A literatura na poltrona

julho 2017 / A literatura na poltrona / A era da suspeita

Texto publicado na edição #207

A era da suspeita

Certezas, convicções, crenças, princípios, nada disso interessa aos grandes escritores

> Por JOSÉ CASTELLO

Ilustração: Matheus Vigliar

Ilustração: Matheus Vigliar

Não existisse a dúvida, não houvesse paradoxo e espanto, a ficção não teria a força que tem. Certezas, convicções, crenças, princípios, nada disso interessa aos grandes escritores, embora eles, em seu mundo pessoal, certamente os cultivem aqui e ali, como qualquer pessoa. Mas quando se trata da literatura, nada disso realmente tem importância, ou valor. A literatura se interessa, sobretudo, pela complexidade do real e, também, pela complexidade e incoerência da verdade.

O primado da dúvida, contudo, não impede que alguns escritores — e aqui penso no Dostoievski que escreveu o extraordinário O idiota, de 1869 — não os impede de colocar a própria dúvida sob o crivo da dúvida. De submetê-la a si mesma e a sua falta de princípios, na esperança de verificar, talvez, que usos submersos dela podemos fazer. Como ilustração, convido o leitor, aqui, a me acompanhar até o capítulo V da quarta parte de O idiota — que leio na tradução de Paulo Bezerra para a Editora 34.

Logo no segundo parágrafo, buscando algum ponto de apoio em meio à atmosfera turva que domina o romance, Varvara Ardaliónovna, a irmã de Gravila — um dos pretendentes da indecifrável Nastássia —, incomodada com os impasses amorosos do irmão, nos traz um retrato preciso do manto cheio de furos que a envolve. Perplexa, Varvara diz: “De fato, aconteceu com todos alguma coisa muito estranha: nada havia acontecido e ao mesmo tempo era como se muita coisa tivesse acontecido”.

Com uma frase, Varvara captura não só a estratégia ficcional de Dostoievski, que sempre privilegia a dúvida em detrimento das afirmações, como anuncia todo um futuro humano cada vez mais nebuloso que, atravessando o século 20, se desenrola como um tapete traiçoeiro até nossos pés, já no século 21. A questão hoje — como já era em Dostoievski — não é saber o que achamos a respeito do que está acontecendo, mas, antes, perceber se algo está de fato acontecendo, ou não. A questão não é “por que estou aqui”, mas “onde estou”.

Os personagens discutem, cada vez mais esfogueados, a figura obscura do príncipe Míchkin, aquele a quem, sem dispor de outro nome, eles chamam de “idiota”. Lisavieta Prokófievna, a mãe de sua pretendente Aglaia, assim resume a situação: “O príncipe é bom, ou não é bom? Tudo isso é bom ou não é bom? Se não é bom (o que não deixa dúvida), então por que precisamente não é bom? E se, talvez, for bom (o que também é possível), então mais uma vez bom por quê?”. Também a reflexão de Lisavieta, que nada explica, que apenas torna tudo mais confuso, ecoa entra nós, como uma ventania, dois séculos depois. Ela quase pode ser ouvida não só na Avenida Niévski, em Petersburgo — a respeito da qual Alexei Gogol, o mestre de Dostoievski, escreveu um relato célebre —, mas também, nos dias de hoje, em plena Avenida Paulista, ou em alguma esquina da Rio Branco.

Quando, algumas páginas depois, ficamos sabendo que Aglaia resolvera enviar de presente para o príncipe um ouriço — isso mesmo: o pequeno mamífero, com o corpo coberto de espinhos, que vagueia pelas estepes russas —, Lisavieta fica, mais uma vez, completamente atônita. Uma corrente de perguntas, então, a sufoca: “O que significa o ouriço? O que estará convencionado aí? O que isso subentende? Que sinal é esse?”. Outra vez, a generala, que é prima distante do príncipe Míchkin, desfia perguntas que produzem ecos, cada vez mais agudos, nos dias de hoje. Que nos gelam e nos estonteiam e das quais, no entanto, não temos condições de fugir. Não há dúvida: Dostoievski escreveu O idiota não apenas para o século 19 russo, mas para o futuro.

É assim em todo o livro, alvoroço que se sintetiza não só na figura frágil do príncipe Míchkin, mas também naquelas dos vigorosos Parfen Rogójin e Nastassia Filíppovna, os verdadeiros condutores da narrativa. Quanto mais lemos — a tradução brasileira tem 683 páginas —, menos entendemos. Quanto mais a ficção luta para capturar o real, mais ele se mostra fragmentado e incoerente. Enquanto lia O idiota, na esperança medíocre de respirar, eu fazia intervalos para acompanhar o noticiário nos sites da internet, mas tudo era sempre pior. Só então me aproximava um pouco da verdadeira dimensão da literatura de Dostoievski e do modo como ela destrincha o humano.

Uma centena de páginas atrás, dois outros personagens, o general Pávlovich e o atônito Liébediev, travam uma discussão a respeito da inconsistência da realidade. Diz Liébediev: “Quase toda a realidade, embora tenha as suas leis imutáveis, quase sempre é improvável e inverossímil. E inclusive quanto mais real ainda mais inverossímil”. No pé da página, uma breve nota assinala a grande proximidade entre os pensamentos de Liébediev e de seu criador, Fiódor Dostoievski, transcrevendo um pequeno trecho de uma carta do escritor expedida em 1868 aos críticos N. Strakhov e A. N. Maikov. Nela, Dostoievski escreve: “Eu tenho uma visão própria, singular do real (em arte), e o que a maioria considera quase fantástico e excepcional, para mim é às vezes a própria essência do real”.

Prossegue Dostoievski antecipando-se na crítica dos que, ainda hoje, creem na pureza dos fatos e, por isso, tantas vezes, leem os jornais como se eles fossem textos sagrados: “A meu ver, a rotina dos fenômenos e a visão estereotipada dos mesmos ainda não são realismo, mas até o oposto”. Onde há clareza demais, Dostoievski logo desenrola a sombra da dúvida. Onde tudo parece muito nítido, ele vê essa nitidez não como consolo, mas como perigo. Por isso, talvez, O idiota seja um romance tão perturbador. Ele ergue a cortina do real para revelar que, detrás dela, em vez da luz intensa da verdade, outras cortinas, ainda mais grossas, se amontoam.

Inevitável lembrar aqui de A era da suspeita, ensaio que a escritora e crítica francesa Nathalie Sarrraute publicou no longínquo ano de 1956. Em meados dos anos 1990, pouco antes de sua morte, eu a entrevistei em Paris. De repente, nossa conversa foi interrompida por uma espécie de martelada que ecoava de um cômodo vizinho. Mal podíamos nos ouvir. Perguntei o que era. “Vá ver você mesmo”, ela me disse. Ao abrir a porta que ficava no fundo do salão, encontrei uma mulher gorda e desgrenhada que, irada, batia com um pilão de carne na parede. Voltei perplexo. Sarraute, em um sussurro malicioso que jamais esquecerei, comentou: “Não é possível entender, basta desconfiar”.

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