Entrevistas

dezembro 2019 / Entrevistas / A literatura resiste à vida

Texto publicado na edição #236

A literatura resiste à vida

Em "O mundo da escrita," Martin Puchner reescreve a história da literatura universal e contagia o leitor com seu otimismo

> Por KÁTIA BANDEIRA DE MELLO-GERLACH

Martin Puchner, autor de O mundo da escrita — Como a literatura transformou a civilização

Martin Puchner, autor de O mundo da escrita — Como a literatura transformou a civilização

Como nos relacionamos com os livros? O que significam para nós? E a literatura é um pequeno animal, por vezes domesticável, que afagamos quando nos convém e abandonamos pelo resto do tempo? O que dizer deste animal que nos permite voar como um dragão com asas, cujos cheiro e respiração sentimos, mas que nem sempre apreciamos e pouco cuidado tomamos para evitar a sua iminente extinção? As estiagens no planeta acendem as chamas, os fogos estão a derrubar as florestas em todos os continentes e nas mãos temos o papel, de onde cada célula vem de uma árvore; agora ameaçamos substituí-lo com aparelhos eletrônicos compostos por minerais; eis que livro e literatura estão conectados às nossas mãos, à natureza e, ainda assim, estamos sempre a justificar a literatura, a explicar por que as nossas histórias importam, por que a convergência da imaginação com a tinta é necessária.

Martin Puchner, professor de Literatura Comparada da Universidade de Harvard, autor da Antologia Norton da literatura mundial, manual usado no ensino superior americano, recentemente lançou no Brasil O mundo da escrita — Como a literatura transformou a civilização. No princípio do primeiro capítulo, ele leva o leitor aos meandros das missões espaciais e ao impacto dos relatos feitos por astronautas, gênios poéticos que ultrapassaram a estratosfera. A Ilíada do século 20 revisita a Ilíada original, a humanidade nesta busca de Homero, de Dom Quixote, de Proust, de Puchner, de cada um de nós justificando as nossas existências, contando e recontando narrativas. É bem verdade que, ao redor dos astronautas em visita à Lua, um silêncio gigantesco os cercava, mas era a voz narrativa que conduzia o fio entre aqueles seres humanos e toda a sua espécie. Sim, a literatura é esta voz, por vezes singela, que fala a todos nós através dos séculos, ultrapassando espaços temporais e geográficos, esta voz que alegra, fere, identifica e perpetua quem somos nesta curta vida planetária. Puchner ousou e logrou reescrever sob um ponto de vista muito particular sua história da literatura universal, e nos contagia com seu otimismo nesta quase finda segunda década do século 21.

• Em O mundo da escrita, você convida os leitores a uma incursão pelos domínios literários: houve muitas dificuldades no papel de curador de histórias da literatura universal?
No princípio, me vi como um curador que selecionava e escolhia textos. Mas, a certa altura, percebi que, como estava escrevendo sobre como a literatura deu forma ao mundo, cabia a mim levantar da poltrona e viajar. A partir daquele momento, me transformei em um viajante, um investigador, e é assim que me vejo agora. Levo os leitores por uma jornada.

• Quando iniciou as pesquisas para o livro, você procurava respostas para indagações mais próximas ao seu coração, era uma busca quixotesca ou proustiana?
O destino da literatura é algo muito próximo do meu coração. À minha volta, as pessoas estavam falando de a nova geração não valorizar a literatura, de que tudo o que as crianças fazem é jogar jogos eletrônicos e eu entrei em pânico. No entanto, pensei sobre a revolução da mídia e me convenci de que os jovens na verdade leem muito, de que estamos testemunhando uma explosão sem precedentes na literatura infantojuvenil, e que mais está sendo escrito e lido na internet do que nunca. Ao escrever sobre todas essas coisas, tentei apaziguar a minha própria ansiedade sobre o futuro da leitura, e penso que, mais ou menos, consegui me convencer de que nem tudo vai tão mal. (Mas é fácil nos convencermos de algo no qual queremos acreditar…)

• A memória coletiva depende de livros acessíveis a um grupo de pessoas que partilham de uma época e lugar? Nesse contexto, os best-sellers contemporâneos teriam algum efeito nos quadros políticos que testemunhamos, por exemplo?
É verdade que os livros partilhados — ou histórias que aparecem em livros diferentes, que são adaptadas por autores diferentes em mídias diferentes — são cruciais para fomentar uma cultura partilhada. Este é um dos meus principais temas: as histórias fornecem às culturas um senso de onde vêm e de seus valores em comum. Agora, nesta era da literatura globalizada, é possível que as histórias gerem um sentido partilhado de destino planetário. Não acho que chegamos lá ainda, mas a possibilidade me deixa esperançoso.

