Sob a pele das palavras

agosto 2020 / Sob a pele das palavras / A estrela, de Ferreira Gullar

Texto publicado na edição #244

A estrela, de Ferreira Gullar

Um poema que solicita e mobiliza nossa sensibilidade

> Por WILBERTH SALGUEIRO

Gatinho, meu amigo,
fazes ideia do que seja uma estrela? 

Dizem que todo este nosso imenso planeta
              coberto de oceanos e montanhas
              é menos que um grão de poeira
              se comparado a uma delas 

Estrelas são explosões nucleares em cadeia
numa sucessão que dura bilhões de anos

O mesmo que a eternidade

Não obstante, Gatinho, confesso
que pouco me importa
                            quanto dura uma estrela

Importa-me quanto duras tu,
                             querido amigo,
                             e esses teus olhos azul-safira
                             com que me fitas

Se o moço Drummond estreia em 1930 com Alguma poesia, o experiente Gullar se despede com Em alguma parte alguma em 2010. Nas “visões críticas” que antecedem os poemas, Antonio Carlos Secchin finaliza dizendo que no livro do maranhense “a poesia está em toda parte, inteira”; e Alfredo Bosi inicia sua reflexão afirmando que “maturidade é tudo”. A beleza e a densidade do volume justificam o Prêmio Jabuti, e a grandeza do conjunto da obra o Prêmio Camões. Falecido em 2016, sem publicar nova coleção de poemas, Ferreira Gullar imprimiu, incontornavelmente, suas digitais na história da poesia e da cultura brasileira, sendo um dos escritores mais lidos e estudados, tanto por jovens poetas, quanto por pesquisadores tarimbados. Desde sua dissidência em relação ao Concretismo até suas últimas reflexões políticas, não faltam polêmicas em sua longa, variada e complexa trajetória. Aqui, importa o poema — esse poema.

Esse poema seduz exatamente por aquilo que quer parecer: um poema que solicita e mobiliza nossa sensibilidade ao transitar entre o macro e o micro, o inalcançável e o tangível, a metafísica e o corpóreo, o eterno e o instante, o cosmos e o caseiro, a angústia e o prazer, a solidão e o afeto, o mistério da estrela e o mistério do gatinho. Como em qualquer poema, dois agentes fazem funcionar o trânsito da linguagem — poeta e leitor. O sentimento do poeta, posto em forma de arte, encontra eco e guarida no sentimento do leitor, que aciona a própria estima, isto é, um objeto (animal, coisa, planta, criança, o que seja) que contemple tais elementos desse conjunto “micro, tangível, corpóreo, instante, caseiro, prazer e afeto”. Na verdade, a sincera preocupação com a existência do gatinho só pode se dar por meio da cruel e aguda consciência da finitude do observador. Se há algum consolo (quanto à inexorável finitude de todos nós), talvez seja aquele sintetizado por Caetano Veloso na belíssima Oração ao tempo: “e quando eu tiver saído/ para fora de teu círculo/ tempo tempo tempo tempo/ não serei nem terás sido”. O tempo — para ser percebido por mim — depende de mim. O poeta, o gatinho, o leitor estamos em um mesmo círculo, fenomenológico, interdependentes e especulares. O poeta mira o gatinho (e vislumbra até a tonalidade do azul de seu olho: safira), que o fita, e ambos são observados pelo voyeur maior, o leitor.

No excelente ensaio O poeta ao telescópio: imagens cósmicas na poesia de Ferreira Gullar (2012), Marcelo Ferraz de Paula rastreia na obra do autor de Barulhos um expressivo exemplário de poemas em torno de tais imagens, evidenciando que “a presença do cosmo na obra de Gullar ocupa posição mais destacada do que a de um tema recorrente; ela assume um caráter estrutural”. Com a firmeza de quem estuda a obra do poeta há tempos, desde a tese, tornada livro em 2016 — Poesia & diálogos numa ilha chamada Brasil: a América Latina na obra poética de Thiago de Mello e Ferreira Gullar —, Marcelo afirma ainda no engenhoso ensaio que os poemas da seção II de Em alguma parte alguma, onde se encontra A estrela, comprovam esse “caráter estrutural”, pois é uma seção “inteiramente dedicada às especulações do sujeito em torno da imensidão aviltante do universo, do silêncio aflitivo dos astros, enfim, da inexorável órbita celeste sempre indiferente aos dramas do indivíduo e da própria história humana”. De fato, temos nessa parte do livro uma verdadeira constelação de poemas que tensionam, dialeticamente, mundos que aparentam ser excludentes. De tal modo (poético) se dá a tensão, contudo, que basta uma leitura, e alguma sensibilidade, para se captar que a “estrela” a que se refere o título não é o “corpo celeste”, no sentido astronômico, mas, em sentido figurado, o gatinho, ator principal do espetáculo (em forma de poema) chamado Vida no teatro Terra.

