Ensaios e Resenhas

março 2016 / Ensaios e Resenhas / A favela de cada um

Texto publicado na edição #191

A favela de cada um

Nove autores brasileiros partem da ficção para expor a violência que nos cerca por todos os lados

> Por CLAUDIA NINA

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Nas primeiras linhas do conto Nervos, de Ronaldo Bressane, incluído na antologia Eu sou favela, a frase pinçada da música Nervos de Aço, de Lupicínio Rodrigues — “Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?” — parece multiplicar-se em outras perguntas latentes, que sondam a ignorância geral acerca da vida nas favelas por parte de quem está de fora dos mundos paralelos ao asfalto-camarote. Você sabe? Conhece as almas estraçalhadas, os sonhos órfãos, o buraco gigante da fome, o varal das alegrias suspensas, a morte como liberdade. Você sabe? Sabe o que aparece nos jornais e o que reportam aqueles que chegam para trabalhar cedinho, com joelhos imprestáveis, apesar de não terem dormido uma gota, tendo enfrentado a madrugada encolhidos como caramujos no único cômodo da casa na noite de tiroteios por entre os becos. Isso ainda é o de menos. Há muito mais horror.

Você sabe?

Recriar as tragédias urbanas para quem não sentiu na pele o que realmente acontece, quanto desafio. Mas a ficção elabora percepções outras que os jornais não alcançam, pois em cada acontecimento, mesmo situações à primeira vista vazias de impacto, existem mínimos relances, que a literatura é capaz de capturar, a partir do que o autor observa com sensibilidade e técnica. Ainda que não seja o fogo maior, pois a verdade íntima dos fatos, esta, só alcançável para quem a (sobre)vive — ou morre.

Os leitores são imersos em textos crus, sem tempero, corpos sem unha. Nove contos compõem a antologia, originariamente publicada na França em 2011 pela Editora Anacaona (especializada em literatura brasileira). A ideia da seleção foi juntar autores que experimentam a marginalidade de diversas formas, vividas em testemunho, como é o caso dos periféricos, ou farejadas a distância, como os demais.

A mistura proposital é uma aposta no literário em si: engajados, veteranos ou recém-ingressos na experiência da literatura marginal compõem um resultado variável. Todos, de uma maneira ou de outra, parecem repetir a incontornável pergunta-refrão para os que jamais pisaram no barro: você sabe?

As pontas do livro enlaçam um percurso de vida: o primeiro, de João Anzanello Carrascoza, fala de um menino arfante, que escolhe as poucas cores na caixinha de lápis para fazer um desenho no caderno roído pelos ratos, enquanto, sem suspeitar, aguarda a morte próxima. O último, o de Bressane, mostra um homem já sem a idade certa para encontrar um emprego, e, nervos de aço, encara a tarefa de desossador.

Carrascoza assina o mais póetico e cênico de todos, No morro. Talvez o menos cru, recheado de sons e cheiros, porém não menos lancinante. Faz um corpo com dentes, cabelos, suor. Acontecimentos simultâneos lembram uma sequência de curta-metragem. A descrição da morte é uma cena em câmera lenta:

O caderno lhe escapou da mão e caiu sobre o peito. De um instante para o outro, os olhos lhe pesavam, estava com sono, cansado de ter corrido até a venda, o estômago rumorejando de fome. A boca começou a lhe saber à ferrugem. O peito ardia, e ele suava, suava tanto que o corpo se ensopara. As vistas se escureciam; mas ainda há pouco era tarde, o sol fulgurava, como a noite chegara tão depressa?

Não, o menino não consegue completar o desenho, metáfora óbvia de um futuro que jamais irá conhecer. A sequência em que a mãe deixa as cebolas dourando no fundo da panela quando ouve os estampidos e corre para abraçar o filho na última hora, é o tiro de uma arma voltada para quem lê.

Todos, de uma maneira ou de outra, parecem repetir a incontornável pergunta-refrão para os que jamais pisaram no barro: você sabe?