• Em um mundo movido pelo mercado, ideologias, gêneros, como pode a literatura “pura” (ou uma visão purista da literatura) ser vastamente lida e protegida?
Acho que uma visão purista da literatura é sempre uma ilusão. A literatura existe porque as sociedades dedicaram recursos substanciais para isso, desde educação a bibliotecas, e as sociedades o fizeram porque precisavam de literatura. Portanto, a literatura tem sido ligada ao poder, seja o poder do estado ou o poder do mercado. No lugar da preocupação sobre a preservação da literatura pura, devemos incentivar um entendimento generalizado sobre a literatura, a literatura como algo que as pessoas contemporâneas precisam e usam e querem.

• No livro, você diz que encontrar a origem das Mil e uma noites não era importante, que você precisava averiguar a tecnologia. O quão tecnológico é o papel?
Muito! O papel era feito de materiais baratos que estavam disponíveis em todos os lugares, especialmente quando era composto de retalhos de pano. A revolução do papel foi realmente importante porque reduziu o custo da literatura substancialmente. E isso significa que muitas pessoas ganharam acesso à literatura como nunca antes, incluindo uma classe ascendente de mercadores que se interessava por coleções de histórias populares como as Mil e uma noites. Também, sem o papel, imprimir não seria possível, e a impressão permitiu a produção em massa de textos, e para esta produção em massa você precisa de um material disponível e econômico.

• Um século depois da Primeira Guerra Mundial, podemos dizer que estamos revivendo um capítulo? Há elementos na literatura que nos guiem por este emaranhado?
Sim. Não consigo deixar de pensar em cenas da história, como a ascensão do fascismo na Europa, quando penso no mundo contemporâneo. Há grandes diferenças, sem dúvidas, mas também ecos que repercutem. Acabei de escrever um livro sobre um idioma subterrâneo da Europa Central chamado Rotwelsch (uma mistura de alemão, iídiche e hebraico) e perseguida pelos nazistas. Levando em consideração a crise atual, acabei de reler um livro de Victor Klemperer, TLI — Tractatus Lingua Tertii, a linguagem do Terceiro Reich. Um judeu que quase não sobreviveu, Klemperer relatou o abuso nazista da língua alemã, a introdução de palavras deliberadamente deturpadas, inclusive nomes pessoais. O que eu concluo é que se deve ouvir mais de perto como as pessoas estão usando e abusando da linguagem.

“Tenho a impressão de que a era na qual a literatura era dominada pelo romance está se aproximando do fim. Uma variedade enorme de narrativas nos cerca.”

• Certamente, as histórias nos moldam e afetam as visões que temos de nós, dos nossos países, as memórias que construímos para as nossas vidas. Um conjunto de livros define uma nação, uma cidade, uma vizinhança?
Isso é tão verdadeiro, as histórias têm poder porque consistem no modo de darmos sentido ao mundo. Elas são como produzimos significado, como colocamos os eventos em relação uns aos outros, como construímos um passado e um futuro. Nós, humanos, somos animais que produzem significado, e uma das maneiras de criar significado é através das histórias. Isso funciona no mais alto nível e no mais baixo, também, como na vizinhança. No momento, por exemplo, estou lendo o trabalho do Giorgio Bassani, o ciclo da história sobre a cidade de Ferrara durante e depois do fascismo. Um jeito comovente de compreender a Segunda Guerra Mundial colocando o foco em uma única cidade.

