Palavra por palavra

junho 2019 / Palavra por palavra / A luta verbal (3)

Texto publicado na edição #230

A luta verbal (3)

Lima Barreto realiza um combate vigoroso à literatura como ridículo sorriso da sociedade

> Por RAIMUNDO CARRERO

Lima Barreto faz falta à literatura brasileira; até porque, desenha, quase sempre, retratos arrasadores dos personagens na impiedosa crítica sociocultural de Recordações do escrivão Isaías Caminha. Ele realiza aí um combate vigoroso à literatura como ridículo sorriso da sociedade.

Os antigos bebiam pérolas dissolvidas em vinagre. Não eram lá de gosto muito fino e a extravagância nada significava. Eu bebo a verde esmeralda sadia, emblema da mater Natureza, num copo de xerez. Em vez da pérola mórbida, doença de um marisco, no acre vinagre, bebo o verde dos prados, a magnífica coma das palmeiras, o perfume das flores, tudo que o verde lembra da grande mãe augusta!

Estas palavras do personagem Raul de Gusmão, de Recordações…, ridicularizadas por Lima Barreto, revelam, claramente, o universo social medíocre e chulo que cercava o escritor no começo do século 20 e aparecem em um diálogo do capítulo III. Raul de Gusmão será um dos personagens mais cruelmente ridicularizados por Lima. Depois de afirmar, “Raul fez o pequeno discurso com sua voz fanhosa, sem acento de sexo e emitido com grande esforço doloroso”, o narrador adverte com uma ênfase notável:

Falar era para sua natureza obra difícil. Toda a sua pessoa se movia, se esforçava extraordinariamente; todos os seus músculos entravam em ação; toda a energia da sua vida se aplicava em articular os sons e sempre, quando falava, era como se falasse pela primeira vez como indivíduo e como espécie. Esse empurrar de sons ou gritos de um antropoide que há pouco tivesse adquirido a palavra articulada, deu-me não sei que mal-estar que não mais falei até a sua despedida.

Adianta, ainda, neste quadro de crítica sócio-político-pessoal a contundência da reflexão:

Tive medo de que me fosse preciso empregar o mesmo esforço, que minha palavra custasse também aquela grande dor já olvidada e vencida pela nossa espécie; e fiquei a ouvi-lo respeitosamente, tanto mais que nos tratou a mim e ao padeiro, com tal desdém, com tal superioridade que fiquei entibiado, esmagado, diante do retrato que fiz dele intimamente, de um grande literato, universal e aclamado, espécie de Balzac ou Dickens, apesar da voz de Pitecanthropus.

Trata-se de um perfil físico-psicológico a que Lima irá recorrer em muitas ocasiões para construir a sua grande obra, oferecendo ao leitor um retrato cruel da sua época, o começo do século 20 no Brasil, onde figuras meramente ilustrativas daquele tempo transformavam a literatura no sorriso da sociedade, com belas palavras sem vigor narrativo e sem a verdade que constrói o dia a dia. Uma literatura fantasiosa, de puxa-saco e sem grandeza.

Ao ridicularizar o personagem, Lima vai muito além, ridiculariza este imenso universo social em que vivia metida a literatura por meio de escritores medíocres que não construíram, pelo óbvio, uma obra consistente.

O narrador, porém, não se contenta e vai além. É preciso destacar, ainda, que o narrador em Isaías Caminha não é o personagem, mas o próprio Lima Barreto, envolto em sua revolta e, por isso mesmo, disposto a combater seus inimigos com sua palavra vigorosa e atormentadora:

Nos confins da minha aldeia natal, eu não podia adivinhar que o Rio de Janeiro contivesse exemplar tão curioso do gênero humano, uma desencontrada mistura de porco e símio adiantado, ainda por cima jornalista ou coisa que o valha, exuberante de gestos inéditos e frases imprevistas. Laje da Silva, porém, só sabia que ele tinha a Aurora à sua disposição, jornal muito lido e antigo, respeitado e que, no tempo do Império, derrubou mais de um Ministério. Escrevia nos jornais, era o bastante. Essa sua admiração, se era de fato esse o sentimento do padeiro pelos homens dos jornais, levava-o a respeitá-los a todos desde o mais graduado. O redator-chefe, o polemista de talento, até ao repórter de polícia, ao revisor e ao caixeiro do balcão.

Impiedoso, extremamente impiedoso. Por isso mesmo pode-se dizer que Lima Barreto faz uma falta incrível à literatura brasileira, que não exercita nem a crítica nem a polêmica. Todos muito bem-comportados.

Toda esta crítica é feita durante um jantar — e como é ridículo o jantar filantrópico brasileiro tantas vezes realizado nos luxuosos salões de clubes e entidades brasileiras. Por tais e tais motivos, a falta que faz Lima Barreto.

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