Palavra por palavra

novembro 2017 / Palavra por palavra / A impureza do romance

Texto publicado na edição #211

A impureza do romance

Flaubert decretou o nascimento do romance puro, sem interferência exterior

> Por RAIMUNDO CARRERO

Ilustração: Bruno Schier

Ilustração: Bruno Schier

Quando pensou em criar um romance absolutamente puro, ou seja, sem a interferência da filosofia, por exemplo, da sociologia, da antropologia, da psicologia, ou de outras ciências humanas, apenas com técnicas ficcionais e com a intimidade da narrativa, Flaubert decretou o nascimento do romance puro, sem interferência exterior. Destacava apenas o como artístico e desprezava o que. Mais tarde, os vanguardistas tentaram — e em muitos casos conseguiram — recuperar o que, embora destacando o como ou dando-lhe destaque. Para Flaubert, o uso muito destacado do discurso filosófico, com a defesa de um ponto de vista rígido, tirava do romance o que ele tem de mais caro: a ênfase artística. Para a vanguarda, o discurso de parágrafos e parágrafos, páginas e páginas seria substituído por uma cena ou por um gesto do personagem, o que daria texto à qualidade estética que, afinal, é o caminho da arte. Assim, o romance continuaria puro, sem recorrer a ciências. Mesmo assim, ainda não existia uma indústria do livro para divertimento, o que nasce e floresce incrivelmente depois da Segunda Guerra com a conquista dos norte-americanos.

Em O escritor e seus fantasmas, Ernesto Sabato discute o assunto com vigor e determinação:

Há, provavelmente, duas atitudes básicas que dão origem aos dois tipos fundamentais de ficção: ou se escreve de brincadeira, para entretenimento próprio e dos leitores, para passar e fazer passar o tempo, para distrair ou procurar alguns momentos de evasão agradável, ou se escreve para investigar a condição humana, empresa que não serve de passatempo nem é uma brincadeira nem é agradável.

Com efeito, é quase normal, para não dizer que é inevitável, a sensação de desagrado que produz a leitura de um romance dessa natureza. E isso se deve não somente ao fato de que a exploração da natureza humana é angustiante, como também porque, propondo-se a isso ou não, esse tipo de ficção nos produz um desassossego, que tampouco nos dá prazer. Maurice Nadeau afirma que um romance que deixe tal como era o escritor e o leitor é um romance inútil. É verdade. Quando terminamos de ler O processo, não somos a mesma pessoa de antes.

Aliás, este livro de Sabato é também uma proclamação de como incomodar o leitor com uma literatura de reflexão e resistência. Antes de tudo, porém, uma profunda e grave reflexão sobre a arte do romance e suas consequências, revisando, sobretudo, os principais movimentos literários do século 20. Sua leitura, porém, é inevitável. Sobretudo para aqueles que querem ser escritores. E, é claro, escritores de romances.

Num momento decisivo deste livro fundamental, Sabato nos faz refletir sobre autores universais. Às páginas 35 e 36, questiona Flaubert, Zola e Gorki, por exemplo.

O objetivismo e o naturalismo foram mais uma manifestação burguesa. Com Flaubert e Balzac, mas sobretudo com Zola, essa estética e essa literatura chegam ao seu apogeu, a ponto de que, por seu intermédio, estamos em condições não somente de conhecer as ideias e os vícios da época como também o tipo de tapeçaria que se usava. Zola, que reduziu ao absurdo esta modalidade, chegou até a levantar prontuários de seus personagens, onde anotava desde a cor dos olhos até a forma de vestir de acordo com as estações. Gorki levou ao fracasso seus excelentes dotes de narrador para acatar esta estética burguesa (que ele acreditava ser proletária) e afirmava que para descrever um dono de armazém era necessário estudar cem para tirar os traços comuns, método da ciência, que permite a obtenção do universal com a eliminação das particularidades: caminho da essência, não da existência.

Escrevo tudo isso para registrar, embora de maneira rápida, a brilhante tese Raimundo Carrero e a pulsação narrativa, que a professora Priscila Varjal defendeu no doutorado do Curso de Letras, da Universidade Federal de Pernambuco. Priscila examina meus livros teóricos Os segredos da ficção e A preparação do leitor, além da novela Sinfonia para vagabundos, concluindo que a Pulsação Narrativa é “um movimento vigoroso didático de criação literária”, mas faz muitas restrições ao meu trabalho, que procura estudar à luz da Estética de Lukács, o conhecido professor romeno que fez pertinentes comentários à obra de Marx. As restrições são insistentes e reiterativas, embora a estética carreriana não tenha nenhum contato com Lukács, estabelecendo-se aí um grande distanciamento. Na verdade, não me preocupei com uma estética, mas com um manual para iniciantes. Examinei a construção do romance, tendo o narrador como mediador entre o texto e o leitor.

Destaco logo no princípio de Os segredos da ficção que o escritor não tem estilo. Quem tem estilo é o personagem. Enfoco, também, que uma cena deve ser narrada pelo personagem que está no centro da narrativa, conforme o seu pulso. Daí a pulsação narrativa que, apesar de tudo, é “um movimento vigoro didático de criação literária”, conforme destaca a autora.

A professora se detém, com muita propriedade, no estudo da construção dos meus personagens que nascem a partir de fotografias de jornais. Para Priscila, o “experimento do autor consiste exatamente em dar vida, em outro plano, às realidades estampadas nos jornais, com o intuito de iluminar uma personagem que não é só emblemática mas também o estandarte de um mundo intolerável”.

Neste sentido, procurei atingir a existência, e não apenas a essência, conforme Ernesto Sabato.

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