• A tendência atual de assistir a séries evidencia a necessidade humana por histórias. Mas a literatura, como a conhecemos, irá sobreviver? Um escritor que poderia dedicar tempo para escrever o grande romance americano talvez esteja empregado como roteirista de série ou assistindo a alguma coisa na tela?
Certo, muitos escritores talentosos vão para Hollywood, e não sei se isso é algo ruim. A ideia fixa pelo grande romance americano tem produzido uma literatura sensacional, embora tenha também enganado escritores. Acredito que precisamos deixar esta fantasia descansar. Espero que nem todo mundo vá escrever séries televisivas, apesar de entender o entusiasmo que roteiristas sintam por, de repente, terem um escopo maior para contar histórias visuais e histórias mais variadas e interessantes do que jamais foi feito antes. Entretanto, vamos supor, ou esperar, que eles também queiram experimentar outras formas literárias, talvez indo além do formato do romance. Tenho a impressão de que a era na qual a literatura era dominada pelo romance está se aproximando do fim. Uma variedade enorme de narrativas nos cerca.

• Apesar de a tela funcionar como um outro tipo de tábua, o universo que ela oferece pode ser excessivo. As horas consumidas subtraem de um tempo que poderia ser dedicado a leituras mais prolongadas, no que fragmentamos nossa capacidade de atenção?
Verdade, as telas conectadas à internet atuam como grandes distrações. Mas não devemos esquecer que esta ansiedade a respeito da distração não é nova. Leitores de livros tendem a se distrair facilmente também, e na era vitoriana a preocupação era com a leitura de romances — e os gêneros errados de romances — que funcionavam como distração. As ansiedades culturais se projetam na fonte mais nova de tecnologia.

• Livros que foram escritos e não disseminados: você citaria algum que poderia ter alterado o destino da Terra e não o fez?
Pergunta intrigante. No meu livro, escrevi sobre livros que acreditava merecerem maior reconhecimento, como Popol Vuh pelos Maias ou o Épico de Sundiata do Oeste da África. Ambos foram importantes regionalmente e têm circulado um pouco mais apenas recentemente. Será que ganharão mais leitores? Espero que sim. Incluí estes livros na minha antologia de literatura mundial, se isso vale algo. Mudarão o destino da Terra? Provavelmente, não. Mas quem pode garantir?

• A partir das suas leituras universais, haveria alguns livros que você gostaria de ver como fundamentais ou sagrados mas que não alcançaram esse status?
Na verdade, tenho sentimentos ambivalentes sobre a escritura sagrada. Sim, por um lado, estes textos demonstram o poder da literatura e deram forma ao nosso mundo até um grau significante. Mas, por outro lado, o poder exercido por textos sagrados sobre as nossas vidas não tem sido sempre para o bem. Então, não guardo esperanças de que surjam novos textos sagrados. Usei o termo “fundamentalismo textual” no livro para descrever o que acontece quando sociedades se prendem a um texto sagrado, especialmente quando este é interpretado de uma maneira fixa. No final, a culpa é dos leitores, não dos textos. Nós, leitores, devemos nos dar a liberdade de interpretar textos sagrados que respondam a necessidades do nosso próprio tempo.

• Durante a Guerra Fria, visitei uma livraria em Berlim Oriental onde quis gastar o dinheiro que fui forçada a trocar antes de atravessar a fronteira. A livraria estava mais do que metade vazia e oferecia uma seleção vasta de alguns poucos exemplares. Comprei um dicionário de termos em latim traduzidos para o alemão. Será que podemos dizer que a censura aos livros representa a maior prova do poder da literatura? E que a repetição de guerras e conflitos demonstram que o alcance da civilização é limitado?
Sim, visitei algumas destas livrarias na Europa do Leste também. Eram destinadas principalmente à exportação, precisamente porque pessoas como nós eram forçadas a trocar uma quantia de dinheiro por dia. Concordo que a censura seja uma homenagem, uma homenagem estranha, à literatura. É por isso que quis escrever sobre Anna Akhmátova, uma poeta que escrevia durante o período de Stalin no poder. Ela conseguiu circular a sua obra, primeiro oralmente, depois através de trabalhos datilografados e, apesar de ser impossível comprar os seus livros em Leningrado, onde ela morava, seu trabalho acabou sendo mais influente do que qualquer coisa que era impressa naquela época.

