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março 2020 / Rodapé / A literatura de informação: instantes (2)

Texto publicado na edição #239

A literatura de informação: instantes (2)

O narrador da “Carta de Caminha” é interessado, inocula-se na narração para incendiar em seu leitor de referência, o rei D. Manuel

> Por RINALDO DE FERNANDES

A carta de Caminha se tece entre a descrição objetiva e a vontade que o autor expressa de estimular a colonização da terra brasileira. O narrador da Carta é interessado, inocula-se na narração para incendiar em seu leitor de referência, o rei D. Manuel, o desejo de conquista e exploração da terra, que, à primeira vista, é tida como extensa e fértil — e potencialmente rica, pois, supõe tal narrador a partir de sinais emitidos pelos índios, há nela reservas de ouro e prata. Narrador que também cuida em distinguir certos traços da cultura indígena, a disposição e a indisposição deste no primeiro contato com a cultura portuguesa. E que recomenda o aculturamento religioso do índio, em quem nota um vazio teológico, já que não cultiva “nenhuma adoração”. Na História do Brasil do Frei Vicente do Salvador, entre outros aspectos, há a descrição de árvores brasileiras, do aproveitamento que delas fazem os indígenas — para edificar suas casas, para construir embarcações (“canoas de um só pau, que lavram a fogo e a ferro; e há paus tão grandes que ficam depois de cavadas com dez palmos de boca de bordo a bordo, e tão compridas que remam a vinte remos por banda”). Há no Brasil, segundo o Frei, “madeiras fortíssimas [cedros, carvalhos, angelins] para se poderem fazer delas fortíssimos galeões”. Note-se o empenho em motivar, como em Caminha, a exploração da terra — no caso, da madeira: “de tudo se aproveitam [das “madeiras fortíssimas”] os que querem cá fazer navios, e se pudera el-rei se cá os mandara fazer”. É à Maçaranduba, por ser “incorrutível”, que os índios mais recorrem para fazer “todo o madeiramento das casas”. Os jenipapos dão madeira para a produção de remos; seus frutos dão tinta com a qual os índios se tingem em festas. Quanto aos alimentos: “É o Brasil mais abastado de mantimentos que quantas terras há no mundo, porque nele se dão os mantimentos de todas as outras”. São arrolados: o trigo, o arroz, o milho, o inhame, a batata; o principal alimento brasileiro é a mandioca, com a qual se produzem farinha e beijus. Portanto, os relatos de Caminha e do Frei Vicente do Salvador escolhem certos ângulos, perspectivas, são compostos com descrições vivas, esmiuçadas em certos momentos — são elogios à terra como forma de encorajar a empresa colonizadora. Confirmam assim o que diz Alfredo Bosi: “As relações entre os fenômenos [ou os próprios fenômenos, no caso os de base econômica] deixam marcas no corpo da linguagem”.

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