Folha de rosto

fevereiro 2013 / Folha de rosto / A cortina luminosa

Texto publicado na edição #98

A cortina luminosa

Fotografias mostram, ou escondem? São espelhos luminosos, que desmascaram o Eu ou, ao contrário, superfícies embaçadas e traiçoeiras, que o […]

> Por JOSÉ CASTELLO

Fotografias mostram, ou escondem? São espelhos luminosos, que desmascaram o Eu ou, ao contrário, superfícies embaçadas e traiçoeiras, que o dissimulam? Perguntas incômodas me vêm enquanto folheio Clarice fotobiografia, um livro assombroso de Nadia Battella Gotlib. Janelas sobre a alma de Clarice, ou cortinas de luz que, fingindo mostrar, mascaram?

São fotos magníficas. Começam com a imagem solene da ucraniana Mania Krimgold, futura Marieta Lispector, mãe de Clarice. Não, não se parece com ela, mas há alguma coisa no porte, e também no olhar perdido, que denuncia a filiação. Fotos de família, que se misturam a imagens de Kiev, a capital. Fotos históricas, de soldados, de multidões, ruas comerciais, fachadas, a reprodução meticulosa de documentos.

A chegada a Maceió. A mudança para o Recife. Clarice pequena, em foto oval, entre as duas irmãs e os pais. Parentes, contraparentes, laços. A mãe morre. Um boletim escolar, a primeira carteira de identidade, a matrícula no colégio. A mocidade já no Rio de Janeiro. Nos retratos, os primeiros sinais mais nítidos da Clarice que conhecemos. Nas fotos de juventude, ela já olha para os lados, arredia ao presente, distante.

Adulta, trabalha no Departamento de Imprensa do Itamaraty. Em uma fotografia de gabinete, em outra nos jardins, uma terceira no museu da casa, Clarice refina o ar enigmático, de quem desvia os olhos e se abstrai. Nas primeiras fotos com o marido Maury, a felicidade ressurge. Também na clássica fotografia de formatura, de 1943. São momentos. Fotografada às vésperas da partida para Belém, onde o marido exercerá funções diplomáticas, a tristeza retorna. Não é uma tristeza ostensiva, dramática; é mais uma dor que se encolhe, uma mulher que, lentamente, se abstrai.

O casal se transfere para a Europa. De Argel, ela escreve para a irmã Tânia: “Nada tenho feito, nem lido, nem nada — sou inteiramente Clarice Gurgel Valente”. A desfiguração se inicia. A força do impessoal, tema de muitos de seus relatos. Conserva a elegância, a beleza, mas já começam a se impor a melancolia e o alheamento. Nas fotos sociais, só um sorriso protocolar, nada mais. Nos retratos mais íntimos, o espanto. Clarice mira o fotógrafo, faz a pose adequada, mas olha para dentro. A cortina de luz começa a descer.

Quando visita, com Maury, o vulcão Vesúvio, é pega de surpresa, olhando para trás, bela, mas estranha. Na temporada italiana, durante a qual Giorgio de Chirico pinta seu célebre retrato, um pouco de alegria, ainda que pálida, ressurge. Em Berna, “cemitério de sensações”, o afastamento se adensa de novo. Limita-se a simular a felicidade — uma felicidade clandestina, que captará depois na escrita, felicidade ilegítima, quase ilegal, que não corresponde ao que de fato sente.

Tormenta interior
A amiga Bluma Wainer a fotografa em Paris, muito bela, mas com um olhar abstrato — olhar fatal que, em uma fotografia mágica, ela esconde com as mãos espalmadas sobre o rosto. Aqui e ali, na vida social, um sorriso (que parece sempre forçado). Há sempre um descaso, um esquecimento, um desvio, a atenção que se dirige para outro lado, para coisas que ninguém mais vê. A felicidade, agora intensa, retorna com o nascimento do primeiro filho, Pedro. O segundo filho, Paulo, nasce na temporada de sete anos em Washington. Novo intervalo de alegria. Mas uma tormenta, contínua, se adensa em seu interior. Nadia Gotlib destaca as palavras do amigo Fernando Sabino: “Você está escrevendo como ninguém, você está dizendo o que ninguém ousou dizer”.

Não é fácil de carregar. Na célebre fotografia em que está escrevendo, caneta prateada sobre o caderno, e sob ele uma mesa de luz, Clarice volta a denunciar, nos olhos quase fechados, a presença do insuportável. Na volta em definitivo para o Rio de Janeiro, já separada de Maury, aparece na foto clássica, tirada na praia do Leme, entre uma amiga e os dois filhos. Os óculos escuros, indevassáveis, mal escondem seu jeito oblíquo de encarar o real. Mal disfarçam sua inapetência para a vida comum.

Está feliz, ainda assim, ao lado do amigo Sabino, ou quando posa com a máquina de escrever no colo. A alegria aparece, também, quando fala com leitores, dá entrevistas, autografa um livro. No avançar dos anos, contudo, o espanto aumenta. Ao lado do cachorro Ulisses, olhos cheios de dúvidas, justifica a frase que depois virou título de uma biografia: “Eu sou uma pergunta”.

Quando, em Brasília, discursa para agradecer um prêmio, de óculos grossos, tensa, já não parece acreditar nas palavras. Em outra fotografia, a amiga Olga Borelli vigia a angústia que a leva a apertar com violência as mãos. A morte chega e Carlos Drummond a resume: “Clarice/ veio de um mistério, partiu para outro”.

O livro, magnífico, tem mais de seiscentas páginas. O esforço de Nadia Gotlib é comovente. Mas virada a última página, a 652, as perguntas não só persistem, como se adensam. Onde está Clarice? O que Clarice via? O que queria Clarice? Perguntas que ela alargou, reverberou, gritou, sem nenhuma ilusão de responder. As fotografias de Clarice Lispector, sua beleza tensa, seu alheamento, sua perplexidade, apontam para coisas que não conseguimos ver. O que se vê só encobre o que Clarice Lispector é. Manto luminoso, que nos distrai e consola, enquanto a alma de Clarice ferve.

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A cortina luminosa

Nádia Battella Gotlib
Edusp/Imprensa Oficial
656 págs.