Ensaios e Resenhas

maio 2012 / Ensaios e Resenhas / À espera de justiça

Texto publicado na edição #145

À espera de justiça

  No tecido da literatura brasileira há um vigor que não cansa de pulsar. São os autores esquecidos, sobranceados pelos […]

> Por RODRIGO GURGEL

 

Ilustração: Carolina Vigna-Marú

No tecido da literatura brasileira há um vigor que não cansa de pulsar. São os autores esquecidos, sobranceados pelos que, injustamente, se tornaram famosos. Traídos pelas convenções estéticas, pelas panelinhas que controlam os cadernos culturais e pelos críticos obedientes a modismos, esses menosprezados cumprem, no entanto, digno papel: o de aguilhoar o establishment e comprovar que, andando na contramão, também é possível produzir boa literatura. Silentes, preenchendo as prateleiras dos sebos ou o canto úmido das bibliotecas, tais obras sussurram aos novos escritores: “Não receiem tomar emprestados meus acertos e melhores lições”.

Incluo nesse rol de livros desprezados o romance A falência, de Júlia Lopes de Almeida. Se alguns erram por nem mesmo citá-lo, outros — entre eles, Lúcia Miguel Pereira — falham ao classificar a autora como “monótona” ou destituída de estilo pessoal. Nada pode ser mais falso em relação à escritora que nos deixou vasta obra e teve a alegria de conhecer o sucesso em vida.

Figuras humanas
Poucos autores nacionais conseguiram criar tramas que se impusessem como panoramas de uma época ou de determinado contexto social. E um número ainda menor mostrou habilidade para dar vida a personagens variados, que não representassem existências isoladas, mas interagissem de forma dramática. Júlia Lopes de Almeida alcançou essas qualidades e concedeu a algumas de suas obras a perfeita característica do romanesco, ou seja, um conjunto ficcional harmonioso, em que à diversidade de tipos somam-se peripécias, anseios e decepções pessoais, personalidades contraditórias e, no caso de A falência, o cenário da nascente República e do Encilhamento.

Francisco Teodoro, protagonista da história, é o imigrante português de origem humilde que enriqueceu graças ao esforço pessoal. Proprietário de um armazém exportador de café, vive a euforia econômica do início da República Velha. Critica as inovações do novo regime, resiste às investidas dos especuladores, mas, afligido pelo enriquecimento frenético do rival Gama Torres, deixa-se engolfar na promessa de lucros fáceis. A luta para emergir da pobreza concedeu-lhe não apenas o gosto da pompa, mas também um leve traço de distúrbio obsessivo-compulsivo, o cacoete de “remexer com a mão curta e gorda o dinheiro e as chaves guardadas no bolso direito das calças”. Esse homem de bom coração — que sustenta inclusive pais e irmãos da esposa, cujas cartas, pedindo sempre mais dinheiro, não param de chegar do Sergipe —, capaz de defender a Monarquia sem dissimulações, é o centro em torno do qual gravitam as demais personagens: Mário, o primogênito, esbanjador e boêmio; Nina, a sobrinha pobre, abandonada pelo pai, que adora Mário e cujo amor não será correspondido; Ruth, a filha sensível, imaginosa, hábil violinista; Noca, a mulata agregada, contadora de histórias, supersticiosa, intérprete de sonhos; as pequenas Raquel e Lia, filhas caçulas e gêmeas, sempre prontas a fazer estripulias; Camila, a esposa egocêntrica e adúltera, que finge estar resignada ao casamento sem amor; as tias de Camila, Itelvina, avarenta e rancorosa, e Joana, devota e bonachona; Gervásio, médico da família e amante de Camila; Rino, tímido rival de Gervásio; e toda a corte formada por amigos, conhecidos, empregados.

Cada um desses personagens possui idiossincrasias que não surgem de forma esquemática, mas contextualizadas, respondendo à dinâmica da trama. A avareza de Itelvina, por exemplo, não é um mero penduricalho, mas uma compulsão que a leva a roubar as esmolas que Joana consegue para a Igreja e, na ausência da irmã, até mesmo apagar, por economia, a lamparina do oratório. Bisbilhoteira, fria e arrogante, chega ao extremo de surrar a empregada Sancha por motivos que não passam de invenções da sua imaginação doentia. Mas cada um dos seus gestos e falas jamais é gratuito — ao contrário, corresponde a determinada situação e provoca alguma conseqüência, ainda que insignificante. Assim, no Capítulo III, o ótimo diálogo entre Itelvina e Noca revela a memória autocomplacente da primeira, que não enxerga a própria sovinice, a ponto de transferir o drama ocorrido em sua casa a outras circunstâncias, irreais.

