acaba mais” para todos os lados: “E eu não sabia que minha história/ era mais bonita que a de Robinson Crusoé”. Carlos Drummond de Andrade, neste poema, volta à ilha da leitura na infância e recompõe, com estes versos, sua história como ficção. As crianças fazem muito isso. Talvez se possa dizer que, ao envelhecer, vamos transformando toda nossa ficção e todas as nossas fixações em história.

Recém-publicado em nova tradução, o Diário da guerra do porco (1969) nos apresenta Isidoro Vidal, um personagem comovente. Acompanhamos pouco mais de uma semana na vida deste jovem senhor, que testemunha um estranho e hostil levante da juventude de Buenos Aires contra os velhos da cidade, atingindo a roda de amigos com quem se reunia para jogar baralho, modificando a relação com seu filho, também jovem, e surpreendendo o destino deste aposentado que começava a não esperar muito mais da vida. A narrativa é, como se costuma dizer, envolvente. Esta, aliás, é uma marca da obra de Bioy Casares. O escritor costumava criticar muito a literatura de vanguarda, considerando-a uma catástrofe, por produzir, por exemplo, narrativas confusas mescladas a uma escrita obscura. A literatura fantástica hispano-americana produzida no século passado — da qual Bioy faz parte — pode ser lida como um belo capítulo da história da literatura em que escritores modernos procuram expandir o campo de leitura da obra, sem abrir mão de uma clareza narrativa, incorporando a estrutura anedótica dos romances policiais — que tanto prendem o leitor — e os seres e fatos absurdos tão caros ao imaginário das culturas populares. Não à toa, ao longo da segunda metade do último século, esta literatura representou uma espécie de resposta violenta e encantadora — o boom da literatura hispano-americana — à literatura européia, como uma inserção ao avesso na modernidade. Afinal, era preciso, no contexto hispano-americano, formular uma literatura original ao mesmo tempo em que se formavam leitores. O trabalho continua.

Sem garantias
O título do romance já nos oferece uma tripla indicação do livro. Assim como A invenção de Morel, este Diário da guerra do porco se escreve num estilo sóbrio, medido, movido pela necessidade de anotar. Na novela de 1940, o protagonista chega a afirmar, em vários momentos, que seu relato não é literatura, sendo escrito “sob a divisa de Leonardo”: Ostinato rigore. No romance de 1969, já não é o protagonista quem narra, e sim uma voz que anota em seu diário de guerra não somente os acontecimentos, mas também o fluxo de consciência de Vidal. Este diário, ao que parece, é o de um escritor que imagina seus personagens. Apenas parece, pois, quanto a isso, não há garantias.

O segundo termo do título fala de uma guerra, mas logo notamos que, paralelamente ao levante dos jovens contra os velhos, há um desencontro generalizado entre os personagens, e Vidal, nosso protagonista, luta a todo momento para ouvi-los e ser ouvido. Como na cena em que defende o vizinho diante da acusação de sem-vergonhice imputada por duas jovens e belas vizinhas: “Faber não tem perdão. Mas talvez o infeliz não esteja vendo como é grotesco o que ele está fazendo, porque vê-lo seria reconhecer que está velho e se aproximando da morte”. É este difícil lugar de compreensão da velhice o nó da narrativa. A guerra se infiltra em pequenas cenas e falas cotidianas, e os ataques de gangues pelas ruas são apenas mais uma manifestação — a mais violenta delas — da incompreensão com que é vista a velhice. A começar por não se reconhecer que se tornar velho é inventar para si uma inevitável máscara de velhice.

Por aí chegamos ao porco, o terceiro termo do título. A princípio, se lido literalmente, parece indicar um elemento fantástico da obra, mas não se trata exatamente disso. Por um lado, a certa altura lemos, da boca do amigo mais erudito de Vidal, a respeito do crescimento da cidade em que vive: “Já não há lugar para indivíduos. Só há muitos animais, que nascem, se reproduzem e morrem”. E este é um dos temas a que o romance se volta, o da passagem das multidões às massas na cidade moderna. Por outro lado, a “guerra dos porcos” é uma guerra aos velhos que, embora não seja narrada com elementos fantásticos, é experimentada por Vidal como um acontecimento inacreditável, absurdo.

