Quase-diário

dezembro 2015 / Quase-diário / A guerra e a literatura

Texto publicado na edição #186

A guerra e a literatura

Affonso Romano de Sant'Anna relembra as atrocidades da Guerra do Vietnam

> Por AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

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07.04.1982
Terrível. Um filme americano, este documentário que a TF1 passou sobre o Vietnam: os americanos — soldados que sobreviveram a isto. Estatística: 80% desses soldados estão desempregados; 150 mil, drogados; 57 mil, mortos; 25% dos crimes violentos do país são cometidos por ex-GI (soldados que estiveram na guerra).

E a confissão do general comandante William Westmoreland de que mentiu: seriam precisos 2 milhões de GI na guerra, mas ele não pediu isto para não aborrecer Lindon Johnson. Ao todo passaram pelo Vietnam 3 milhões de GI. Me lembro quando vivi nos Estados Unidos, que num momento havia no Vietnam entre 800 mil ou 1 milhão deles.

Entrevistaram William Calley Jr. — o responsável pelo massacre de My Lai. Ele disse que foi traído, que o governo e os comandantes queriam que ele negasse que houve tal massacre. Não negou, ficou dez anos preso. O repórter o compara a Eichmann, quando ele diz que “obedecia ordens”. Ele estranha a comparação e se justifica, mesmo quando o repórter lhe pergunta pelas crianças de 3 e 5 anos que mandou matar. “A ordem era destruir tudo, neutralize”, diz.

Já uma enfermeira descreve a carnificina e seu drama tendo que escolher entre vinte feridos, só dois para sobreviver. E o pior para quem está assistindo a esse documentário: as cenas de oração dos militares antes de partirem para o bombardeio, e eles se dizendo “do lado de Deus, justos”, etc. E o ex-aviador do B-2 rindo aflito, dizendo que não tinha remorso porque lá de cima ele não via as suas vítimas. Cena também do presidente dos ex-combatentes (Bob Muller) visitando o Vietnam hoje: paraplégico, querendo levar a paz e achar os cadáveres dos 3 mil soldados desaparecidos. E ainda: 15 mil casos de câncer misterioso entre os soldados americanos como conseqüência das bombas napalm: 350 mil feridos, e 40 mil a 60 mil suicídios.

Isto sem falar das estatísticas do outro lado, que não conhecemos e é mil vezes mais trágica.

28.04.1982
Escutando rádio, e sempre por acaso, e eles sempre falando de literatura. Agora me veio uma boa imagem/ideia sobre a relação do francês com sua literatura: é uma religião profana. Flaubert, Baudelaire, Victor Hugo, etc. são os santos. Realizo isto agora tentando me explicar esse fascínio que eles têm pelos seus autores. Na France-Culture a qualquer hora do dia e quase todo programa de TV, e mesmo na vida comum, os indivíduos comuns que não vivem de literatura, quando falam ou mencionam qualquer autor, falam como se falassem: Santo Antônio, São Pedro, Santo Agostinho, etc. E isto: no imaginário a literatura cria também uma hierarquia e suas sacralidades. Sem a literatura, a França não se saberia como se sabe.

(Nota: em Paris existe o Pantheon dos heróis da pátria. Entre os santos mártires, há vários escritores.)

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