Inquérito

agosto 2019 / Inquérito / A língua do escritor

Texto publicado na edição #232

A língua do escritor

26 perguntas a Betty Milan

> Por RASCUNHO

Betty Milan, autora de Baal

Betty Milan, autora de Baal

Para a escritora e psicanalista Betty Milan, somente através dos romances é possível dizer certas coisas que estão recalcadas. A autora paulista, que possui uma obra literária vasta e plural, nasceu em 1944 e publicou livros como A mãe eterna (romance, 2016), A força da palavra (entrevistas, 2012) e O país da bola (ensaio, 1998). Na infância, familiarizou-se com a língua portuguesa através da poesia. Não à toa, Betty considera essencial o trabalho cuidadoso da linguagem. “O que caracteriza o escritor é o trabalho que ele faz com a língua, um trabalho artesanal”, diz a autora do recente Baal (2019), que trata da escravidão e da imigração.

• Quando se deu conta de que queria ser escritora?
Sempre fui ligada à literatura. Pensei até em deixar a faculdade de Medicina para fazer Letras. No ginásio, meu professor preferido era o de português e eu aprendi a língua decorando poesia. Sabia o Navio negreiro inteiro. O poema, de certa forma, inspirou meu novo romance, Baal, que focaliza a escravidão e também fala da imigração.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
A mania é um ato compulsivo. Tenho a mania de anotar alguma coisa que me ocorre de repente, que eu vejo ou ouço, para eventualmente usar em algum texto. Quando isso acontece, se eu não tiver um lápis ou uma caneta na bolsa, peço emprestado e me sirvo de qualquer papel que esteja ao meu alcance. Queira ou não estou sempre atenta e ouço até demais, razão pela qual às vezes preciso me isolar.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
A do meu próprio texto. Mas eu gosto muito de ler os clássicos, os precursores — Sêneca, Montaigne, Shakespeare, Flaubert, Joyce. Atualmente, tenho me debruçado sobre a literatura americana. No ano passado, reli Moby Dick e fiquei deslumbrada.

• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Jair Bolsonaro, qual seria?
Uma biografia de Mahatma Ghandi.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Posso escrever em qualquer lugar e o barulho não me atrapalha. Quando era menina, escrevia na copa, olhando a cozinheira trabalhar. Mais tarde, na França, escrevia no bistrô. Naquele tempo, se fazia muito isso. Hoje, a França infelizmente se americanizou. Há circunstâncias em que escrevo para viver, porque a vida se tornou insuportável, e outras em que vivo para escrever, fico ligada no que acontece à minha volta. Isso acontece sempre que eu viajo.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Leitura requer silêncio. Até a música me atrapalha.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
A questão é difícil de responder. Fico feliz quando consigo dar forma a uma ideia através da escrita. Mas ficar na cama de manhã imaginando o texto também é produtivo.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
A imersão, porque ela suspende a realidade e a gente não sabe do tempo que passa. Também tenho prazer quando me leio em voz alta. Faço bastante isso porque estilizo a oralidade. A leitura, em voz alta, me dá a garantia de que o texto soa bem, de que ele é musical. Como a maioria dos descendentes de imigrantes libaneses, fui privada da língua árabe e é possível que eu esteja sempre à procura da musicalidade desta língua. O escritor precisa gingar entre a voz em que ele se reconhece e o projeto a ser realizado. Não pode ficar fascinado por si mesmo, como Narciso.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
A vaidade. Por causa dela, o escritor pode fazer concessões que tiram a sua energia e a força do seu texto. Só o que interessa verdadeiramente é o texto e isso implica em muito trabalho. O que caracteriza o escritor é o trabalho que ele faz com a língua, um trabalho artesanal. Nem todo autor é um escritor.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
Quase não frequento. Tenho alguns amigos escritores de quem eu gosto verdadeiramente e, portanto, não me incomodam.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Claudio Willer, que acaba de lançar Dias ácidos, noites lisérgicas. O texto dele tem a força de Dias tranquilos em Clichy, do Henry Miller, que foi uma das minhas referências quando escrevi Paris não acaba nunca.

• Um livro imprescindível e um descartável.
Imprescindível? Os ensaios de Montaigne. Descartáveis são os livros de autoajuda, porque não existe regra geral para ser bem-sucedido. Isso vale para qualquer área.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
O modo como se utiliza a língua, que é um tesouro e precisa ser explorada. Nenhum best-seller faz isso. Inclusive porque os autores não sabem fazer. Só conhecem a língua da comunicação — sujeito, verbo e complemento. A língua do escritor não é essa, e sim a que ele inventa. Foi isso que os modernistas fizeram. Mário de Andrade atrelou a língua escrita à língua oral e produziu uma literatura inteiramente original. Macunaíma é um livro eterno, ainda que ele não tenha emplacado no exterior.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Nenhum. Todo assunto é bom. Depende de como é tratado.

• Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
Os cantos onde os mendigos da Avenida Paulista e dos arredores dormem. Quando fiz a pesquisa para escrever Consolação, conheci todos eles. Por isso, a epígrafe do meu romance é um texto do Ginsberg: “santos os mendigos desconhecidos sofredores e fodidos/ santos os horrendos anjos humanos!”. Não entendo por que não existe uma política pública para se ocupar deles.

• Quando a inspiração não vem…
Isso não me acontece. Inspiração eu tenho sempre e dificuldade de resolver um problema literário, também. Fiz 25 versões de Baal.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Octavio Paz, que eu tive o prazer de entrevistar sobre A dupla chama, um livro que ele escreveu pouco antes de morrer.

• O que é um bom leitor?
Aquele que se surpreende e surpreende o escritor com algum comentário pertinente.

• O que te dá medo?
O medo.

• O que te faz feliz?
Escrever ou encontrar um amigo. O esporte também me deixa feliz.

• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
Dúvida? Sobre qual livro devo escrever. Tenho sempre vários projetos na cabeça e no computador. Certeza? De que o livro acabou.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Não fico preocupada. Me ocupo de escrever e depois reescrevo tantas vezes quantas necessárias. Leio, releio, escuto as críticas e me deixo orientar por elas.

• A literatura tem alguma obrigação?
Compromisso com a verdade. Se escrevo romances é porque só através deles é possível dizer certas coisas que estão recalcadas. O romance desvela a realidade, põe a injustiça a nu, possibilitando a identificação e eternizando o universo que ele cria. Dom Quixote é um justiceiro com o qual todos nós nos identificamos e o universo dele é eterno.

• Qual o limite da ficção?
O céu é o limite da ficção. O que limita o escritor é o tempo que passa. Mas, se ele não passasse, a gente nunca escreveria os romances da maturidade.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Tenho o sentimento de viver às voltas com ETs, de tão estranho que o mundo ficou. A maioria deles tem líderes. Já eu, não.

• O que você espera da eternidade?
Gostaria de ter escrito ou de escrever uma única frase que ficasse para sempre. Como, por exemplo, a frase do Quevedo: “somos pó amoroso”. Ou to be or not to be. Agora, se o planeta deixar de existir por causa dos tantos ETs, nem estas frases ficarão.

 

 

Betty_Milan_Baal_232

Baal
Betty Milan
Record
223 págs.

 

 

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