Ensaios e Resenhas

setembro 2016 / Ensaios e Resenhas / A exuberante travessia

Texto publicado na edição #197

A exuberante travessia

A obra de Thomas Mann está profundamente marcada pela existência burguesa alemã e a ânsia por uma vida sensual e artística

> Por VIVIAN SCHLESINGER

Thomas Mann por Osvalter

Thomas Mann por Osvalter

Paul Thomas Mann nasceu em Lübeck em 1875, no norte da Alemanha, filho de Thomas Johann, senador alemão, e de Júlia da Silva Bruhns, brasileira de Parati, descendente de alemães, portugueses e índios. Essa herança mista deixou profunda marca na imaginação de Thomas Mann, como uma linha divisória entre sua existência burguesa tipicamente bávara e a ânsia por uma vida sensual, artística, “exótica”, brasileira. De seus diários consta que “a influência mais decisiva sobre minha obra resulta do sangue brasileiro que herdei de minha mãe”. Dedicou toda sua obra à travessia dessa fronteira.

Entregou-se à vida de escritor desde cedo, e aos 25 anos surprendeu o mundo com um livro monumental, Os Buddenbrook — Decadência de uma família. Quatro gerações são retratadas na crônica familiar inspirada na linhagem e cidade do próprio escritor. O objetivo era escrever um romance sobre os conflitos entre o mundo do homem de negócios e o do artista, na tradição realista do século 19, mas foi além: demonstrou o domínio da narrativa, ironia sutil e ricas descrições dos personagens que seriam sua marca permanente.

O subtítulo Decadência de uma família resume o que se passou com milhares de famílias alemãs no período entre 1830 e 1870, resultado da industrialização. Em outras obras da virada do século autores europeus, como Joris Huysmans e Oscar Wilde, expressaram a preocupação com a decadência pessoal e social, mas nessa saga há uma estrutura em espiral descendente, onde os erros são repetidos de geração em geração, os personagens incapazes de aprender com a experiência. O texto tem humor e colorido, graças a detalhes médicos, fofocas de família e até receitas culinárias da região, fruto de extensa pesquisa. Mann também pesquisou a linguagem, que denota a origem geográfica, posição social e traços de caráter dos personagens. Em se tratando de Thomas Mann, detalhes mínimos na linguagem, alguns intraduzíveis, exigem tradutores com perfeito domínio do idioma de origem e de destino, além de erudição na cultura germânica e universal. A tradução destes romances e novelas e suas dificuldades mereceriam uma análise à parte; basta dizer que nesta edição, está nas mãos de estudiosos da literatura alemã e obra de Thomas Mann de reconhecimento internacional, assim como os autores dos textos de apoio.

Em um nível mais profundo, percebe-se influências filosóficas e musicais. O conceito da relação entre doença e criatividade, de Nietzsche, é sublinhado pelo leitmotiv, um dos recursos muito usados por Wagner. Frases e eventos são repetidos para caracterizar personagens, como o apetite insaciável de uma parente empobrecida, ou temas, como dentes apodrecidos em alusão à decadência, cor da pele à doença. Wagner também é homenageado no personagem Hanno, que se refugia das miudezas da vida real na ópera Tristão e Isolda. Questões em debate na época também estão presentes: O mundo como vontade e representação, de Schopenhauer, é discutido pelos personagens, e epifanias freudianas têm importante papel, o que não surpreende, já que A interpretação dos sonhos havia sido publicado apenas um ano antes. As referências ambiciosas não sobrecarregam o texto, encaixam-se com naturalidade. Não há pretensão de inovação estilística, e sim de ampla análise e crítica da alma europeia e germânica, fruto de observação, leitura e disciplina diária prussiana.

Indícios biográficos
É controversa a busca de indícios biográficos de um autor para uma leitura mais próxima, mas no caso de Thomas Mann, ele mesmo parece ter apontado nessa direção. Passados apenas dois anos do sucesso com Os Bruddenbrook, aos 27 anos, Thomas Mann publica Tonio Kröger. Anatol Rosenfeld (1912-1973), cujos ensaios integram a nova edição do livro, sintetiza a essência da identificação entre autor e personagem:

(…) é a história de um escritor moreno que se sente melancolicamente isolado entre os outros, os loiros, e que anseia pela vida simples dos normais, mas que ao mesmo tempo se sente eleito e não pode esconder seu ligeiro desdém pela normalidade confortável da multidão.