A capacidade de criar pormenores reveladores, impregnados de psicologia, é, sem dúvida, uma das qualidades de Júlia Lopes de Almeida. Camila, salva da pobreza graças ao casamento com Francisco Teodoro, revela-se por inteiro nos breves comentários de insatisfação que verbaliza, no Capítulo II, ao entrar, recém-casada, no lar decorado pelo marido:

A sua maior comoção fora ao entrar em casa, na rua da Candelária. Supusera sempre que ela apalpasse, com sofreguidão, todo o seu ninho, na alegria de ser a dona, a senhora de tantas coisas compradas para o agasalho do seu amor. Mas não: em vez de ir para o interior, Camila fora para a sacada. Ele acompanhou-a.

Em frente, os telhados mais baixos sucediam-se irregulares, cortando-se em linhas angulosas de um vermelho sujo; as casas, desiguais, acumulavam-se, paredes ameaçando paredes, janelinhas de sótãos espiando as telhas estriadas de limo, de onde emergiam chaminés negras e curtas, baforando fumo.

Camila murmurava, como quem fala só:

— Se ao menos se visse o mar…

Disse; e curvava-se para a rua quando a badalada de um sino reboou perto, formidável, prolongando-se num som que era como um gemido da cidade inteira. Mila ergueu-se com um estremeção e voltou para o perfil da igreja o olhar estático.

Ele sorrira do susto, enquanto ela dizia:

— Como é alto!

Tal descompasso de sentimentos só aumentará — e anos depois, residindo no palacete de Botafogo em que grande parte do romance transcorre, enquanto Francisco dorme na cadeira de balanço e a casa oscila entre as histórias de Noca, a partida de Mário para mais uma noitada, a brincadeira das crianças e a solidão de Nina, a autora fecha o Capítulo II de maneira a confirmar nossas suspeitas: “[…] lá em cima, no terraço, ao lado do marido adormecido, Camila curvou-se para o dr. Gervásio e beijou-o na boca”.

Submissa apenas na aparência, Camila justifica o adultério como uma resposta às traições de Francisco Teodoro quando recém-casado. Mas a verdade é que o fato de sentir-se desejada por Gervásio e Rino alimenta seu amor-próprio, sentimento ao qual se abandona com evidente luxúria. Ser infiel, contudo, ganha outros contornos e transborda para a forma como acoberta os erros de Mário, mente sobre questões insignificantes e age de maneira perdulária. Seu apego ao caso de amor é maior, inclusive, do que a vergonha de ser desmascarada pelo filho. E quando o amante, a pedido de Francisco Teodoro, lhe comunica a falência, suas reações passam por diferentes estágios: da crítica ultrajante às acusações infundadas, da revolta ao desejo de proteger o marido. Camila, portanto, não está condenada pela autora a ser apenas uma esposa volúvel. Depois do suicídio do marido, parte de sua complexidade mostra-se na cena em que, vestida de luto, recebe de Gervásio a chave do esquife: “[…] sentia na palma da mão a friagem daquela chave pequenina e pesada sem saber onde guardá-la, com medo de a pôr no seio, achando irreverente guardá-la no bolso”. São as dúvidas de uma viúva fútil, mas que demonstra saber o preço que deve pagar à opinião alheia. Meses mais tarde, quando ainda reluta em aceitar a pobreza, após se decepcionar com Gervásio ela enfim abraçará, sem teatralismos, o real, demonstrando maturidade e resiliência.

O hipócrita e falante Gervásio Gomes impõe-se gradativamente à família, ocupando o vazio deixado por Francisco Teodoro, mais preocupado com os negócios. Sob o olhar ciumento de Rino, ele não passa de um “tipo escanifrado”, com “ar de ironia, às vezes perversa, às vezes insulsa”. Na verdade, por trás das frases prontas e dos rasgos de ácido humor há o homem cético, o esnobe que também foi traído pela esposa. Gervásio nos provoca repulsa, mas é impossível não rir dos seus comentários cheios de afetação, como este, quando pretende redirecionar os interesses musicais de Ruth: “Chopin é um músico perigoso, minha filha; é um torturador, um excitador de almas. Contente-se com os seus clássicos, mais sadios e mais frescos”. Ele incorpora, de maneira crescente, a tarefa de refinar os gostos da família de Camila — e suas intromissões não conhecem limite:

Ele agora demorava-se no palacete dias inteiros. Fora ele quem determinara a transformação de duas alcovas inúteis em uma sala de música, em que essa aplicação fosse indicada por pinturas a fresco: foi ele quem contratou artistas, quem escolheu mobílias novas e harmonizou o conjunto em todas as peças. Tudo que saía das suas mãos parecia a Camila perfeito.