• No Brasil, nós enfrentamos um debate intenso sobre o papel de escritores, tal como superar o analfabetismo e criar um mundo de leitores. Quais seriam as razões para que se ressalte a necessidade de justificar a importância da literatura com frequência?
Alfabetização é importante no mundo contemporâneo, não há dúvida sobre isso. Apoio campanhas de alfabetização que permitam às pessoas participarem de um universo no qual muitas coisas funcionam através da escrita. Ao mesmo tempo, ao escrever o meu livro, fiquei realmente impressionado pela continuidade da importância das narrativas orais. É por isso que incluí no livro um capítulo sobre o Épico de Sundiata, que foi transmitido oralmente durante séculos e só veio a ser escrito no século 20. Hoje, através da internet, novos tipos de espetáculos orais podem circular com facilidade. Então, nós precisamos pensar nos dois meios, na tradição oral e escrita, como duas atividades ligadas.

“Acho que precisamos de novas histórias — histórias que nos ajudem a tratar das questões globais mais urgentes, desde a mudança climática à desigualdade.”

• Se a literatura é uma forma de arte que requer solidão e silêncio, ingredientes raros na vida dos jovens de hoje, como ela irá seduzir as gerações futuras? Também, como ela pode superar o desdém que sofre diante de outras representações artísticas?
A vida nos distrai e a literatura sobreviveu a ela, demandando atenção, com sucesso. Isso me deixa bastante otimista quanto ao futuro.

• Tem havido uma sucessão de tentativas para se produzir épicos, e você menciona Omeros, obra de Derek Walcott, como um experimento de sucesso em meio a tantos outros autores que avançaram com sagas e épicos. O século 21 nos apresentará as suas próprias versões épicas? Terão alguma finalidade?
Acho que precisamos de novas histórias — histórias que nos ajudem a tratar das questões globais mais urgentes, desde a mudança climática à desigualdade. Mas de onde virão? E qual forma tomarão? Sinto que precisam ser histórias coletivas, não apenas histórias individuais. Nós vivemos em tempos dominados por histórias individuais, livros de memórias, autobiografias (e confesso-me culpado: o meu novo livro, sobre a linguagem secreta que mencionei acima, consiste num relato familiar).

• Alternativamente, já passou da hora de um novo manifesto?
Exatamente, uma das coisas que chamam a atenção sobre os manifestos é que não contam apenas uma história individual. Pelo contrário, falam de um “nós”. Mas é precisamente porque as pessoas hoje em dia fogem dos manifestos. Quem quer assumir a autoridade para falar por um coletivo, um grupo hoje em dia? De tal modo que somos confrontados com um dilema. Um movimento na direção do indivíduo; a necessidade de uma nova espécie de coletivo.

• A literatura nos oferece verdades morais eficientes?
Ela pode. As histórias estão sempre montadas sobre valores, e podem funcionar como excelentes veículos para nos ajudar a pensar através de emaranhados complexos, talvez mais eficientemente do que um tratado sobre filosofia moral. Mas não chegam a fazê-lo necessariamente. Nem toda literatura é boa no sentido moral (ou em qualquer outro sentido).

• Você menciona a falta de obras literárias fundamentais no Novo Mundo, enquanto o Velho Mundo e o Novo ainda recorrem, por exemplo, aos clássicos gregos. O território exerce um papel na criação?
Bom ponto. Nós vivemos na era da literatura mundial e isto significa que ninguém, nenhum grupo ou indivíduo, precisa depender exclusivamente da literatura local. Isso foi o que Goethe vislumbrou quando cunhou o termo “literatura mundial” há pouco menos de duzentos anos. Se ele estivesse vivo para ver Derek Walcott usar Homero, ficaria contente. Ainda assim, o território importa sim. Walcott fala sobre como foi importante incluir o panorama caribenho na sua literatura, e do alienamento que era para ele ler literatura inglesa em cenários tão diferentes aos quais estava acostumado. Em suma, eu diria que território importa, mas a literatura circula agora com muito mais rapidez e facilidade.

