Inquérito

dezembro 2017 / Inquérito / A escafandrista da forma

Texto publicado na edição #212

A escafandrista da forma

26 perguntas a Marina Colasanti

> Por RASCUNHO

Marina Colasanti, autora de Sangue fino

Marina Colasanti, autora de Sangue fino

Marina Colasanti acaba de completar 80 anos. O vigor e o entusiasmo pela literatura impressionam. Nascida em Asmara, na Eritreia (África), passou a infância na Líbia e na Itália. Em 1948, a família chegou ao Brasil em decorrência dos graves problemas vividos pela Europa após a Segunda Guerra. Já publicou mais de 50 livros, entre contos, poesia, prosa, literatura infantil e infantojuvenil. Acaba de receber o Prêmio Ibero-americano SM de Literatura Infantil. E concorre ao Hans Christian Andersen, cujo ganhador será revelado na Feira do Livro de Bolonha, em março de 2018.

• Quando se deu conta de que queria ser escritora?
Quando já o era. Cronista do Caderno B do Jornal do Brasil, redatora e secretária de texto, já estava com um pé no estribo antes de começar meu primeiro livro.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Não as tenho. Trabalho em qualquer situação. Leio de forma bastante desbaratada, mas só literatura.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
A do jornal.

• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Michel Temer, qual seria?
I Fioretti, de Francisco de Assis. Poderia ajudá-lo a sair da dura casca da sua vaidade.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
As que me permitem vestir traje de escafandrista.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Para mim, longas esperas em aeroportos, e voos. Na vida real não disponho dessa independência de tempo, nem de tão prolongado silêncio.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Aquele em que dei um passo à frente. E um passo pode ser aparentemente mínimo, como quando brincávamos de “mamãe quantos passos” e nos tocavam passos de formiga.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Encontrar uma forma nova de dizer antigas coisas. A busca do acerto. O acerto. Sentir-me capaz, peixe na água.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
Cada escritor tem o seu.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
O excesso de egos.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
À poesia das mulheres, sempre preterida.

• Um livro imprescindível e um descartável.
Descarto muitos. Não abro mão de nenhum dos que me formaram.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
A superficialidade.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Minha literatura não é feita de assuntos. É feita de forma.

• Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
Meu ouvido está sintonizado com cantos inusitados.

• Quando a inspiração não vem…
Os deuses foram generosos comigo, não sofro desse mal.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Hesito entre dois da minha plena intimidade, Yasunari Kawabata e Giuseppe Tomasi di Lampedusa. Traduzi ambos. Mas tomaria um vinho com o poeta Li Po.

• O que é um bom leitor?
Aquele que vive o que está lendo.

• O que te dá medo?
A ferocidade humana.

• O que te faz feliz?
O equilíbrio interior. E a retribuição amorosa.

• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
Nem uma nem outra. O que guia meu trabalho é o desejo.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Depende do que estou escrevendo. Se ensaio, a articulação do pensamento oferecendo um novo ponto de vista. Se ficção, aderir à minha própria emoção. Nos dois, a forma.

• A literatura tem alguma obrigação?
Prefiro a palavra compromisso. Tem compromisso com a verticalidade.

• Qual o limite da ficção?
Não há limite para a ficção. Sobretudo se pensarmos que a realidade também é uma narrativa, por vezes grandemente ficcional.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Saia justa, porque não tenho e nunca tive líder, embora cumprindo com meus deveres eleitorais. Pensando no coletivo, lhe apresentaria a internet.

• O que você espera da eternidade?
Não espero. Sou efêmera.

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