A família vive, assim, de forma promíscua, aceitando a autoridade do amante, cujas ordens podem descer a detalhes:

Entretanto, o dr. Gervásio perguntou a Mila:

— Seu marido está melhor?

— Não sei; anda amofinado… Sentiu muito o casamento de Mário. Ele não quer que se diga que está doente. E efetivamente não está. Não sei o que é aquilo.

Gervásio calou-se, pensativo. As gêmeas começaram a rir, uma da outra.

— Viu que bonito cróton está no vaso da entrada, doutor? — perguntou Ruth ao médico.

— Vi. O cróton é bonito, o vaso é que é medonho. Tirem aquele vaso de alabastro dali, ou eu não volto cá.

— Acha feio?

— Horrível.

Joana será a única a enfrentá-lo, quando o encontra, por acaso, num bairro da periferia. Depois de ouvir as censuras, o amante se revolta:

[…] sentia-se colado de espanto àquele chão poeirento. Os seus amores, que ele julgava bem ocultos, tinham varado as sacristias e ido do Botafogo elegante até aos casebres do Castelo e da Conceição! Quis desmentir a velha; mas os seus olhos claros, de um castanho louro, não o deixaram falar, cortando-lhe pela raiz qualquer protesto. Ela não falara só pela boca, que a tinha sincera; mas também pelos olhos, em cuja limpidez aparecera toda a verdade.

O médico viu-a, com ódio, ir arrastando, na sua peregrinação de fé, as pernas inchadas, rebolando os quadris largos, bem fornidos e que ainda os franzidos da saia exageravam.

Apressou-se em voltar-lhe as costas, com medo que ela tornasse, para lhe dizer ainda alguma coisa do pecado.

Mas, tão fútil quanto Camila, sua indignação é falsa, pouco resiste:

Cansado, nervoso, picado pelo sol, o dr. Gervásio seguiu à toa, desceu o morro, andou pelas ruas, mal respondendo aos cumprimentos dos conhecidos, que ia encontrando à proporção que se aproximava do seu centro habitual. Já nada do que vira e o impressionara naquele giro, se lhe esboçava na lembrança. Aquelas riquezas, aquele movimento, aquelas casas, aquele rumor de população atarefada, baixa e mesclada, aquelas altas ruas despenhadas em escadarias imundas e barrancos, tudo se dissipava e se fundia numa impressão de mar e de lixo, de onde surgia a voz melada, untuosa da tia Joana, oferecendo promessas, confidenciando com estranhos sobre os seus amores e os seus adorados segredos.

Uma raiva surda roncava-lhe no peito, quando chegou à rua do Ouvidor.

Veio-lhe então em cheio o aroma das flores frescas, à venda na esquina; e a graça de uma mulher que passava com um chapéu atrevido e um vestido bem feito, distraíram-no um pouco…

Não há, portanto, nenhuma figura humana destituída de personalidade em A falência. Até mesmo o secundário Negreiros é presenteado com momentos em que pode revelar seu caráter. Já decretada a falência, ele e Francisco Teodoro se encontram. Enquanto o segundo aguarda o bonde, um cupê passa, levando Inocêncio, o banqueiro que arruinara o exportador de café. Há um rápido diálogo:

Francisco Teodoro nem tocou no chapéu e murmurou com ódio:

— Cão!

— Vai para a Europa… segue diretamente para Londres, num paquete da Nova Zelândia, amanhã.

— Com o meu dinheiro…

Negreiros engoliu uma palavra qualquer, afagou o nariz e depois, corando um pouco, aproximou-se mais de Teodoro e murmurou:

— Se precisar de mim… os amigos são para as ocasiões…

Francisco Teodoro estremeceu e apertou-lhe a mão com força; houve nos olhos de ambos como que o brilho passageiro e eloquente de uma lágrima. Vinha um bonde; o negociante tornou a sacudir em silêncio a mão de Negreiros e partiu.

O narrador não deixará de observar que, dias depois, antes de seguir para o velório, “Negreiros levou a carteira cheia, pensando em fazer o enterro”.

Diálogos e descrições
Os aspectos positivos de A falência não se esgotam na psicologia dos personagens — da qual, aliás, demos poucos exemplos. Há ótimos diálogos, plenos de fluidez e naturalidade; e descrições abrangentes — que não negligenciam nenhum aspecto do real —, nas quais há espaço para cores, movimentos, aromas, sensações. A abertura do Capítulo I é clássica:

O Rio de Janeiro ardia sob o sol de dezembro, que escaldava as pedras, bafejando um ar de fornalha na atmosfera. Toda a rua de S. Bento, atravancada por veículos pesadões e estrepitosos, cheirava a café cru. Era hora de trabalho.