Rosenfeld, judeu alemão, que fugiu do nazismo, entendia muito bem o pensamento de Mann. Afirmava que o tema “básico fundamental […] é o da solidão, da marginalidade do artista ou, por alguma causa qualquer, da pessoa extraordinária”, ou seja, o conflito de Os Buddenbrook, decantado. “Para ser um artista é necessário morrer na vida do dia a dia”, diz o protagonista. Sente-se superior em sua introspecção sobre a gente que o cerca, mas inveja sua vitalidade ingênua.

O componente de ingenuidade da vida simples dos normais é reforçado pelo leitmotiv da cor azul dos olhos de Hans e Ingeborg, já que em alemão, olhos azuis (blauen Augen) também significa ingênuo ou crédulo. Há outra conotação inevitável, considerando o contexto da crença na eugenia. Kröger repete várias vezes que não é um cigano, apesar de ser um escritor moreno. A síntese de Anatol Rosenfeld dá à novela outra dimensão.

Apesar do tom excessivamente sentimental, Tonio Kröger é profundo, rico em dicotomias. O nome do protagonista reflete sua formação artística, associada ao Sul, seu lado “brasileiro”, da paixão pela arte, e o sobrenome, associado ao Norte, o lar germânico, produtivo. A sexualidade também é conflito: deseja igualmente Hans e Ingeborg. Foi uma das novelas favoritas de Mann, mas o público elegeu outra. Morte em Veneza, publicado em 1912, quando o autor contava 36 anos, exibe paralelos com Tonio Kröger, mas há um crescimento, uma coragem de “cortar na carne” que o elevaram a um novo patamar. O erotismo, a linguagem direta, as miríades de referências eruditas dão uma qualidade visceral ao conflito entre a arte e a vida.

O enredo é simples: o escritor Gustav von Aschenbach viaja a Veneza para descansar e lá se vê hipnotizado pela beleza de um adolescente polonês, Tadzio; acaba se contaminando com cólera e morre. A novela tem intertextualidade importante com obras de todos os tempos, desde Platão, na relação entre amor erótico e sabedoria filosófica, a Nietzsche, na luta entre Apolo, deus do auto-controle e Dionísio, deus da paixão. Thomas Mann chamou esse processo de escrita de “mito mais psicologia”; no limite da inspiração estética, é um estudo sobre moral e castigo, envelhecimento e decomposição.

É instigante analisar as razões literárias da escolha de Veneza, a começar de sua localização geográfica, entre a Europa (o Norte reprimido) e os trópicos (o Sul fecundo). As alusões ao inferno são múltiplas: a cidade está afundando para dentro da Terra; é mantida artificialmente, ou seja, tudo é falso; é uma cidade portuária famosa por suas doenças e decadência; seu carnaval, a celebração do carnal, é icônico; a travessia de chegada de Aschenbach sugere a travessia do Rio Styx, e o próprio Dionísio, na forma de homens ruivos, horrendos, estão lá para atrair e destruir Aschenbach. Como se não bastasse,

Ele via, via realmente uma paisagem, pantanosa região tropical, sob um céu brumoso, pesado, paisagem úmida, exuberante, monstruosa […] via como, em meio a luxuriantes fetos, se elevavam aqui e acolá cabeludos troncos …

A ambiguidade começa do próprio enredo: a Veneza visitada por Aschenbach é um lugar real ou uma paisagem de morte, imaginada? O que dizer do tipo estranho que ele encontra na balsa, do gondoleiro que se recusa a seguir instruções e desaparece sem receber, do céu sem sol, da perfeição marmórea de Tadzio? As imagens formam uma rede de chaves e símbolos, nenhuma palavra é desperdiçada. Ao ver Jaschu, rapagão moreno e robusto, beijar Tadzio, Aschenbach, diz a si próprio

Ora, ora, ó Critóbulo, pensou sorrindo. Aconselho-te viajares durante um ano. Pois necessitarás pelo menos desse tempo para sarar.

Trata-se de uma advertência feita pelo velho Sócrates a Critóbulo, um de seus jovens seguidores, por beijar o belo filho de Alcibíades, um dos amantes favoritos do mestre. Uma frase emprestada das obras clássicas como analogia para o ciúme, em um passe de concisão, ilumina um sentimento universal.

