Palavra por palavra

maio 2020 / Palavra por palavra / À luta, Jorge

Texto publicado na edição #241

À luta, Jorge

O autor Capitães de areia fez da literatura uma arma contra o preconceito e as injustiças sociais em um país desigual

> Por RAIMUNDO CARRERO

Reprodução

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A forte, bela e admirável biografia de Jorge Amado (Jorge Amado: uma biografia), escrita por Josélia Aguiar e publicada pela Todavia, coloca-nos diante de um escritor que desde a primeira palavra que escreveu entrou em absoluta comunhão com as dores do mundo, enfrentando as injustiças sociais, sobretudo o racismo, com a certeza de que esta deve ser a principal atividade do intelectual brasileiro.

Quando estreou com O país do carnaval, no princípio dos anos de 1930, Jorge Amado parece ter ouvido uma ordem secreta, o chamado de um duende que circula no sangue e pulsa na veia criativa do escritor: À luta, Jorge. E percebeu que estava no front de uma guerra permanente. Reuniu as suas principais armas: a criação, o papel, a máquina de datilografar, o lápis, a caneta e se pôs a caminho.

Por isso, tratou de criar logo nas primeiras páginas o destino de um país que aprofunda, grandemente, as injustiças sociais, com desprezo e ofensas à raça negra. O bom leitor percebeu logo que ainda muito jovem ele viera para a trincheira sem desassombro, questionando o mundo e levando-o a refletir sobre as nossas dores, sobretudo na nossa formação social.

A literatura saía do beletrismo para o campo da denúncia, do grito de solidariedade com os mais fracos, e, na maioria das vezes, não somente fracos, mas atingidos na condição humana. Surge um mundo que nós leitores passamos a ver com maior desenvoltura, embora estivesse ali aos nossos olhos e cortando a nossa pele, senão a nossa carne.

Seguiram-se os livros Cacau e Suor, em cujas páginas o revolucionário, ainda tão jovem, lançava as bases de uma obra que haveria de enfrentar e vencer as dores sangrentas do humano sobre o dorso do mundo durante mais de 50 anos de atividade.

“A luta é por uma literatura que seja universal por ser nacional, inspirada na realidade brasileira, feita para transformá-la”, adverte-nos Josélia Aguiar em seu livro, escrito com grande amor pela literatura e pelo autor.

Por este tempo, Jorge Amado escreveria ainda importantes romances que o impulsionariam para a fama internacional, não sem antes amargar uma prisão. Entre eles: Jubiabá que, por assim dizer, consolida a sua obra, já gigantesca, além de Mar morto e Capitães da areia.

Capitães da areia retrata o mundo dos meninos de Salvador que dormiam em areais e praticavam pequenos roubos nos casarões da capital. Surge aí Pedro Bala, que se transformará num dos principais personagens de Jorge, amigo de Antônio Balduíno, o Baldo de Jubiabá, ou Baldo, o negro. Apesar de ter alcançado o seu momento mais criativo, Jorge Amado precisa correr de pensão em pensão no sertão da Bahia e de Sergipe, fugindo em barcaças pelo rio São Francisco para ter a liberdade da escrita. Liberdade, aliás, que reclama para os seus personagens, e para as mulheres mais amadas. Para os brasileiros. Sobretudo para a raça negra.

A capacidade criadora de Jorge Amado era impressionante. Ele publica, em seguida, Mar morto, que conta a história de Guma e Lívia, mas é essencialmente um livro de pescadores — ali examina as condições sub-humanas destes profissionais, alguns deles vistos como verdadeiras entidades espirituais. Impressiona a vida de Guma, contada desde a infância. O autor escrevia um livro por ano e um cada vez mais notável do que o outro, o que impressionava amigos, leitores e críticos. Na verdade, não era apenas literatura, ou, como se costuma chamar, as belas letras. Era a luta, cada vez mais renhida e forte. Sempre foi e é preciso lutar. Não escrevia por escrever, para contar um drama amoroso ou um coração flechado, mesmo no aparentemente romântico Mar morto. Interessava-lhe o murro da realidade, o açoite no grupo social injustiçado, o grito de agonia dos humilhados. Por isso os seus melhores e mais seguros personagens são os meninos de rua, as prostitutas marginalizadas, os pobres humilhados, os boêmios engenhosos. Aí surgem Pedro Bala, Pedro Arcanjo, Vadinho, Gabriela, Tieta e, por que não, Dona Flor.

Jorge Amado vai se engajando ainda mais no Partido Comunista, onde encontra motivação para sua sistemática, até escrever, quase por encomenda, ABC de Castro Alves, um projeto que vinha desde o início de sua formação, e a biografia de Luís Carlos Prestes, O cavaleiro da esperança. Além, claro, da trilogia Os subterrâneos da liberdadeOs ásperos tempos, Agonia da noite, A luz do túnel — onde se fala nas greves do porto de Santos. A partir de certo instante, é obrigado a deixar o país, mas sua obra não perde nem força nem qualidade. Muito pelo contrário, ganha muitas traduções e penetra, fortemente, no mercado do Leste Europeu. Além disso, torna-se grande amigo de Sartre e Ernesto Sabato… Jorge morou na mesma rua de Sabato, na região de Santos Milagres, na Argentina. Sartre, por sua vez, publicou o romance Cacau em capítulos na revista Temps Moderns, da qual era editor.

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