Translato

fevereiro 2012 / Translato / A dimensão ética da tradução

Texto publicado na edição #111

A dimensão ética da tradução

A tradução tem, ou deveria ter, uma dimensão ética importante. Traduzir “eticamente” é traduzir com respeito não apenas pelo original, […]

> Por EDUARDO FERREIRA

A tradução tem, ou deveria ter, uma dimensão ética importante. Traduzir “eticamente” é traduzir com respeito não apenas pelo original, mas pelo ofício em si e, sobretudo, pelo texto traduzido. A dimensão ética da tradução tem uma vertente prática, que se expressa no empenho de traduzir tudo. Não deixar nada para trás, não se esconder atrás das dificuldades, não varrê-las para debaixo do texto, não abandonar trechos no texto de partida.

As tentações são muitas e fortes. O tradutor é presa fácil das tentações. Trabalhando em solidão, em isolamento, muitas vezes sem supervisão, sem revisão, não faltam oportunidades para trair em segredo. Não há, muitas vezes, “peer review”, não há a prática do escrutínio mútuo. O tradutor se sente solto e esse excesso de liberdade pode levá-lo à perda de parâmetros, ao desvio dos sentidos. Pode fazê-lo cair em tentação.

As tentações são muitas. Uma das mais banais é “esquecer” palavras, frases, parágrafos ou mesmo capítulos inteiros (como não se lembrar do caso de uma das traduções de Dom Casmurro para o inglês?). Esse esquecimento pode ter várias razões. Uma delas será alguma dificuldade considerada incontornável. A solução mais fácil? Varrer o trecho para debaixo do texto e deixá-lo ali, que não é desprezível a chance de ninguém notar.

As tentações são fortes. O tempo é uma pressão quase constante, que pode funcionar (e funciona) como desculpa. Não houve tempo para revisar tudo, para pesquisar tudo, para traduzir tudo. Ninguém mesmo vai ler tudo, tudinho, com meticulosidade de exegeta. Os textos têm em geral tantas lacunas. Uma a mais, apenas uma a mais.

As tentações são, acima de tudo, duradouras. São tantas as horas solitárias em frente ao computador, diante da página ainda meio em branco. São tantas as palavras, são tantas as alternativas, tantas as interpretações, para tão poucos leitores. Vale a pena o esforço?

A maior das tentações é deixar-se arrastar pelo enredo do quase certo desprezo do leitor. Não há tentação maior, que exija maior diligência e mais tenacidade para perseverar no fio de navalha da ética. O desprezo líquido e certo daquele que sequer vai dar-se ao trabalho de ler o nome do tradutor. É preciso saber escrever como ninguém para ninguém.

A tradução tem de ter uma dimensão ética. Respeito pelo texto traduzido, mais que pelo original. Produzir um texto que, mais que espelhar, valorize o original e valorize a si mesmo. Eternize o original em outro idioma e em outro tempo. Pode não haver traduções eternas, mas sempre haverá aquelas que marcam época.

A dimensão ética da tradução se manifesta na transparência do texto traduzido em relação ao original, na explicitação da teoria e da estratégia assumidas pelo tradutor, na revelação do método de trabalho. E mesmo na confissão de alguns pecadilhos. Lacunas inevitáveis, talvez, nascidas da impotência diante de um texto impenetrável.

A dimensão ética se exprime na tradução como exercício de transparência. Não que o texto traduzido deva ser mais “legível” que o original; deve, sim, ser mais devassável, pela necessidade de estar pronto a submeter-se a comparações que o original não precisa sofrer. Traduzir com ética é deixar transparecer. É traduzir tudo o que pode ser traduzido. É traduzir tudo.

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