• Você acha que as pessoas perceberam como ficou acessível ter uma biblioteca própria? E ainda tem a discussão sobre a curadoria e os resultados de buscas pelos leitores usuários…
Serviços de assinatura e armazenamento em nuvem estão mudando como as pessoas definem a propriedade individual. É bom lembrar que isso só aconteceu em meados do século 20, quando muitas pessoas conseguiam colecionar livros devido ao baixo custo das edições de bolso. Em outras palavras, a propriedade individual é algo muito recente. Não penso que irá acabar, mas leitores terão acesso aos textos em formas diferentes. Muitos clássicos estão disponíveis gratuitamente no Projeto Gutenberg e outras páginas de domínio público. Bibliotecas que emprestam livros, uma invenção maravilhosa do século 18, estão se reinventando. Será interessante assistir aos desdobramentos disso.

• Cabe chamarmos as livrarias de galerias de arte com conteúdo em livros colateralmente?
Sim, algumas livrarias são galerias de arte, outras, cafés, algumas, espaços para eventos, outras, lojas de eletrônicos, algumas, jardins de infância, algumas destas livrarias até vendem livros. As livrarias estão tendo que encontrar novos meios para competir com as livrarias em rede. Que experimentem! Agora, no tocante ao livro-objeto, os livros sempre foram objetos, até mesmo considerados como objetos de arte, escritos a mão ou impressos, embora seja também verdade que por muito tempo as pessoas compravam textos em folhas, dobradas e juntadas, e depois as ligavam, escolhendo capa, material etc. Entretanto, isso não acontece mais, e agora os livreiros desenvolvem o design do livro cuidadosamente, incluindo o formato, o tamanho e o tipo de papel, além da imagem de capa e a arte no interior. Uma outra maneira de explicar isso é ver o livro como um veículo, composto de texto impresso, verdade, mas também contendo muito mais. Acho que agora, em meio à revolução da escrita com as redes, quando cada vez lemos mais nas telas, tem ficado mais claro o livro como um objeto, um veículo, ou objeto de arte. Antes da internet, nós não dávamos o devido valor ao livro. Agora, que há mais competição, estamos mais conscientes do livro como um veículo específico.

“As histórias têm poder porque consistem no modo de darmos sentido ao mundo.”

• Existe um novo aplicativo que permite leituras velozes, de modo que o leitor termina a leitura da Odisseia em menos de quinze minutos. O que você nos diz sobre o tempo e a leitura?
A velocidade da leitura é um tópico fascinante. Eu, por exemplo, sou uma pessoa muito impaciente, o que significa que tenho a tendência a fazer uma leitura rápida. E depois me repreendo: deveria ter saboreado mais a experiência, como pode ser que me apressei tanto, por que não pratico leituras lentas etc. Quando me forço a ler muito devagar, às vezes gosto muito da experiência, mas, logo em seguida aos meus elogios a mim mesmo, já me vejo lendo rápido inadvertidamente. Talvez devesse inventar um aplicativo para leituras lentas. Eu mesmo ia achar bem mais útil.

• É interessante que os protagonistas mais relevantes da história, como Homero, Buda, Jesus Cristo, não chegaram a escrever as suas próprias palavras e confiaram em escribas. Um escritor assume um papel em algum grau divino, dependendo das circunstâncias?
Sim, esse grupo de professores carismáticos que não escreveu uma linha sequer (apesar de terem podido) provoca uma fascinação gigantesca em mim. Havia alguma coisa neles que atraía outras pessoas; os seus alunos e seguidores queriam viver com eles (isso não se aplica a Homero, pelo que sabemos, mas a Buda, Confúcio, Sócrates e Jesus). Tinha mais em jogo do que simplesmente novos ensinamentos ou novas histórias: um novo modo de vida. Escrever, nesse caso, era uma consideração a posteriori ou até algo que devesse ser evitado. Sócrates explicou que desconfiava da escrita porque as palavras poderiam sair de contexto, permitindo desentendimentos e manipulação, muitas das preocupações que temos sobre o Facebook hoje em dia. Talvez os professores carismáticos do futuro desliguem a internet da tomada.

 

 

Martin Puchner_O mundo da escrita_236

O mundo da escrita — Como a literatura transformou a civilização
Martin Puchner
Trad.: Pedro Maia Soares
Companhia das Letras
472 págs.

 

 

Print Friendly