Desespero ao extremo
No conto de Sacolinha, O aluno que só queria cabular uma aula, é magistral a forma como o autor risca no ar a linha invisível: o salto mortal do telhado ao chão. Diálogos secos, porém dramáticos tentam reproduzir o desespero levado ao extremo. O aluno tem pavor da professora carrasca. Não apenas. Ela simboliza toda uma situação de onde o menino quer fugir. Tenta falar, mas falta a palavra certa; queria ser escritor para ser revolucionário. Chega à conclusão de que só conseguirá escapar pela morte libertadora. Novamente, a figura da mãe que surge para testemunhar o fim trágico é a navalha:

E todos ficaram horrorizados com o grito da mãe de Tedy, que uivava como um animal em cima do corpo do filho, que tinha um sorriso discreto na face. Apenas ela chorou naquele instante eterno. Chorou em cima do corpo do menino que só queria fugir da professora de Matemática.

No texto de Alessandro Buzo, Tentação, “uma criança comum de favela” cresce para o crime ao ser confundido com ladrão. A linha invisível, semelhante àquela traçada entre o telhado e o chão, no conto de Sacolinha, ganha aqui um percurso semelhante. A criança temendo a humilhação, ou já pisoteada pela mesma, segue para o abismo ao começar a vender drogas. A morte inevitável depois de tudo.

No final da antologia, os adultos estão todos perdidos, massacrados, com destinos roídos pelos ratos que já desfaziam o caderno da primeira história. O futuro inacabado, quando não dá em morte prematura, avança sem rumo — ainda há sonho possível?

Talvez sim. Ou não. Ferréz, em Coração de mãe, fala da mulher sem salvação diante da mesa vazia, orando para um Deus esquecido. A fé perdida para sempre? “Dizem que a gente devia olhar o trigo, a bíblia tem um monte de coisa poética, mas não me dá a salvação (…)”. E, novamente aqui, a pergunta-refrão — sabe? — na tentativa de descrever o impossível, explicar o inexplicável: “eu quero ir na honestidade, sabe?”

Marcelino Freire, em Polícia e ladrão, imagina um mundo (sem favelas?) distante, embora a arma ainda esteja apontada para a cabeça. “A gente ficou em cima da laje, de barriga cheia, imaginando como seria a vida em outros planetas. Lembra? Se existiam favelas em outros planetas. Se era legal morar na Lua.”

Os textos de Marçal Aquino, Rodrigo Ciríaco e Victoria Saramago completam a seleção. São vários olhos, autores-câmeras posicionados em diversos pontos do morro, dos becos, ruelas, bares, barracos, bailes, bocas de fumo, telhados. Uns mais dentro do furacão, outros em perspectiva — mas nem por isso menos vorazes em captar o horror. Até porque, às vezes, a distância revela aspectos que o embate frontal observa de forma diferente. A mistura de técnicas da ficção, em contraste e diálogo, é também um ponto forte em textos que parecem se justapor para mostrar literariamente a estética do que não se sabe de fato. Pois só quem sabe, de verdade, são pessoas como aquela mãe que deixou as cebolas do fogo e não chegou a tempo de ver o filho ainda respirando.

 

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Eu sou favela
Org.: Paula Anacaona
Editora Nós
78 págs.

 

trecho
Eu sou favela

Uma barata ia passando — o único movimento no barraco isolado de todos os domingos. Ia passeando a barata, tempos em tempos, antenando qualquer resquício comível. Viagem inútil. Olho no inseto, Arílton não sentia nojo; compaixão, quem sabe. O marrom ambulante lembrava os sapatos do casamento, lustrosos, promissores. Tinha batido neles pelas ruas até arrancar as solas. O terno, vendeu. A aliança, empenhou. O bolo, arrotou. O vestido de noiva virou cortina de uma vizinha. (Nervos, de Ronaldo Bressane).

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