A literatura na poltrona

fevereiro 2014 / A literatura na poltrona / A hora de Rubem Braga

Texto publicado na edição #166

A hora de Rubem Braga

Encerra-se o ano do centenário de Rubem Braga (1913-1990), o grande mestre da crônica moderna brasileira. Os amigos sempre perguntaram […]

> Por JOSÉ CASTELLO

Encerra-se o ano do centenário de Rubem Braga (1913-1990), o grande mestre da crônica moderna brasileira. Os amigos sempre perguntaram a Braga quando, afinal, ele escreveria um romance. Cronista “puro sangue”, sempre foi reconhecido como um dos grandes narradores brasileiros. Por que, então, permanecia preso ao gênero “menor” da crônica — os amigos se perguntavam. Por que não arriscava vôos mais altos? Por que se recusava a escrever o grande romance que todos desejavam ler? Por timidez? Por preguiça? Por não acreditar em si?

Braga jamais se interessou em se tornar romancista. Nunca escreveu o romance que os amigos lhe pediam. O conselho, sincero e amoroso, que eles lhe davam soava, na verdade, como a manifestação de um preconceito. Por que a crônica seria “menor” e o romance, “maior”? O instrumento ideal para avaliar a grandeza de uma literatura seria a contagem do número de linhas? Por que, para se consagrar, para “amadurecer”, um escritor precisa se tornar romancista? Sim, as crônicas costumam não ter mais que duas ou três páginas, enquanto os romances se estendem a centenas. Uma crônica pode ser escrita em duas horas; um romance exige, em geral, dois anos ou mais. Mas a literatura, Braga pensava, não se interessa pela contabilidade; em definitivo, a grandeza de um relato não se mede por seu tamanho.

Em uma entrevista antiga, ele explica seu desinteresse pelo romance: “Eu não tenho imaginação. Por isso não escrevo romances. Escrevo sobre o que vejo, escrevo sobre fatos e sobre coisas concretas. Minha imaginação é péssima”, diz. As crônicas que nos deixou, contudo, desmente esta avaliação. Sabe-se que tentou escrever um conto, O macaco empalhado, a história de um símio acondicionado em palha que, um dia, moveu o polegar da mão direita. Acreditava na idéia, mas não a concluiu. Passou um longo tempo debruçado sobre rascunhos, escrevendo e reescrevendo. Por fim, desistiu. Como sempre, o presente o venceu.

Braga não aceitava que se desprezasse a crônica, gênero que sempre teve em alta conta. Acreditava que esse desprezo se explica por dois motivos. De um lado, o vínculo direto que a crônica tem com o cotidiano e com a circunstância, seu pacto feroz com a realidade, posição limítrofe com o jornalismo, que lhe roubaria a condição literária. De outro — e o próprio Braga é um exemplo definitivo disso — a aposta radical no lirismo, que a aproxima da poesia. Entre o apego à realidade, que caracteriza o jornalismo, e a opção sincera pelo lirismo, que em geral se confina na poesia, existe um grande vão. Imenso abismo, que muitos julgam ser intransponível, mas do qual a crônica moderna se apoderou.

Adeptos da invenção e da liberdade interior, os escritores olham o jornalismo, em geral, com desconfiança, senão com desprezo. Ele é muito rápido — quando a literatura pede a lentidão. É circunstancial — o que, para muitos, é sinônimo necessário da superficialidade. Coloca-se em uma posição de dívida constante para com o real, enquanto os escritores se formam justamente na convicção de que nada devem a ninguém. O jornalismo seria “o contrário” da literatura, de modo que uma literatura que dele se aproxime — a crônica — é vista como suspeita e banal.

Quanto ao lirismo, basta ver o que aconteceu com a poesia brasileira a partir da metade do século 20. Os movimentos de vanguarda e os grupos experimentais, que ali se disseminaram, sempre desconfiaram do lirismo. Ele seria um recurso barato, de poetas que “não têm o que dizer” — e foi Bandeira quem observou que Braga tira suas melhores páginas justamente dessa “escassez de assunto”. O lirismo é tido, ainda hoje, como um sintoma de aprendizes. Só grandes poetas — Bandeira, Drummond, Vinicius — estão autorizados a manejá-lo. Nas mãos erradas, ele se torna sinônimo de debilidade intelectual.

Braga se aferrou, porém, a esses dois princípios: o apego sereno ao instante e a fidelidade absoluta à tradição lírica. Nunca se importou em ser julgado — e a crônica, em geral desprezada pela crítica, lhe trazia mais essa vantagem: ninguém se importava com ela. Com um humor sutil, ao contrário, Braga se empenhava em afirmar a inferioridade da crônica. Não chega a ser literatura, ele dizia. Não merece, pois, tanta atenção. Preferia assim, por timidez, por comodismo, por apego à liberdade, se conservar na posição do “escritor menor”. Nela se sentia mais livre.

Esses são motivos suficientes para que Rubem Braga, passado seu centenário de nascimento, não seja esquecido. E sobretudo para que os jovens romancistas não parem de lê-lo. Tem muito a dizer a todos nós, basta querer ouvir. Um escritor que — como fazem os grandes escritores — nunca deixou de ser fiel a si mesmo.

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