Entre o fragor das ferragens sacudidas, o giro ameaçador das rodas e os corcovos de animais contidos por mãos brutas, o povo negrejava suando, compacto e esbaforido.

[…] Um carroceiro, em pé dentro do caminhão, onde ajeitava as sacas, gritava zangado, voltando-se para o fundo negro da casa:

— Andem com isso, que às onze horas tenho de estar nas Docas!

E os carregadores vinham, sucedendo-se com uma pressa fantástica, atirar as sacas para o fundo do caminhão, levantando no baque nuvens de pó que os envolvia. Uns eram brancos, de peitos cabeludos mal cobertos pela camisa de meia enrugada de algodão sujo: outros negros, nus da cintura para cima, reluzentes de suor, com olhos esbugalhados.

Ao cheiro do café misturava-se o do suor daqueles corpos agitados, cujo sangue se via palpitar nas veias entumescidas do pescoço e dos braços.

Da balbúrdia que se desenrola na rua, o narrador nos leva ao interior do armazém, chegando ao “extenso porão”,

sem janelas, ladeado de sacos sobrepostos e adornado nas vigas sujas do teto por infinita quantidade de teias de aranha, enredadas, como longas sanefas viscosas de crepe russo.

Para depois subir ao escritório, onde encontramos o proprietário, Francisco Teodoro:

Toda a sua pessoa ressumava fartura e a altivez de quem sai vitorioso de teimosa luta.

Gordo, calvo, de barba grisalha rente ao rosto claro, com os olhos garços tranquilos e os dentes brancos e pequeninos, tinha um belo ar de burguês satisfeito.

Não era alto e quando andava fazia tremer a casa, tal a firmeza dos seus passos pesados.

Problemas
A falência, contudo, apresenta alguns traços naturalistas e muitas vezes resvala para um romantismo sentimentalóide — a pior escolha talvez seja comparar os olhos de Camila a “duas nascentes de agonia, choravam sem cessar”.

Mas há outros elementos que destoam do conjunto. Em certos trechos, o tema do feminismo se desvincula da narração, ganha vida própria, e torna-se mero discurso panfletário. Em outros, o narrador exagera no cromatismo e acaba por criar pinturas de mau gosto:

Ao longe, a Serra dos Órgãos desenhava no céu os seus contornos de um azul de ardósia. Para os lados da barra havia montes de prata fosca em que o sol, cintilando nas pedras, escorria laivos de prata polida, e rochedos cor de violeta espelhavam-se nágua; entre montanhas de um verdor intensíssimo.

Júlia Lopes de Almeida chega, inclusive, a repetir algumas figuras, insistindo na presença dourada do sol, no azul de tons variados, na vespa solitária que, perdida no aposento, ressalta o silêncio, nas cigarras a cantar enquanto a ruína se instala, no personagem que caminha e aproveita para refletir… É como se, de repente, ela esquecesse os múltiplos recursos de que provou ter domínio. E se tivesse controlado um pouco o seu narrador, principalmente quando ele desanda em divagações infantis ou sente-se obrigado a bordar com razões e filigranas tudo que vê, teria feito um benefício ainda maior à nossa literatura.

De qualquer modo, quando terminamos de ler A falência torna-se ainda mais inacreditável que péssimos autores — como Franklin Távora, Adolfo Caminha ou Afonso Arinos — continuem recebendo elogios, enquanto Júlia Lopes de Almeida, passado mais de um século da publicação de A falência, ainda não mereceu profunda e extensa releitura.

NOTA
Desde a edição 122 do Rascunho (junho de 2010), o crítico Rodrigo Gurgel escreve a respeito dos principais prosadores da literatura brasileira. Na próxima edição, Emanuel Guimarães e A todo transe!…

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Júlia Lopes de Almeida

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Júlia Valentim da Silveira Lopes de Almeida nasceu no Rio de Janeiro, em 24 de setembro de 1862, falecendo na mesma cidade, a 30 de maio de 1934. Viveu parte da infância na cidade de Campinas, São Paulo, onde começou a escrever, colaborando na Gazeta de Campinas, em 1881. Mais tarde, manteve, durante 30 anos, uma coluna no jornal O País. Depois de casar, em 1887, com o escritor português Filinto de Almeida, à época diretor de A Semana, editada no Rio de Janeiro, passou a colaborar sistematicamente com a revista. Sua produção literária foi vasta, mais de 40 volumes abrangendo romances, contos, literatura infantil, teatro, jornalismo, crônicas e obras didáticas.