Ensaios e Resenhas

março 2012 / Ensaios e Resenhas / A importância das perdas

Texto publicado na edição #104

A importância das perdas

Paciente leitor, aqui me tens de regresso, mais uma vez com a morte embaixo do braço. Antes permitam uma inconfidência: […]

> Por LUIZ HORÁCIO

Paciente leitor, aqui me tens de regresso, mais uma vez com a morte embaixo do braço. Antes permitam uma inconfidência: 2 de maio de 2006, noite, sala da casa de Fausto Wolff, Rio de Janeiro, e ele mostrava a mim, ao editor Alberto Quartim, e ao jornalista Marcelo Carota, o Pirata, uma mesa onde, sob um vidro, estavam fotos daqueles que haviam feito, nos dizeres de Wolff, a sua cabeça. Uma homenagem aos mortos.

É assim, infelizmente, cultivamos o hábito de homenagear os mortos. Dos vivos, esquecemos com facilidade. Homenagem é coisa para morto. É? Se você responder afirmativamente, saiba que não concordo. Não sei por quê, mas me agrada muito mais gente viva. Digo isso porque nunca deixei de dizer ao Fausto o quanto o amava, e quando brigamos, ele também ficou sabendo o motivo. O escritor e professor Prado Veppo, a quem dedico um de meus livros, também soube de meu amor enquanto vivia. Dos citados acima, o Quartim e o Pirata, desejo-lhes mais cem anos entre nós, de preferência em minha companhia, e assim desse jeito meio tosco vou agradecendo aos meus amigos, forma modesta de homenageá-los.

Em Aqui nos encontramos, John Berger homenageia pessoas que fizeram parte de sua trajetória de 82 anos e também discorre, sempre com o auxílio dos mortos, sobre algumas frutas, cujos sabores e aromas são relembrados, sexo, literatura e principalmente sobre a morte.

“Aquilo que você deveria saber é o seguinte: os mortos não ficam onde estão enterrados.” Esta frase é o tiro de partida a esse passeio empreendido pelo autor na companhia da saudade. A frase é dita pela mãe do protagonista, morta há 15 anos, num encontro em Lisboa. O protagonista é o próprio autor deste misto de romance e ensaio biográfico.

Partindo de Lisboa, John passa por alguns países europeus numa longa viagem arquetípica onde são testados os limites entre o real e o imaginário, entre o passado e o presente, entre a individualidade e a necessidade do outro. Numa leitura mais simples, podemos dizer que é um reencontro com a capacidade de se emocionar.

Aqui nos encontramos é um olhar para o passado. Nesse relato de 208 páginas, o leitor perceberá a literatura como o motivo central das preocupações de Berger, logo em seguida poderá eleger Lisboa como outro de seus amores, a Europa viria a seguir; mas também perceberá que ele amava ainda mais a conquista de uma liberdade que lhe permitiria ver-se tal como era, sem exemplos históricos, muito menos religiosos.

Ruínas emocionais
O leitor sente-se despojado de uma carga histórica nem sempre confiável e invariavelmente infantil, quase boba. Deste modo, estará livre para contemplar-se em meio às ruínas emocionais. Assim, leitor e autor poderão compreender a importância das perdas a que lhes obrigaram a vida e sua falta de lógica.

Muitas vezes nos aconselham que o melhor modo para nos ressarcirmos moralmente de nossas perdas materiais e afetivas é a prática do mergulho interior, encerrar-se em si mesmo e organizar uma grande força centrípeta para logo adiante transformá-la em força centrífuga. John Berger volta essa força para a Europa, volta com seu sentido criador e harmonizador de emoções. Os sentimentos estão no comando dessa viagem, mas o navegador é o espírito crítico. Por vezes vestindo o uniforme do criticismo histórico. É nesse momento que a narrativa passa a atuar na consciência e no espírito de seus compatriotas, John atua como um terrorista das idéias. John Berger é inglês e a Inglaterra tem mais que o dobro da população que é capaz de alimentar com recursos próprios.

O número de vidas que entram em nossa vida é incalculável. O resultado disso, o mais evidente, é a saudade. Embora o autor se refira apenas aos que entram, por outro lado esses mesmos costumam sair sem nos avisar, alguns retornam, a outros a morte não dá essa permissão.

Aqui nos encontramos é a homenagem solicitada por Miriam, a mãe de John, em seu encontro em Lisboa: “Apenas escreva o que descobrir (…) e faça o gesto de cortesia de nos observar”.

De observar mortos; sua mãe, Borges, Ken, o jornalista, professor de dança, gigolô, em sua viagem as lembranças deflagram comentários sobre frutas, os mortos estimulam essas recordações, encontra sua filha Kátia, funcionária do Grand’ Théâtre de Genebra.

