Inquérito

dezembro 2014 / Inquérito / A escrita como guia

Texto publicado na edição #176

A escrita como guia

O escritor, tradutor e jornalista Bernardo Ajzenberg nasceu em São Paulo (SP), em 1959. Formou-se em jornalismo pela Fundação Cásper […]

> Por RASCUNHO

O escritor, tradutor e jornalista Bernardo Ajzenberg nasceu em São Paulo (SP), em 1959. Formou-se em jornalismo pela Fundação Cásper Líbero. A partir de 1976, trabalhou em veículos como Veja, Gazeta Mercantil e Folha de S. Paulo, onde foi ombudsman de 2001 a 2004. Se já aos 16 anos sabia que a literatura o ajudaria a se situar no mundo, foi somente em 1986 que estreou no mundo da ficção, com Carreiras cortadas. Não parou mais. O reconhecimento maior chegou em 2003, quando recebeu o prêmio de Ficção do Ano da Academia Brasileira de Letras, pelo romance A gaiola de Faraday. A partir daí, em 2005 foi finalista do Jabuti, com a coletânea de contos Homens com mulheres e, em 2009, finalista do Portugal Telecom, por Olhos secos. Além de ter sido publicado em antologias no Brasil e no exterior, seu trabalho como tradutor já trouxe para o Brasil mais de 30 obras literárias — do inglês, francês e espanhol. Não à toa, em 2010 ganhou o Jabuti pela tradução de Purgatório, de Tomas Eloy Martinez. Ademais, entre muitos outros, já traduziu Roberto Bolaño e John Reed. Sua obra ainda conta com os romances Efeito suspensório, Goldstein & Camargo, Variações Goldman, Duas novelas e o recém-lançado Minha vida sem banho.

Editora Rocco

Bernardo Ajzenberg. Foto: Renato Parada

Quando se deu conta de que queria ser escritor?
Aos 16 anos, quando senti que precisava da escrita para me localizar no mundo.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Se começo a ler um livro tenho de acabar, mesmo que não esteja gostando. Procurar — e encontrar — erros nos meus textos e nos dos outros.

Que leitura é imprescindível no seu dia-a-dia?
Pelo menos um poema.

• Se pudesse recomendar um livro à presidente Dilma, qual seria?
O direito à preguiça, do Paul Lafargue.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Tempo, silêncio e concentração. Uma boa ideia e um pouco de desespero ajudam.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Todas. É um aprendizado. Claro que um bom óculos ajuda.

O que considera um dia de trabalho produtivo?
Aquele em que surgiu pelo menos uma boa ideia, a ser registrada, para o livro que estou escrevendo.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
A busca do ritmo adequado para a frase, para as palavras poderem dançar à vontade e com leveza.

Qual o maior inimigo de um escritor?
O excesso de correção — seja formal, seja política.

O que mais lhe incomoda no meio literário?
Nada nele é exclusivo, mas detesto a hipocrisia e a falta de autocrítica.

Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Juliano Garcia Pessanha.

Um livro imprescindível e um descartável.
A paixão segundo GH, da Clarice Lispector; Travessuras da menina má, do Vargas Llosa.

Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
Excesso de formalismo, personagens inconsistentes e incoerência narrativa.

Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Nenhum.

Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
Numa cadeira de dentista, ao receber a anestesia. Tudo pode ser aproveitado.

Quando a inspiração não vem…
Brinco de escrever.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Dos vivos seria o Philip Roth, que eu acho incrível, com exceção de alguns livros mais recentes. Daria uma boa conversa. Dos mortos, Julien Gracq.

O que é um bom leitor?
Aquele que se entrega ao livro sem preconceitos e procura tirar dele o melhor para si.

O que te dá medo?
Levar um soco na cara.

O que te faz feliz?
Realizar aquilo que faça sentido para mim. O que nem sempre é possível.

Qual dúvida ou certeza guia seu trabalho?
A certeza de que ele só terá consistência se gerar dúvidas saudáveis na cabeça do leitor.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Dar o melhor de mim.

A literatura tem alguma obrigação?
Sim. Não subestimar a inteligência do leitor.

Qual o limite da ficção?
Tematicamente, é o conhecimento humano. Em termos formais é a linha que a separa do jornalismo e do ensaísmo; e não é tão simples detectá-la.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Woody Allen.

• O que você espera da eternidade?
Sinceramente, não consigo digerir esse conceito.

Leia resenha do romance Minha vida sem banho

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