Perto dos livros

dezembro 2018 / Perto dos livros / A máquina de sofrer

Texto publicado na edição #224

A máquina de sofrer

Drummond enterra entes queridos. Não é mais literatura, é a vida

> Por MIGUEL SANCHES NETO

Carlos Drummond de Andrade, autor de Uma forma de saudade

Carlos Drummond de Andrade, autor de Uma forma de saudade

A vida como ruínas; ruínas narrativas. Talvez seja esta uma definição adequada para obras nascidas de experiências biográficas. Contra o desejo de espelhamento, a força do fragmento.

Conhecido por sua obra autobiográfica desde a estreia, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), faz parte dos poetas em que o nome próprio (o seu e o de seus parentes e amigos) funciona como matéria de poesia — “Vai, Carlos! ser gauche na vida”, diz um dos versos de Poema de sete faces (1930). O nome pode ser um só, mas o eu é múltiplo, em uma espécie de heteronímia implícita. O poeta que tanto escreveu sobre a infância, sobre parentes e amigos, também os inventou como linguagem. E sempre manteve um diário íntimo, que figurou como memorabilia, uma vez que ele confessa a dificuldade de se lembrar do passado: “Quase privado de memória, o que me resta do passado são fragmentos obscuros e incoerentes que eu desejaria recompor e de que, ao mesmo tempo, procuro afastar-me”.

Esta relação dúbia com os fatos vividos vai levá-lo a tomar nota dos principais acontecimentos que o atingiam, com um diálogo consigo próprio, diálogo do tímido que sempre foi, do homem esquivo, de poucas palavras diretas sobre o que o machucava, apesar da profusão interior contínua. Depois de décadas alimentando os cadernos com confissões, registros imediatos de episódios que seriam retrabalhados como poemas, contos e crônicas, Drummond, na velhice, resolve picotar todos os cadernos, não deixando esses rastros de palavras. Eliminar o diário era uma forma de afirmar a literatura, de entendê-la como fragmentos autônomos em relação à experiência direta.

Assim, dos muitos cadernos haviam sobrado apenas passagens avulsas de 1943 a 1977, que o poeta fora estampando em suas colunas no Jornal do Brasil, entre 1980 e 1981; encorpadas com alguns inéditos, elas acabaram dando origem ao volume O observador no escritório (1985). Recusando o valor documental destas páginas, o poeta as via apenas como testemunho de uma época.

A este conjunto se somam agora as páginas deixadas com a filha Maria Julieta, em folhas destacadas de seus cadernos: Uma forma de saudade. Se estas entradas tais como constavam do original ajudam a ampliar a abrangência de O observador no escritório, elas guardam muitas particularidades. O conjunto editado trata da morte dos familiares de Drummond, tendo como unidade o fim de vida de parentes e amigos. É um livro que funciona quase como um altar para as recordações mortuárias.

O poeta enterra entes queridos. Não é mais literatura, é a vida. Em cada página, fica anotada com alguma crueldade de detalhes a decadência física das pessoas, que coloca Drummond diante de sua própria morte, mas antes de tudo do fim de uma era. Morre um tempo inteiro. Morre uma cidade, a sua Itabira natal, à qual ele deve voltar, depois de mais de uma década de ausência, para os serviços fúnebres. O volume, organizado pelo autor, está disposto a partir das pessoas, e conta a morte delas, a maneira como Drummond as acompanhou na reta final.

Morando já no Rio de Janeiro, para onde se mudara em 1934, havia no poeta um sentimento de culpa por ter se afastado de seu clã. Escrever sobre seu povinho era uma forma de se aproximar dele novamente, de pisar com palavras o chão deixado para trás. Avesso a viagens, só as fazia em circunstâncias incontornáveis, Drummond se via obrigado a visitar os doentes, tomando aviões de linha, táxis aéreos, ônibus ou enfrentando as estradas esburacadas do interior de Minas Gerais. Ele chama estes deslocamentos de “viagens fúnebres”, nas quais não se hospeda em casa de parentes, preferindo os hotéis. Come em bares e restaurantes, reclamando que só gosta da comida de casa. O homem imóvel sofre abalos, reforçados por doenças e mortes de gente amada.