São muitos os temas que surgem no romance e refletem, como uma sala de espelhos, a história. Por exemplo, o fato de um romance publicado em 1969 narrar um levante de jovens um ano após os acontecimentos de Maio de 1968 na França. Numa sala de espelhos, as imagens se deformam. Também aqui, pois, na França, era uma voz da juventude que se afirmava, ao passo que, no romance, é a da velhice. Ainda na França, era uma voz de liberdade e subversão, a da juventude. No romance, é uma voz reacionária e normativa a de uma juventude que contrasta pelo menos com a de Vidal, não necessariamente com a de todos os velhos daquela Buenos Aires de Bioy. Além disso, a certa altura ficamos sabendo de uma “marcha dos velhos” em protesto à onda de violência sofrida, e logo lembramos a importância que hoje têm as marchas, paradas e dias em memória de grupos minoritários das sociedades.

Minoritário, vírgula. Muito se discute a respeito do envelhecimento das populações mundiais, dos déficits das previdências sociais etc. Conhecemos um Vidal com a aposentadoria atrasada. Mas não são essas coincidências — ou profecias — do romance o que, numa consideração mais aguda, salta aos olhos. É possível ler o Diário da guerra do porco como um encontro entre um projeto, não só de literatura, mas também político, de modernidade e um futuro que afronta alguns de seus princípios mais caros. Um deles, já citado, o da individualidade, que vai se perdendo, paradoxalmente, por conta da afirmação dos grupos sociais. O romance não narra a história de um homem velho, e sim a de uma pessoa que precisa inventar para si uma máscara de velhice, a fim de que mantenha uma certa normalidade de vida. Do ponto de vista estritamente literário, há um realismo maior neste romance de Bioy Casares, no sentido de que os acontecimentos fantásticos não ocorrem, e os acontecimentos verossímeis que se dão são em parte vividos como absurdos pelos personagens. Como na passagem em que Vidal retorna ao local em que testemunhara a morte de um homem: “Não fosse pela lata de lixo, pensaria que a morte do jornaleiro tinha sido uma alucinação”. Um assassinato e uma lata de lixo já são fantásticos o suficiente, ou seja, já são absurdos o suficiente para parecerem reais.

Memória argentina
Também é uma certa memória cultural argentina que regressa neste romance com as idéias — que, o leitor lerá, são amplamente difundidas entre os personagens — de extermínio ou mudança dos grupos populacionais para gerar desenvolvimento social. Um malthusianismo já presente em A invenção de Morel que se repete no Diário. Isto sem falar na onipresença da cidade de Buenos Aires, a ponto de se poder afirmar uma personagem do romance. O cortiço em que morava Vidal, situado na Calle Paunero, o café que freqüentava na Plaza Las Heras, a aventura em torno do cemitério Chacarita e a Calle Guatemala são alguns exemplos do passeio que este livro convida a fazer.

Passeio este muito bem incentivado pelo meio de transporte correspondente, o livro. Graficamente, esta edição segue o padrão de dois dos três livros de Bioy Casares publicados anteriormente pela editora Cosac Naify no projeto de coleção das obras completas do autor. Trazendo sempre fotografias, em que o preto predomina, na capa e nas folhas de guarda, a coleção se materializa, no Diário da guerra do porco, com a imagem dupla de um senhor na capa e em cenas de Buenos Aires nas folhas de guarda. Amante e praticante da fotografia, autor de narrativas misteriosas com finais reveladores, Bioy Casares é lido através deste projeto gráfico.

A quarta capa é assinada por Rubem Fonseca, que, em poucas palavras, formula a diferença deste romance de Bioy ao mencionar o compromisso com a vida como tema do livro. Lembro-me daquela lata de lixo com que se depara Vidal. De fato, numa obra recheada de personagens muito suspeitosos da percepção que têm do mundo, Vidal se diferencia, ainda que pouco. Também ele sabe que a vida é sonho, aprendeu que “se alguém vive bastante, os fatos de sua vida, como os de um sonho, tornam-se incomunicáveis, porque não interessam a ninguém”. Ao mesmo tempo, porém, há algo que pode e precisa ser comunicado, há algo comum naquela lata de lixo a lembrar a morte de um homem. O compromisso com uma comunidade, eis um retrato do livro, a ser restaurado ou rasurado pelo próximo leitor.

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ADOLFO BIOY CASARES

Nasceu em 1914 e morreu em 1999, em sua cidade natal, Buenos Aires. Atravessou o século 20 produzindo todos os gêneros de prosa numa vasta bibliografia, da qual se destacam a novela A invenção de Morel e os livros escritos em colaboração com o amigo Jorge Luis Borges. Foi um dos principais ficcionistas daquele século.

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Adolfo Bioy Casares
Trad.: José Geraldo Couto
Cosac Naify
208 págs.