Aos 72 anos, quando publicou Doutor Fausto, Mann continuava sua luta interior com as numerosas imagens de doença, morte e prazer proibido, passagem obrigatória para que o indivíduo escape de sua alienação.

Experiência radical
Morte em Veneza é uma experiência radical da imaginação do autor nos seus extremos opostos. Mann era alemão, mas a novela passa-se na Itália. Trata do amor homossexual, mas foi escrito por um pai de seis filhos. O protagonista, criado por uma celebridade, humilha-se e abraça sua própria morte. É uma vitória da provocação, da entrega, de um autor que acreditava que “algumas conquistas feitas pela alma e a mente são impossíveis sem a doença, loucura, crimes do espírito”. Aí estão profundos insights sobre a psicologia do artista e do intelectual em um mesmo personagem. Aschenbach sofre deslocamento total de um extremo a outro, do cerebral ao físico, um alerta sobre o perigo mortal de ambos extremos.

Assim como em Tonio Kröger, o protagonista viaja de um “hemisfério” a outro: Kröger vai do Sul ao Norte, e Aschenbach do Norte ao Sul; o primeiro termina em reconciliação, enquanto que o último, em morte. A travessia sugere múltiplas interpretações: do consciente às profundezas freudianas; da “normalidade” heterossexual ao “desvio” homossexual; da vida moderna à mitologia clássica; da vida à terra dos mortos. De incontestável temos uma narrativa densa, rica em camadas de repressão e decadência onde até o narrador se desloca em relação ao protagonista, gerando mais uma camada de sentido. No início, na estranheza da chegada em Veneza, há total identificação entre o narrador e Aschenbach, mas à medida que o personagem tenta se enganar sobre a atração por Tadzio, o narrador eleva o tom de reprovação, não perdoa. A relação narrador X protagonista emula a relação Mann cidadão X Mann artista.

A questão do homoerotismo aparece em vários romances da época, como O imoralista, de André Gide, e Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust. A diferença é que Mann distinguia rigorosamente entre sexualidade e erotismo, prática e sonho. A repressão do desejo na vida era o preço que Mann pagava pelo sucesso do desejo na ficção. Como sugere Andrew Weber

(…) ela tem a persistência recorrente que lhe outorga a substância de uma verdadeira paixão. Essa paixão oblíqua, infinitamente sofrida e nunca consumada é o que se encontra em sua vida e em sua ficção. Aschenbach morreu dela, mas Mann viveu por ela.

Se a questão da sexualidade foi uma constante em sua obra, não se pode dizer o mesmo sobre as questões políticas. Sua “conversão” de conservador e imperialista a crítico do nazismo foi pública muito antes de autêntica, pessoal, e somente ocorreu após ameaças de ruptura por parte de sua filha Erika, registradas em seus diários. Helmut Galle, autor de vasta obra crítica sobre literatura alemã e seu contexto histórico, observa, no posfácio desta edição, que aspectos da obra de Mann continuam ambíguos em vista de referências antissemitas na descrição estereotipada, pejorativa de certos personagens. E em Os Buddenbrook, Wagner e sua música são associados à pureza de Hanno.

Romance mais amado
A Primeira Grande Guerra foi um ponto de inflexão. Em 1924, ano em que Franz Kafka morria de tuberculose, Thomas Mann publicou A montanha mágica, o romance mais amado por seus leitores, que narra o declínio do Ocidente sob o signo da tuberculose. Começou a escrevê-lo antes da Primeira Grande Guerra, porém só terminou após o final, com nova visão de mundo. Foi agraciado com o Nobel em 1929, e em 1933, aos 58 anos, obrigado a fugir da Alemanha. Ainda assim, seus livros não estavam na famosa pilha de obras anti-germânicas a serem queimadas naquele mesmo ano em Berlim. Mann demorou a cortar suas ligações com o establishment alemão e a assumir a liderança dos emigrados. Como tantos intelectuais alemães sofisticadíssimos, subestimou o poder de seus próprios preconceitos transformarem-se em política de estado.

“Onde estou, está a Alemanha.” Com essa frase, Thomas Mann recebeu os jornalistas que o esperavam em 1939, ao chegar a Nova York, o refugiado que se tornara o maior representante da cultura alemã de sua época. Era sensível ao que separava o universal do germânico, pagava alto preço por isso:

Sou demasiadamente alemão, demasiadamente envolvido com as tradições culturais e a língua do meu país para que a perspectiva do exílio de um ano ou da vida toda não tenha um significado duro, ameaçador para mim.

