Nossa América, nosso tempo

dezembro 2014 / Nossa América, nosso tempo / A ficção de Evando Nascimento

Texto publicado na edição #177

A ficção de Evando Nascimento

Desnaturalizar Acompanhar a literatura brasileira contemporânea com olhos livres permite identificar o surgimento de projetos inovadores e de grande interesse. […]

> Por JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

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Ilustração: Carolina Vigna

Desnaturalizar
Acompanhar a literatura brasileira contemporânea com olhos livres permite identificar o surgimento de projetos inovadores e de grande interesse.

É o caso de Evando Nascimento, que terminou de publicar seu terceiro livro como ficcionista.

Neste artigo, por isso mesmo, proponho uma leitura de sua obra em progresso, destacando a importância de Cantos profanos, cujos contos e textos levam adiante experiências e exercícios dos dois primeiros livros.

Ensaísta reconhecido, um dos mais criativos intérpretes da obra de Jacques Derrida, Evando lançou em 2008 Retrato desnatural (diários — 2004 a 2007). Ficção.

O título, em si mesmo, sugere o princípio motor de sua escrita.

Vejamos.

A simples ideia de Retrato desnatural promete um curto-circuito.

Ora, num sentido prosaico, o retrato deveria manter com o retratado uma relação, por assim dizer, própria — muito embora tal propriedade possa recorrer à desproporção e à deformação metódicas, como ocorre nas telas de Francis Bacon. Aliás, o diálogo com as artes plásticas é um elemento-chave na literatura de Evando. No fundo, ele radicaliza o procedimento de Bacon, pois, em boa medida, a escrita de Retrato desnatural estrategicamente descola o gênero retrato do compromisso com qualquer forma de verossimilhança. Pelo avesso, o retrato mais fiel seria antes um mosaico de máscaras, compondo:

poéticas do quase
cacos de idiomas
pútridos quasares
na cripta angelical

pedaços da vida
retratos da arte[1] 

A arte, portanto, é o território de uma desnaturalização em série: da linguagem, do mundo, do sujeito. Tal concepção subjaz à literatura de Evando, cujo eixo articulador desenvolve uma “estética da emulação”, como ele definiu em entrevista recente à revista Fórum de Literatura.

Explico.

Melhor: transcrevo fragmentos do livro:

promissória: em seus primeiros exercícios de emulação, picasso copiava no caderno-estúdio escolar a assinatura dos caricaturistas que admirava; outros acusariam falsificação. assim, contam, fez fortuna.

 (…)

 o óbvio (o ovo): sem exceção, todos os livros verdadeiramente lidos foram reescritos — do centro às margens.
partida: na literatura, vida, ficção ou ensaio, só conta o reescritor. escrever é reescrever desmesuradamente. ou ainda, noutro plano, transcrever, escrita sobre escrita, o reescritor é também transcritor. (146)

É isso.

Tudo dito.

Assim como o retrato não implica aderência ao rosto porém adesão ao traço, o autor se encontra ao se descobrir outros na apropriação sistemática da tradição. Desse modo, Evando anuncia o que provavelmente será a marca-d’água de sua escrita. Isto é, mais do que o desenho preciso de uma prosa que pensa ou a retomada decidida da prosa poética — embora ambas as pulsões estejam presentes no projeto de Evando —, o autor de Cantos do mundo parece propor um perspectivismo antropológico radical, cujo sujeito se afirma precisamente por meio de um esforço bem refletido de dessubjetivação.

(Afinal, para um autor-leitor, o eu é sempre muito pouco — claro, é um outro. Ou: muitos outros.)

Cantar o mundo
O segundo livro do ficcionista, Cantos do mundo, saiu em 2012. Nele, Evando abraçou o exercício narrativo inerente ao conto. O escritor ampliou as cores de sua paleta, acrescentando à frase epigramática e à dicção ensaística de Retrato desnatural — forças presentes também nos poemas da primeira seção do livro — o domínio do relato curto.

Contudo, sem abdicar da vocação pensante de sua prosa.

Um conto em particular permite vislumbrar o elo entre os dois primeiros títulos — O dia em que Walter Benjamin daria aulas na USP.