Os personagens de Berger constituem uma amostra da substância humana — e por conseguinte claro-escura — da história, resultam daí, símbolos, imagens emblemáticas das limitações e também da crueldade sem fim que se faz inerente ao homem.

Vasto livro
Em verdade, John Berger e todos os demais escritores escrevem apenas um vasto livro onde cada diferença aponta uma semelhança e cada desvio implica um novo intento de nos aproximarmos de nosso centro. Todos invocam a sintaxe da alma, como escreveu Manuel Álvarez Ortega; todos querem unir realidade com suas obsessões individuais, ao mesmo tempo em que todos caminham para a morte.

Talvez o leitor de Aqui nos encontramos conclua a leitura sem saber muito bem de que se trata, se um ensaio, uma autobiografia, um relato de viagem; ainda que comovido por uma terna melancolia arrisque encarar o texto como um diálogo entre amigos e que o tema dominante sejam as recordações a permitir sinuosidades e invadir meandros sensíveis. Desse modo, os ecos dessas recordações assumem dimensões orgânicas.

Concordo com Miriam, os mortos não ficam onde estão enterrados. Não me refiro às pessoas mortas, visto que a morte é o fim — essa balela de vida após a morte só vai me convencer depois de morto. E ponto.

Porém ficam as lembranças e é aí que os mortos mudam de lugar embora não deixem jamais de ser concessões de nossas permanentes carências. E já que John Berger falou de Miriam, sua mãe e de viagens, me permita, sensível leitor, falar de Doralina, minha mãe e um pouco do significado de viajar. Melhor, me permita falar de algumas lembranças que ela deixou.

(As viagens têm a propriedade de operar mudanças nas pessoas, e eu gostava de observá-los, pai e mãe, quando retornavam após alguns dias fora de casa. Queria saber por quanto tempo eles permaneceriam diferentes. Nunca durou o tempo que eu esperava.

Viajar para minha mãe representava um soluço de liberdade enquanto o cotidiano lhe emprestava os grilhões que ela não conseguia disfarçar. Tolerá-los apressou o desenlace trágico.

As mães de meus filhos, todas, têm um pouco de minha mãe; é triste, muito triste.

Assustado, fugi pra solidão, pro silêncio, esconderijo dos covardes, dos egoístas, daqueles que não conseguem sequer se ajudar. Perdoem, meus medos são fortes demais para se unirem a outros, eu não suportaria.

No silêncio, consigo não fugir de mim, é quando choro e me aplaudo, é quando corto os pulsos e não sangro, é quando rio e não me humilho, é quando escrevo e não corrijo, é quando morro e acordo.

Meu pai me deu o silêncio que preencho com palavras silenciosas que minha mãe me ensinou a escrever. Mas o vazio quase insuportável, ah o vazio, não há pai, mãe, mulheres ou filhos que consiga aplacar!

É no silêncio que me sinto bem, é do silêncio que acredito ainda venha a ouvir minha mãe, me fascinam as mãos, os pés e os olhares, os carinhos mais sinceros. Assisti à morte de uma filha e ao nascimento de outra. À primeira só pude oferecer meu olhar, dois meses de vida, olhos fechados, máscara de oxigênio, madrugada, de repente levantou o braço em minha direção, dei-lhe a mão, ela abriu os olhos e em seguida guardou-os para sempre. A segunda, logo a tive em meus braços, só me perceberia bem mais tarde.

A morte é o silêncio privado do olhar. A mais genuína traição.

Eu vivo olhando para as minhas mãos. Não pretendo ultrajá-las secando mais lágrimas.)

Caro leitor, Aqui nos encontramos é daqueles livros que dignifica a arte de escrever, capaz de provocar em leitores e escritores a ânsia de aprender cada vez mais, sobretudo aprender a amar e fazer desse amor a homenagem maior, aos vivos sempre, porque homenagear morto, posso garantir, é uma grande sacanagem. Até hoje não sei de nenhum que tenha agradecido.

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JOHN BERGER

berger

Nasceu em Londres, em 5 de novembro de 1926. Aos 15 anos, era anarquista. Depois da Segunda Guerra Mundial, quando já era escritor, passou a ser duramente criticado por sua simpatia ao marxismo. Ele é famoso por suas obras de ficção — romance e contos — e não-ficção, em especial livros de crítica de arte. Destaque para Modos de ver, de 1972, referência para toda uma geração de historiadores da arte, ao refletir sobre a relação entre o que vemos e o que sabemos ou acreditamos. Escrito em parceria com mais quatro autores, o livro é baseado no popular programa homônimo, veiculado pela BBC de Londres no início dos anos 70.

John Berger_livro

John Berger
Trad.: Ana Deiró
Rocco
208 págs.