Dom Casmurro

junho 2020 / Dom Casmurro / A ilha

Texto publicado na edição #242

A ilha

Conto Inédito de Adriana Vieira Lomar

> Por Adriana Vieira Lomar

Ilustração: Taise Dourado

Ilustração: Taise Dourado

O vento deu uma trégua, mas em seu lugar veio a onda de calor. E mesmo posicionada em frente ao mar, debaixo de uma barraca, vi o suor escorrer no meu corpo manchado de outros verões. Avançava na leitura de um livro sobre heróis feito para heróis.
Pausei no mito oriental, o que tinha várias mãos e pés, um polvo. Em frente havia vários guarda sóis, crianças barulhentas e pais alheios que sequer miravam o mar. Todos estavam com o olhar cabisbaixo, envoltos em mensagens ruidosas de tons agudos e estridentes. Ainda estava focada no trecho em que o mito Febo desvendou a paternidade. Ao filho, cedera as rédeas dos cavalos alados. E minha atenção estava voltada para o mar. As ondas gigantes me posicionaram naquele barco e naquela história. Os dois meninos se salvaram e a mala com as roupas e a memória servia de travesseiro para os pequenos.
Sem conhecer a língua e os costumes daquela terra, temiam ser deportados para o país de origem. Isso representava a frustração do sonho do pai que desejava que eles tivessem a chance de terem uma vida melhor.

Na ilha
A ilha tem um formato de sapato bico fino. O mar azul cobalto contrasta com as folhas das palmeiras verde claras. O vento traz refresco. Os dois meninos estão dormindo com as mãos coladas. A unha do mais novo está carcomida, o pus recobre o que falta completando o espaço da unha.
O mais velho abraçado ao irmão tem a pele arrepiada, mas o sono vence os arrepios o fazendo adormecer.
Os dois estão no abrigo de uma pequena falésia. A areia branca e fina aquece os corpos que neste momento estão embalados com o paletó do pai. Os furos grandes exibem o marrom dos seus corpos e o negro do tecido aquece o que ainda está frio.
A manhã aos poucos se rompe.
O primeiro a acordar, o mais novo, cutuca o irmão:
— Jó…
O irmão sonha com a vizinha da aldeia, os dois colhem goiabas e enchem as bacias. São ágeis e sem que percebam estão sendo observados pelos vizinhos.
Depois de encherem as bacias caminham em direção ao arruado. Há querência em pegar na mão, mas a vergonha é maior do que a vontade. Ao chegarem no fim da estrada, olham um para o outro. Ele dá um beijo na bochecha gorducha da menina vizinha.
Em estado de sorriso acorda.
— Nossa, achei que você tinha morrido.
— Ed, enchi o tacho de goiabas.
— Jó, vamos morrer de fome, não vi goiabeira nem qualquer fruteira por aqui.
Os dois de mãos dadas saem da toca e com cuidado começam a desvendar a ilha.
— Não escutei nenhum passo de ninguém.
— A vigília deve ser noturna, Ed.
A passos miúdos eles caminham pela pequena orla. Molham os pés e sentem a água fria. Jó diz que o machucado dos dedos da mão de Ed cicatrizará se ele tiver coragem e ficar uns minutinhos com as mãos imersas no mar.
Ed não reluta e faz o que o irmão sugere.
— Ai ai meus dedos
Enquanto o pus resvala dos dedos, Jó está com um pedaço de toco de coqueiro e com uma pedra vinda do mar. Molda o toco como uma lança e se afasta um pouco mais de Ed. Sentado nas pedras ele lança e fisga um peixe médio.

Vem com o presente nas mãos. Sorri.
No pequeno abrigo eles assam o peixe liso de espinhas. Um coco cai enquanto eles comem.
Tiram da mala uma faca de prata. Abrem um furo nos dois lados e bebem. Nutridos, resolvem explorar a ilha.
Do lado que estão só há uma praia e um areal. Coqueiros.
Do outro lado há construções.
— Fica longe daqui. A gente tem que lembrar que à noite os guardas fazem a ronda.
Diante do perigo eles voltam e adormecem fazendo da mala um travesseiro. Se cobrem com as folhas dos coqueiros.
— Amanhã a gente acorda cedo, pesca, e sai logo.
Sussurram. Os guardas estão por perto. Se preocupam em apagar as pegadas. Sem rastros, conseguem dormir tranquilos.

 

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