Como se sabe, no início da década de 1930, criou-se uma comissão responsável por convidar sábios e especialistas europeus para formar o corpo docente da Universidade de São Paulo, criada em 1934. A história é muito bem conhecida e somente a menciono porque o pesquisador alemão Karlheinz Barck descobriu uma surpreendente correspondência entre Erich Auerbach e Walter Benjamin, na qual o autor de Mimesis revelava que havia pensado em Benjamin para uma possível temporada brasileira como professor de literatura alemã na USP.

Evando imagina uma engenhosa alternativa contrafactual e reescreve o episódio. A oferta bem poderia ter sido irrecusável. Afinal, o cargo de professor na Universidade de São Paulo tornaria irrelevante o insucesso acadêmico de A origem do drama barroco alemão — texto reprovado na austera academia alemã. No êxodo provocado pelas perseguições nazistas, professores de grande prestígio viajavam invariavelmente para os Estados Unidos; por exemplo, foi o caso de Theodor W. Adorno e Max Horkheimer, amigos de Benjamin. No entanto, intelectuais que não possuíam credenciais similares aventuravam-se na América do Sul.

Pelo menos é o que, na ficção do brasileiro, Benjamin confidenciou a Auerbach:

Caríssimo Erich,

Eis-me de malas prontas para viajar ao Brasil. Aquela possibilidade de lecionar na Universidade de São Paulo, aventada em 1935, finalmente se concretizou num convite oficial.

(…)

O fato de ser uma Universidade muito jovem traz grande alento, assim não implicarão por não ter a Tese de Livre-Docência — quem sabe não refaço um pouco o trabalho, encomendo uma tradução e obtenho o título lá mesmo? Sei que a ansiedade está me deixando um tanto afobado. Vamos deixar as coisas se desenrolarem, sem inútil antecipação. Contudo, se um dia dominar o idioma, não sei se será possível filosofar em português, nunca ouvi falar em filósofo brasileiro. Decerto haverá. Talvez.[2]

Por que não?

Vilém Flusser soube apreciar a força da filosofia de Vicente Ferreira da Silva e a originalidade da literatura de Guimarães Rosa.

Roger Bastide descobriu a paisagem na prosa machadiana e, como poucos, entendeu a arte e o cotidiano brasileiros.

Possibilidade fascinante: cruzando a Ipiranga e a Avenida São João, Walter Benjamin intuiria a tradução mais completa de sua nova circunstância devorando Macunaíma e o Manifesto antropófago.

Os cantos de Evando suscitam tais imagens — autênticas experiências de pensamento.

Um tríptico?
Venho, agora, ao título recém-lançado.

Cantos profanos confirma a importância e a singularidade da dicção de Evando. No fundo, a expressão usada por ele para definir a obra de Clarice Lispector — literatura pensante — caracteriza muito bem seu projeto.

Porém, aqui, todo cuidado é pouco.

Não se trata de supor um discurso filosofante, às voltas com um conteúdo pretensamente elevado ou hermético.

Muito pelo contrário, Evando torna a literatura pensante um exercício específico de imaginação, desdobrado num convite para que o leitor crie seus mundos. Ressalto, então, a pluralidade do gesto, que inclui engenhosas provocações à filosofia, o prazer de narrar situações surpreendentes do dia a dia, além de uma apropriação constante e irreverente de elementos tanto da tradição quanto da cultura pop.

(Isso mesmo que você imaginou: os três títulos recordam um tríptico, cujo painel central estamparia Cantos profanos: forma plástica de cruzamento dos exercícios e experiências de Retrato desnatural e Cantos do mundo.)

A epígrafe do livro cifra essa potência:

Decerto caberia sempre aos leitores inventarem seu próprio livro (…).
Em contrapartida, caberia ao livro, com alguma sorte, inventar seus leitores (…).
A ficção se encontraria entre os dois movimentos de invenção.

De fato, a estrutura do livro arma um jogo de xadrez. Sobretudo, as peças brancas pertencem ao leitor, pois, numa inversão deliberada, a ele cabe o lance inicial nesse tríptico de palavras.

A primeira parte se denomina Cantos e alinhava uma série de situações-limite, nas quais uma história canônica ou um evento cotidiano são transformados por uma escrita que articula perguntas sem resposta.

