Palavra por palavra

abril 2019 / Palavra por palavra / A luta verbal

Texto publicado na edição #228

A luta verbal

Revolta, racismo, ironia e melancolia na obra de Lima Barreto

> Por RAIMUNDO CARRERO

Ilustração: Thiago Lucas

Ilustração: Thiago Lucas

O texto desta coluna tem como objetivo revelar e analisar os elementos — revolta, racismo, ironia e melancolia — que Lima Barreto trabalha para escrever o romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha em oposição ao romance burguês brasileiro, que tem em Dom Casmurro, de Machado de Assis, o seu maior exemplo, questionando temas individuais, esquecendo, sobretudo, os problemas sociais e políticos. Revelo aqui anotações para o livro A luta verbal — resistência e militância em Lima Barreto — a ser publicado ainda neste semestre.

Recordações enfrenta e combate logo na primeira página a família e a Igreja brasileiras do começo do século 20, estabelecendo a Revolta do narrador nas três primeiras palavras: “A tristeza, a compreensão e a desigualdade”.

Com destaque para o Pai, o convencionado pai-Herói, com poderes sobre a mãe humilde, simples e resignada, sempre ocupada com os trabalhos domésticos. Destaca-se aqui que o Pai é um Padre, contestando, assim, a Igreja como matriz da Ética e da Moral brasileiras. O narrador não contesta logo a figura do Padre, porém coloca-o como construtor da família, deixando claro que estas duas instituições não são exemplares e, portanto, não estão em condições de estabelecer regras sociais. Igreja e família falham.

São estas as palavras iniciais do romance:

A tristeza, a compreensão e a desigualdade de nível mental do meu meio familiar agiram sobre mim de um modo curioso: deram-me anseios de inteligência. Meu pai, que era fortemente inteligente e ilustrado, em começo, na minha primeira infância, estimulou-me pela obscuridade de suas exortações.

Neste parágrafo está condensada a motivação do autor, de forma a colocar o leitor imediatamente dentro do livro, estimulado pela revolta de Isaías Caminha. É pela Revolta que Lima Barreto empreende seu projeto literário e, através dele, surgem os outros elementos: Ironia, Racismo e Melancolia, tomando como exemplo este livro.

Deslumbrado com o pai e decepcionado com a ignorância da mãe, mais adiante o narrador diz o seguinte:

O espetáculo de saber do meu pai, realçado pela ignorância de minha mãe e de outros parentes dela, surgiu aos meus olhos de criança, como um deslumbramento.

Não deixa de ser uma ironia o fato de uma família ser construída através de padre que, assim, coloca em xeque a seriedade da família. Aliás, a família continua sendo questionada no texto seguinte, com o aparecimento do carteiro boçal tio Valentim, em que a figura do servidor público é também ridicularizada. Difícil e antipático, ele faz firulas, de propósito demora a responder à mãe, faz pose, mostra-se importante, de forma que as mulheres — mais uma vez as mulheres, mãe e tia — quase imploram por uma resposta, enfim, trata as mulheres com desdém e faz gestos burlescos, como no exemplo seguinte:

Revolvendo lentamente o açúcar no fundo da xícara, meu tio continuou ainda calado por muito tempo. Tomou um gole de café, depois um outro de aguardente. Esteve com o cálice suspenso alguns instantes, descansou-o na mesa automaticamente. E, aos poucos, sua fisionomia de largos traços de ousadia foi revelando um grande trabalho de concentração interior. Minha mãe nada dissera até aí.

Valentin, apresentado pelo perfil psicológico, não escapa à ironia do narrador Isaías Caminha, na verdade o alter ego do autor — Lima Barreto mostrava-se disposto a criticar o servidor público, categoria arrogante diante de um povo humilde e subempregado. O interessante que, mais tarde, Isaías é candidato a emprego público, encaminhado por Valentin ao coronel Belmiro e, depois, ao deputado Castro.

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