Atrás da estante

outubro 2011 / Atrás da estante / A máscara da ficção

Texto publicado na edição #129

A máscara da ficção

Em 1946, dez anos depois de ter sido preso por longos meses sob a acusação de pertencer ao Partido Comunista, […]

> Por CLAUDIA LAGE

Graciliano Ramos não queria fazer ficção de si mesmo

Em 1946, dez anos depois de ter sido preso por longos meses sob a acusação de pertencer ao Partido Comunista, Graciliano Ramos decidiu escrever sobre a sua experiência como prisioneiro. “Resolvo-me a contar, depois de muita hesitação”, ele disse, sabendo que não seria tarefa fácil. “Quem dormiu no chão deve lembrar-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas. Escreverá talvez asperezas, mas é delas que a vida é feita: inútil negá-las, contorná-las, envolvê-las em gaze.”

Na ocasião em que foi preso, Graciliano não era comunista, só entrou para o PCB em 1945, nove anos após ter sido libertado. O seu envolvimento político fora interpretado de modo exagerado por parte das autoridades do Governo Vargas após o pânico insuflado com a chamada intentona Comunista, de 1935. No entanto, a acusação formal nunca chegou a ser feita. A suspeita foi o suficiente para levar o escritor à cadeia. Nunca houve acusação, nem julgamento.

Quando decidiu enfim escrever sobre esse período de confinamento, Graciliano tinha apenas as lembranças herdadas da época e inevitavelmente esvaecidas pelo tempo, apesar de ter feito diversas notas enquanto esteve preso. Todas destruídas pelos carcereiros nas inúmeras transferências feitas de uma prisão a outra. O escritor foi libertado com as mãos vazias. A distância de uma década teve que ser preenchida com o duplo esforço da memória e da reconstituição. Graciliano não queria fazer ficção de si mesmo. Queria o testemunho, entrando assim numa fronteira sinuosa e muitas vezes ambígua. Evoca-se o acontecimento tal como ele se deu, na medida do possível. Medida que envolve perspectivas pessoais, possibilidades criadas pelo que há de mais subjetivo. “Escrevo com lentidão”, registrou em uma de suas últimas páginas escritas, provavelmente no esforço de concretizar em relato as suas lembranças, “e provavelmente isto será publicação póstuma como convém a um livro de memórias”. E assim foi, como se o tempo tivesse obedecido ao escritor.

Memórias do cárcere foi publicado após a morte de Graciliano, se tornando a expressão máxima da relação da sua escrita com a experiência vivida. “Nunca pude sair de mim mesmo, só posso escrever o que sou”, declarou, uma vez. O crítico literário Antonio Candido em seu belo livro Ficção e confissão apontou na obra de Graciliano Ramos a crescente necessidade do escritor de abastecer, livro a livro, a imaginação nos arquivos da memória, a ponto de optar por esta em detrimento da ficção. Enquanto os livros confessionais, como Angústia e Infância, apresentavam recordações por meio de uma roupagem ficcional, Memórias do cárcere é a narrativa nua e crua de um período decisivo na vida de um homem. “Só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida”, Graciliano disse em carta à irmã Marili Ramos, que ensaiava os primeiros passos como escritora, “Arte é sangue, é carne. Além disso não há nada. As nossas personagens são pedaços de nós mesmos, só podemos expor o que somos”.

Conhecido como uma pessoa reclusa e arredia, é curiosamente ao centralizar-se como sujeito da narrativa e ao retirar a máscara da ficção que o escritor Graciliano mais se aproximou do outro. Se em casa costumava ser pouco afeito a visitas e a convivência social, na prisão o escritor conviveu intensamente com os outros presos, que, como ele, estavam ali por questões políticas. Todos haviam se tornado criminosos aos olhos do governo Vargas. Graciliano testemunhou torturas, abusos, roubos. Em sua narrativa, descreve as terríveis condições a que eram expostos, a imundície, a fome e o constante cheiro de carne apodrecida. “Enfim todos nos animalizávamos depressa. O rumor dos ventres à noite, a horrível imundície, as cenas ignóbeis na latrina já não nos faziam mossa. Rixas de quando em quando, sem motivo aparente; soldados ébrios a desmandar-se em coações e injúrias. Essas coisas a princípio me abalavam; tornaram-se depois quase naturais. E via-me agora embrulhado num pugilato” (Memórias do cárcere). Descrição que, ao assumir o tom testemunhal, afirma a realidade narrada repetidamente. Nas mãos de um escritor com as habilidades narrativas de Graciliano, a força da experiência adquire impressionante densidade literária.

Antonio Candido observou que no âmago da arte de Graciliano Ramos há um desejo intenso de testemunhar sobre o homem, e que a sua escrita é projeção desse impulso fundamental, constituindo a unidade profunda dos seus livros. Faltava-me examinar aqueles homens, buscar as barreiras que me separavam deles, vencer esse nojo exagerado, sondar-lhes o íntimo, achar lá dentro coisa superior às combinações frias da inteligência. Provisoriamente segurava-me a estas. Por que desprezá-los ou condená-los? Existem — e é o suficiente (…) Quando muito chegamos a divisá-los através de obras de arte. É pouco: seria bom vê-los de perto sem máscaras” (Memórias do cárcere). Ao despir-se da ficção, Graciliano se despede também dos personagens, para buscar as pessoas, a matéria-prima de sua obra. O ser humano em confronto com o mundo, degradado por ele, em denúncia expressa pela literatura. É nesse sentido que visava à possibilidade de uma prática política do texto artístico, e, por isso, a memória se torna fundamental como operadora da diferença de sua escrita. É a memória que torna presente a experiência passada, é nela que se refugia a luta e a renovação da força expressiva da palavra.

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