Babel revisitada é uma obra-prima. Eis sua premissa: a inusitada tarefa — “Inventaram então de edificar a Torre infinita”[3] — dispensa o desejo de rivalizar com “Deus”, evocando antes uma estrutura puramente humana, como, por exemplo, a malograda torre espiralada de Vladimir Tatlin. Babel volta a ruir, não por punição divina, mas por erro de cálculo de origem malthusiana: dada a multiplicação da espécie, “a parte da torre-mastro já construída não suportou o peso e tanto povo” (22).

Altamente confidencial é uma pequena joia. Um carteiro com nome de anjo, Gabriel Arcanjo, afinal, trata-se literalmente de um mensageiro, redige um e-mail, descrevendo o paradoxo de sua vocação constrangida:

Leio o que me cai nas mãos, livros, revistas, jornais, panfletos. Tudo menos o conteúdo dos envelopes que entrego, só o sobrescrito. Por isso sou leitor frustrado (45).

(E, como recorre ao correio eletrônico, muito em breve um carteiro desempregado.)

A segunda parte, Profanações, reúne um conjunto de transgressões que vira lugares-comuns pelo avesso.

Demo é um monólogo extraordinário — atenção, encenadores: trata-se de texto pronto para o palco! —, no qual o “Obscuro” esclarece, e o faz com impecável lógica, que “o Mal é, portanto, o verdadeiro Bem” (66). O leitor termina o conto devidamente convencido. Ainda mais: desejoso de habitar essa casa intertextual muito engraçada, cuja boa nova encerra o texto: “Proclamo o Novo Evangelho, capítulo nulo, versículo zero” (67). Demo ombreia, em inventividade e linguagem, com seu precursor, A igreja do diabo, de Machado de Assis.

Noturno (pequena fantasia musical) ata as pontas da ficção e da ensaística de Evando. O conto tematiza um encontro único: “Faz meia hora que nos miramos, quase indiferentes. Que saberá de mim, que saberei jamais dela?” (81). No longo intervalo, dois olhares se cruzam: em posição de igualdade, ave e homem se medem. Melhor: iguais porque intuem que a diferença presente remete a circunstância originária comum. Evando reescreve Protágoras: o vivente é a medida de todas as coisas; logo, também dos homens. A ficção de Evando inaugura uma ponte com o perspectivismo antropológico, tal como teorizado por Eduardo Viveiros de Castro.

O autor de Retrato desnatural propôs uma hipótese capaz de renovar a antropofagia oswaldiana: em lugar de devorar o outro, por que não comer junto com ele? Ou, pelo menos, adotar a dieta prescrita em Muito prazer; autêntica passagem ao infinito precisamente porque o círculo se fecha enquanto as bocas se abrem: “tal é a lei do universo, engolir e ser engolido, em prol da comilança absoluta” (80).

A última seção, Os vestígios, apresenta uma série de “estudos” — entenda-se o termo no sentido empregado nas artes plásticas; além disso, tal seção ecoa e refina a noção de Restos, última parte de Retrato desnatural. O terceiro vestígio, Reflexo (reverso), sintetiza com engenho o perspectivismo de sua ficção — o desejo de escrever para deixar de ser Evando, inventando-se outros tantos: “Cansei de dizer Espelho meu, agora serei para todo o sempre espelho seu” (110).

Cantos profanos é um convite: espero que o leitor siga a dica, descobrindo-se inumeravelmente trezentos-e-cinquenta.

Evando Nascimento afirma sua força através de uma prosa que se desdobra em instigantes experiências de pensamento e desconcertantes exercícios de dessubjetivação, formulados numa linguagem cirúrgica, cuja fatura distingue seu autor no universo da literatura brasileira contemporânea.


[1] Evando Nascimento. Retrato desnatural (diários – 2004 a 2007). Ficção. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 55, grifos do autor. Nas próximas citações, mencionarei apenas o número da página.
[2] Evando Nascimento. “O dia em que Walter Benjamin daria aulas na USP”. Cantos do mundo. (Contos). Rio de Janeiro: Record, 2011, p. 155 e 162.
[3] Evando Nascimento. “Babel revisitada”. Cantos profanos. São Paulo: Editora Globo, 2014, p. 21. Nas próximas citações, mencionarei apenas o número da página.

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