Gullar, se sabe, tinha apreço por animais, e gatos em especial, e para eles compôs inúmeros versos, como explicita o artigo A importância dos animais: o gatinho em ‘A estrela’, de Ferreira Gullar, e a recepção do leitor (2014), de Adriana Falqueto. Sabe-se também que o gosto por gatos se estende a escritores tão distintos quanto Guimarães Rosa, Jorge de Lima, Ana Cristina Cesar, Haroldo de Campos, Nelson Ascher e tantos mais, para não falar de Baudelaire e outros estrangeiros. (Veja-se, a propósito, o delicado poema g, de Micheliny Verunschk, em Geografia íntima do deserto, cujos versos finais arrematam a metamorfose: “Era a fome do gato/ e sua pata à espreita,/ veludo-armadilha:/ uma única letra.”) A presença de animais — gatos e que tais — na literatura e na arte é imensa, antiga, intensa, sedutora, fulgurante. Talvez o pensamento de Schopenhauer, em Sobre o fundamento da moral, explique algo dessa atração de elaborar um sentimento em material estético: “A compaixão para com os animais liga-se tão estreitamente com a bondade de caráter que se pode afirmar, confiantemente, que quem é cruel com os animais não pode ser uma boa pessoa”. Resulta, dessa relação cordial entre homem e bicho, que há uma vontade incontrolável de manifestar em arte o apreço por esses seres que povoam nosso cotidiano.

No caso de A estrela, temos seis estrofes (de 1 a 4 versos: 2/4/2/1/3/4) e dezesseis versos (de 4 a 14 sílabas: 6/11///12/10/8/8///14/12///7///9/5/6///9/4/9/4) de compreensão, aparentemente, simples. Essa variedade e polimetria, e ainda os recuos de parágrafo (que quebram o alinhamento tradicional), dão ao poema uma visualidade que encena um movimento especulativo, de idas e vindas, de perquirição, de procura, movimento que — incessante — se insinua na ausência de ponto final. Mesmo a sequência de rimas (i/e///e/a/e/e///e/a///a///e/o/e///u/i/i/i), sem padrão regular, sugere ao final da procura um encontro pacificador entre os olhares do poeta e do gatinho, nas rimas em /i/i/i.

O poeta se dirige a seu interlocutor pelo afetuoso e próprio nome de “Gatinho”, que a quinta estrofe confirma (e ganha reforço no livro Um gato chamado Gatinho, de 2000, em coautoria com a ilustradora Angela Lago). A falsa solenidade da segunda pessoa (fazes, duras, fitas) contribui para o clima de proximidade e distanciamento geral do poema, pois é logo quebrada pelo “meu amigo” e depois “querido amigo”. O poeta, duvidando que seu companheiro saiba o “que seja uma estrela”, explica-lhe, e a nós, o seu significado, nas estrofes dois, três e quatro, enfatizando como a Terra em que vivemos — “imenso planeta” — é “menos que um grão de areia/ se comparado a uma delas”. Tal comparação de grandezas remete a uma dimensão de “bilhões de anos”, de “eternidade”. No entanto, o que importa ao poeta é o tempo de seu amigo, de seu Gatinho. A cena final (fanopeica, diria Pound) revela que gato e poeta estão se observando, se vendo, se mirando, se fitando, a despeito e/ou por causa da questão metafísica e cosmológica que move o poeta, provavelmente em sua casa na rua Duvivier, em Copacabana, tantas vezes citada em poemas, para firmar o hic et nunc do poema. Ou, noutra expressão latina, para afirmar a opção pelo carpe diem, pelo mire e veja, e viva. Importa, em suma, o presente.

O poema, todo poema, porém, é a memória do que passou. Estampado na página (ou suporte similar), o poema fixa o transitório, a dúvida, a impermanência, feito uma foto em palavras. Como assinalou Theodor Adorno, em Sobre sujeito e objeto, “Nos pontos em que a razão subjetiva fareja uma contingência subjetiva, transluz a primazia do objeto: naquilo que neste não é acréscimo subjetivo”. Ou seja, o poeta dispõe no poema de sua razão plena para entender e fazer entender que a ele importa menos “quanto dura uma estrela” do que os “olhos azul-safira” de seu gato Gatinho. A estrela em si mesma aqui é contingente; em seu lugar, o poema dá primazia ao “querido amigo”. Sobre ambos, estrela e gato, enfim, paira o objeto-mor, que absorve toda a subjetividade em sua forma: o poema A estrela.

(Em memória de Ricardo Falbo, amigo, gatinho-estrela.)

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