Ensaios e Resenhas

fevereiro 2012 / Ensaios e Resenhas / A estranha potência das palavras

Texto publicado na edição #109

A estranha potência das palavras

Numa das raras entrevistas que concedeu até hoje, Rubem Fonseca declarou ser “um cinéfilo que foi condenado a escrever”. Não […]

> Por LUIZ PAULO FACCIOLI

Numa das raras entrevistas que concedeu até hoje, Rubem Fonseca declarou ser “um cinéfilo que foi condenado a escrever”. Não há dúvida de que na singeleza da afirmação está a origem de um dos traços mais característicos de seu estilo: um discurso em que a ação prevalece sobre a reflexão e privilegia o “visual”, aproximando-se assim da linguagem cinematográfica. Embora seja esse um caso emblemático nas letras nacionais e que chegou a inspirar toda uma legião de seguidores, cinema e literatura sempre estiveram próximos. Tanto o filme como o romance, por exemplo, baseiam-se num fluxo narrativo que se desenvolve no tempo e num cenário determinado, envolvendo um ou mais conflitos, e — o mais importante — onde o que se narra ou se mostra é apenas uma parte escolhida a dedo, que sugerirá ao espectador/leitor uma história maior e mais complexa do que aquilo que é mostrado; noutras palavras, ambos lidam a todo instante com a noção de subtexto.

Outro exemplo dessa proximidade são os inúmeros livros que já foram e continuam sendo adaptados para a tela, muito embora o senso comum diga que cinema e literatura usam linguagens diferentes, o que portanto os distanciaria. A verdade é que, via de regra, a literatura dispõe nada mais do que a palavra escrita para existir, enquanto o cinema, além da palavra, tem a seu serviço também o som, a imagem, a interpretação dos atores.

Por que então, apesar de todos esses recursos adicionais, os filmes baseados em livros, com poucas e honrosas exceções, não fazem justiça às obras que lhes deram origem?

“Ai palavras, ai palavras/ que estranha potência a vossa!”, canta Cecília Meireles no Romanceiro da Inconfidência e sua perplexidade nos sopra uma resposta. Com essa argila prodigiosa — e poderosa — que são as palavras, o escritor molda as histórias, os cenários, os personagens e suas reflexões mais íntimas, exigindo, muito mais do que no cinema, a participação de quem está na outra ponta.

Mesmo com todos os prejuízos que podem e costumam advir de uma adaptação, a popularidade do cinema tem o poder de iluminar boas obras que eventualmente tenham passado despercebidas em forma de livro. É o caso da trajetória brasileira de O leitor, o título mais conhecido do alemão Bernhard Schlink. Publicado originalmente em 1995, tornou-se logo um best-seller e ganhou tradução para 39 línguas. Lançado no Brasil em 1998 pela Nova Fronteira e ainda no catálogo da editora, o livro vinha tendo aqui um desempenho de vendas fraco em relação a outros mercados. Com o sucesso do filme homônimo de Stephen Daldry, que concorreu ao Oscar em várias categorias, inclusive a de Melhor Filme, e deu o prêmio de Melhor Atriz a Kate Winslet, ganhou uma nova edição pela Record e passou a constar, já há várias semanas, das listas dos mais vendidos. Ou seja, deu-se o óbvio. O que foge da obviedade nesse caso é a concorrência de três fatores: 1) o livro é excepcional; 2) o filme, idem; e 3) a adaptação para o cinema é fidelíssima ao livro. Coincidência ou não, o amor à literatura é um de seus motes.

Paixão pelos livros
Na Berlim dos anos que se seguiram à Segunda Grande Guerra, o adolescente Michael Berg envolve-se com uma mulher vinte anos mais velha e que conhece numa situação algo bizarra. O impulso sexual é o que primeiro domina a relação, sempre comandada por ela, para logo entrar em cena a paixão que ambos têm pelos livros. No pequeno apartamento de Hanna, os dois protagonizam todos os dias o mesmo exótico ritual: primeiro se banham, depois ele lê para ela trechos de obras clássicas que vão de Homero a Goethe e, por fim, fazem amor. Um belo dia, quando ela some sem deixar rastro, ele acaba concluindo que jamais tornará a vê-la. Anos mais tarde Michael, agora estudante de direito, reencontra Hanna no julgamento de um grupo de mulheres acusadas de crimes cometidos num campo de concentração nazista, onde ela é uma das rés. Não é difícil imaginar o torvelinho de emoções que vive o jovem ao reconhecer a mulher de quem foi amante na condição de partícipe de uma das maiores atrocidades que a humanidade já presenciou. Dia após dia, um Michael atônito e obcecado comparece ao tribunal e acaba por descobrir um segredo de Hanna cuja revelação poderia beneficiá-la no processo, mas que ela insiste em preservar. É quando se estabelece outro grande conflito da história: até que ponto caberia a Michael intervir e mudar a sorte da mulher a despeito da vontade dela. O que para ele era um fato sem maiores conseqüências, para ela significava tanto que preferia ser condenada à prisão perpétua a vê-lo revelado. Após a inevitável condenação, os dois mais uma vez se distanciam, até um derradeiro reencontro que leva anos para ser construído e no qual, novamente, a literatura tem um papel decisivo. O desfecho, e não havia como ser diferente, é doído. E soberbo, como todo desfecho de uma grande obra.

Consta que a história é em parte autobiográfica, mas seria um exercício inconveniente e inútil especular o que nela haveria de real. Um único aspecto pode realmente interessar: o fato de Schlink atuar como juiz e professor de direito e filosofia na Universidade de Humboldt explicaria, muito além da possibilidade de alguma vivência relacionada a sua profissão lhe ter inspirado, a familiaridade com que trata de complexas questões jurídicas e humanas.

O entrecho, como se pode ver, faria a alegria de qualquer romancista. Nas mãos de Dostoiévski, é de se imaginar que renderia um romance de mil páginas em miúda letra. Não é o que acontece com O leitor. Dono de uma prosa enxuta que privilegia as frases curtas, os substantivos, e onde não há espaço para filigranas estilísticas, Schlink não precisa mais do que 240 páginas para contar a história em toda sua complexidade. Os capítulos, igualmente curtos e narrados em primeira pessoa, seguem à risca a cronologia dos fatos. Indo direto ao ponto, sem perder tempo com o que não é absolutamente necessário, trata-se de um livro perfeito para ser transformado em roteiro, por isso a adaptação para o cinema lhe é tão fiel. Talvez Schlink seja também um cinéfilo que foi condenado a escrever.

Mesmo com todas suas inegáveis qualidades, não há no filme o que o livro não tenha realizado, e de forma mais completa. A estranha potência das palavras continua sempre operando seus milagres.

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BERNHARD SCHLINK

Bernard Schlink. Foto: Divulgação

Nasceu na Alemanha, em 1944, e é jurista de formação. Sua pequena produção literária compreende novelas policiais, com que iniciou sua carreira, e O outro, que em breve aparecerá no cinema. O leitor é sem dúvida o título mais conhecido e foi o primeiro livro alemão a encabeçar a lista dos mais vendidos do The New York Times.

Bernhard Schlink_livro

Bernhard Schlink
Trad.: Pedro Sussekind
Record
240 págs.