Em 1947, presenteou o mundo com Doutor Fausto — A vida do compositor alemão Adrian Leverkühn narrada por um amigo. Até nesse que seria seu último grande romance, continuou contrário às técnicas de vanguarda, preferindo o simbolismo e a ironia, o Zeitroman, uma análise crítica de seu tempo e do tempo, conforme Jorge de Almeida, autor do posfácio desta nova edição.

Inseparável de seu Deutschtum, sua germanidade, Mann não conservou intacta a Alemanha que levava consigo. Doutor Fausto mostra uma Alemanha muito mudada desde a Lübeck de Os Buddenbrook. Nele, a Alemanha faz um pacto com o demônio — o Terceiro Reich — e Adrian Leverkühn, o protagonista, entrega sua alma e capacidade de amar em troca de 24 anos de suprema criatividade artistística. Esse Faustus é muito diferente de seus antecessores criados por Marlowe e Goethe em seu pessimismo, sua morte em vida, castigo pior do que a expulsão do Paraíso. É uma obra de filosofia, uma brilhante dissertação sobre temas centrais à cultura germânica, particularmente a música — responsável, em parte, pela prolixidade em determinados trechos. O essencial está bem visível, é o velho conflito de Kröger — participar da vida do dia a dia ou render-se à arte e às paixões — que ressurge com poder letal. Mais uma vez a relação entre doença e criatividade: Leverkühn contrai sífilis, que acaba se tornando a fonte de sua inspiração musical, decrepitude e morte. Há ainda inúmeras referências e símbolos da cultura germânica e celebridades da época, o que levou o autor a escrever um outro livro para explicar este.

A narração, por conta de Serenus Zeitblom, cujo nome alude à serenidade e algo como “flor do tempo”, é feita em retrospectiva, em que o presente é a Segunda Grande Guerra, com seus perigos e sobressaltos. Como explica o autor, presente e passado estão intercalados de modo que nem sempre é possível saber se os sobressaltos resultam do mundo real do narrador ou de sua imaginação, metáfora da desorientação causada pela guerra. A linguagem também remete a dois planos temporais diferentes, ora antiquada (para a época), ora direta e arrogante, o que acentua a tensão entre a paródia de estilos passados e a inovação ambicionada pelo protagonista. Doutor Fausto é a sagração de sua abilidade narrativa, atenção ao detalhe e complexidade dos personagens.

Algo quase secreto em sua natureza diferenciava Thomas Mann de seus contemporâneos. Não era apenas uma sexualidade complexa, ou sua imaginária herança brasileira, mas uma criatividade e ousadia que, combinadas à ambição inabalável, permitiu-lhe produzir Os Buddenbrook aos 25 anos e Morte em Veneza antes dos 40 anos. Aos 72 anos, quando publicou Doutor Fausto, Mann continuava sua luta interior com as numerosas imagens de doença, morte e prazer proibido, passagem obrigatória para que o indivíduo escape de sua alienação. A surpresa é que mesmo passando por tudo isso, não há como escapar.

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Os Buddenbrook
Thomas Mann
Trad.: Herbert Caro
Companhia das Letras
709 págs.

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A morte em Veneza / Tonio Kröger
Thomas Mann
Trad.: Herbert Caro e Mário Luiz Frungillo
Companhias das Letras
194 págs.

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Doutor Fausto
Thomas Mann
Trad.: Herbert Caro
Companhia das Letras
618 págs.

O AUTOR
Thomas Mann

Paul Thomas Mann (1875-1955) nasceu na Alemanha, em família ilustre. Seu pai era alemão e sua mãe descendente de alemães, portugueses e índios brasileiros. Autor de mais de 50 obras (romance, novela, crítica e ensaio), foi um dos mais importantes exemplos de Exilliteratur. Casou-se e teve seis filhos, três dos quais também foram grandes escritores, assim como também seu irmão, Heinrich Mann. Recebeu o Prêmio Nobel em Literatura (1929), e acabou refugiando-se do nazismo em 1933, primeiro na Suíça e mais tarde nos Estados Unidos, onde adotou a cidadania. Sua obra reflete o pensamento filosófico de Goethe, Nietzsche e Schopenhauer, contém profunda análise crítica da alma europeia e germânica.

 

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