Ele sabe que pouco vale aos outros este seu esforço: “É penoso assistir ao fim das criaturas. Parece que nenhum conforto lhe trazemos — e voltamos mais pobres e vazios”. Mesmo assim, quase nunca se recusa a estar com os enfermos terminais. E vai registrando as cenas de passamento, atônito: “Tudo acabou, e entretanto estas imagens perduram, vivem em mim”. As palavras conseguem ser um pouco mais duradouras do que as digitais deixadas pelos mortos, tal como ele narra na passagem mais simbólica destas páginas carregadas de dor:

Mamãe conservava com carinho o pote de brilhantina de Papai, que guardara, quando ele morreu, a marca de seu dedo na superfície da pomada. Mas o conteúdo se estragou, exposto creio que ao sol, e ela teve que desfazer-se do objeto.

Esta é um pouco a função dos diários, que dilatam no tempo a presença dos definitivamente ausentes. Em nome desta permanência precária, o poeta não se desfez desses registros mortuários. E conhecemos como eram na intimidade seus parentes, sabendo inclusive que sua irmã se suicidou.

Escritos com um acentuado grau de sinceridade, deixado para uso familiar, este diário é uma forma de Drummond fazer algo pela memória familiar. Em mais de um momento, ele se cobra: “Não fiz nada em sua memória”. Por isso poupou estas notas da destruição. Seria matar novamente os entes queridos.

Se há amor em excesso nestas páginas, manifestam-se também reprovações a comportamentos, principalmente com relação a seu irmão José, figura extremamente irritadiça. Tomar nota sobre os outros é um ato indigno — não se pode fugir de comentários mais cáusticos, nascidos sob a pressão dos acontecimentos. Daí também o desejo de destruir os diários. Para deixar a obra livre destes balizamentos e para não revelar este olhar crítico que acompanha o poeta, mesmo quando trata de entes próximos.

Livro-cemitério, em que desfilam os horrores da doença e da velhice, Uma forma de saudade presta ainda tributo ao irmão espiritual de Drummond: Manuel Bandeira. As anotações sobre ele são as mais extensas, e começam com o poeta pernambucano confessando que renunciou a muitas aventuras amorosas para evitar mulheres dominadoras, que criassem caso. O curioso é que, no final da vida, Bandeira, solteirão juramentado, se relaciona com Lourdes Alencar, transformando a vida em um inferno. Drummond define como dolorosos os últimos dias de Bandeira, “sob o controle terrível de Lourdes”, mulher rica, mas obcecada por dinheiro, que obriga o namorado a assumir o relacionamento para ficar com sua aposentadoria. Ela retém o dinheiro enviado por amigos, destinado ao seu tratamento, não pagando os hospitais e, depois da morte dele, confisca todos os seus pertences, de quadros de Cândido Portinari a panelas. O retrato é mais um dos casos que esta ave de rapina cria do que da morte do poeta, precipitada por uma queda.

Aqui, fica nítido o interesse não apenas da namorada, mas generalizado. Morto Bandeira, vem uma convocação — mais uma — para que Drummond se candidate à cadeira do amigo na Academia Brasileira de Letras. Ele recusa. E na missa de sétimo dia, os primeiros que comparecem são os dois escritores que vão disputar a vaga, o escritor mineiro Cyro dos Anjos (1906-1994) e o poeta Lêdo Ivo (1924-2012). A eleição seria vencida pelo primeiro.

Enquanto observa estes comportamentos mesquinhos, o poeta olha para os enfermos com o coração arrasado diante do triste destino da carne, sentindo-se no dever de dar um testemunho desta trajetória decrescente.

 

 

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Uma forma de saudade
Carlos Drummond de Andrade
Companhia das Letras
191 págs.

 

 

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