Inquérito

julho 2017 / Inquérito / A magia e a beleza da palavra

Texto publicado na edição #207

A magia e a beleza da palavra

26 perguntas a Carlos Herculano Lopes

> Por RASCUNHO

Carlos Herculano Lopes, autor de A dança dos cabelos

Carlos Herculano Lopes, autor de A dança dos cabelos

Após longos anos na correria das redações, Carlos Herculano Lopes abandonou o jornalismo em busca de uma vida mais lenta. Agora, dedica-se à literatura entre Belo Horizonte, onde vive, e sua fazenda no interior de Minas Gerais. Nascido em Coluna, no Vale do Rio Doce, em 1956, Carlos Herculano é autor de 15 livros, entre romances, contos e crônicas. Destacam-se A dança dos cabelos, O vestido e Poltrona 27. Sua obra já ganhou adaptações ao cinema e está traduzida na Itália. No momento, dedica-se a um novo romance, ainda sem previsão de publicação.

• Quando se deu conta de que queria ser escritor?
Na infância, em Coluna, quando comecei a escrever o meu primeiro livro, O estilingue, histórias de um menino, que foi revisitado na maturidade, e publicado pela Editora da UFMG, com ilustrações de Marcelo Lelis. Mas a certeza mesmo, veio em 1969, logo após minha chegada a Belo Horizonte, no Colégio Arnaldo, quando li o livro Tropas e boiadas, do goiano Hugo de Carvalho Ramos.

• Quais são suas manias ou obsessões literárias?
Se tenho alguma, é a de escrever e reescrever o texto várias vezes. “Buscar a magia da palavra, a beleza da palavra”, como uma vez, na adolescência, Lygia Fagundes Telles me disse em uma carta. Essa hoje se encontra no Acervo dos Escritores Mineiros da UFMG, onde tenho o meu cantinho, ou “sepultura assegurada”, segundo Jaime Prado Gouvea.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Por incrível que possa parecer, é história. História e mais história. Após dois anos estudando a Guerra do Paraguai, e outros dois a Revolução Mexicana de 1910, agora estou mergulhado na saga dos Románov, dinastia que governou a Rússia por mais de 300 anos, até ser derrubada por Lenin e sua turma, em 1917. Ficção? Praticamente só releio, com uma escapulida e outra às novidades, como os livros E se Deus for um de nós?, de Tadeu Sarmento, e Noite dentro da noite, de Joca Reiners Terron.

• Se pudesse recomentar um livro para o presidente Michel Temer, qual seria?
Crime e castigo, acho que seria oportuno.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Para mim, é noite adentro. Quando a cidade está parada. Quando você só escuta o teclado do computador. Quando a sua mente ainda não se livrou dos conflitos do dia, e todos os fantasmas estão soltos.

• Quais são as circunstâncias ideais para leitura?
De dois anos para cá, desde que deixei o dia a dia maçante do jornalismo, tenho lido e lido: no meu pequeno escritório, ou numa praça perto da minha casa, aqui em BH. Também quando vou à minha terra, o que acontece uma vez por mês, leio muito dentro do ônibus. Afinal de contas, são nove horas de viagem. E na fazenda, à noite, sozinho naquele casarão, é a única coisa que faço, senão a solidão acaba comigo.

• O que considera um dia trabalho produtivo?
Se estou na fazenda, é quando consigo olhar o meu gado, dar umas voltas nos pastos, ajudar os vaqueiros a aplicar uma vacina, curar uma bicheira, essas coisas. Se estou escrevendo, é quando consigo terminar um, dois parágrafos, e falar comigo mesmo: “esse está pronto. Não dá para mexer mais”.

• O que lhe dá mais prazer no processo da escrita?
Quando começo a dominar a história, o que é a coisa mais difícil de acontecer. Enfrentar as primeiras páginas, a primeira versão de um livro, é um tormento terrível.

• Qual é o maior inimigo do escritor?
Ele próprio, quando se acha o dono da bola.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
A pressa para publicar, ser reconhecido, receber aplausos. Trabalhei mais de 40 anos no jornalismo, e sei muito bem como é isso.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção?
Em Antônio Barreto, que é grande poeta da minha geração. E de uma geração mais antiga, no também mineiro Bueno de Rivera, que é um poeta fantástico.

• Um livro imprescindível e um descartável.
O primeiro, Grande sertão: veredas, que já li seis vezes, cada vez com maior encantamento. Descartáveis? Todos aqueles livretos de faroeste, que eu adorava ler na adolescência.

• Que defeito é capaz de destruir um livro?
O final. O ponto final. Há poucos meses li Tirza, do holandês Arnon Grunberg. O livro é fantástico, arrebatador. Mas no final, a meu ver, ele deixou a petaca cair. Entregou o ouro. Aquilo me fez ficar triste. Talvez seja apenas uma impressão minha.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
A literatura, como dizia o meu querido amigo Roberto Drummond, com quem convivi durante anos na redação do Estado de Minas, é um imenso oceano, onde cabem todas as tempestades.

• Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
Êta, sei lá. Agora eu fiquei no aperto.

• Quando a inspiração não vem…
Vou dar umas voltas, tomar umas cervejas com os amigos, ou então fico deitado no sofá, vendo o tempo passar. Também tem horas em que escrever é uma coisa muito chata.

• Qual o escritor vivo ou morto gostaria de convidar para um café?
O grande Juan Rulfo. Queria perguntar a ele: “Quem cortou as suas asas?”. Como ele disse ter acontecido, em uma entrevista, quando questionado pelo fato de ter parado de escrever.

• O que é um bom leitor?
Aquele que lê e relê um livro, quantas vezes for necessário. Uma vez perguntei ao professor Antonio Candido o que ele estava lendo. “Não leio mais, agora só releio”, ele respondeu. Ainda não posso me dar esse luxo. Mas não tiro a razão do mestre.

• O que te dá medo?
De morrer de repente, sem ter acabado de resolver umas coisas, pelas quais venho lutando.

• O que te faz feliz?
Estar em paz. O que, digamos, não é uma coisa assim tão fácil de ser conseguida.

• Qual dúvida ou certeza guiam o seu trabalho?
A feliz sensação de que, a trancos e barrancos, mesmo sem ter saído de Minas, consegui publicar quinze livros, alguns já em várias edições, outros que foram filmados, traduzidos. E a dúvida, terrível, é se conseguirei ou não escrever um último romance, uma história que me persegue há anos.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
A de ser livre, totalmente livre, no ato da criação. Mesmo que depois eu passe a tesoura.

• A literatura tem alguma obrigação?
A meu ver, no ferro frio, não. Mas quando alguém, algum leitor, chega para você e diz alguma coisa sobre um livro seu, que tocou em alguma fibra do seu coração, aí eu fico pensando que a literatura deve ter, sim, alguma função, mesmo que eu não saiba qual seja.

• Qual é o limite da ficção?
Ele não existe, até porque a vida supera, em muito, essa coisa que chamamos de ficção.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Se fosse no início dos anos de 1970, na minha primeira juventude, eu o levaria até Ernesto Guevara, fosse em Cuba, no Congo, ou abandonado à própria sorte nas selvas bolivianas. Um pouco adiante, até a Leonel Brizola, a quem tive a honra de apertar a mão, aqui em BH. Mas de uns anos para cá, eu não o levaria a ninguém, até porque, o ET iria ficar com vergonha.

• O que você espera da eternidade?
Ela existe? Mas se alguém, algum parente, ou amigo, ler algum livro meu daqui há algum tempo, quando eu já não estiver mais por aqui, já me darei por satisfeito.

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