Dom Casmurro

março 2020 / Dom Casmurro / A casa na rua Mango

Texto publicado na edição #239

A casa na rua Mango

Conto Inédito de Sandra Cisneros

> Por Sandra Cisneros

Ilustração: Thiago Lucas

Ilustração: Thiago Lucas

Tradução: Natalia Borges Polesso

Nós não moramos desde sempre na Rua Mango. Antes disso, nós moramos na Loomis, no terceiro andar e, antes disso, nós moramos na Keeler. Antes da Keeler foi na Paulina e, antes disso eu não me lembro. Mas o que eu lembro mais é de nos mudarmos um monte. A cada vez parecia que surgia mais um de nós. Quando chegamos na Rua Mango, éramos seis — a Mãe, o Pai, o Carlos, a Kiki, minha irmã Nenny e eu.

A casa na Rua Mango é nossa e não temos que pagar aluguel para ninguém nem dividir o pátio com as pessoas do andar de baixo nem sermos cuidadosos para não fazer muito barulho e não tem um proprietário batendo no teto com uma vassoura. Mas, mesmo assim, não é a casa que nós pensávamos que conseguiríamos.

Nós tivemos que sair ligeiro do apartamento na Loomis. Os canos de água quebraram e o proprietário não os consertava porque a casa era velha demais. Nós tivemos que sair rápido. Estávamos usando o lavabo do apartamento vizinho e levando água em galões de leite vazios. Por isso a Mãe e o Pai procuraram uma casa e é por isso que nos mudamos pra casa da Rua Mango, longe dali, do outro lado da cidade.

Eles sempre nos disseram que um dia nos mudaríamos para uma casa, uma casa de verdade que fosse nossa para sempre e desse jeito não teríamos que nos mudar todos os anos. E nossa casa teria água corrente e canos funcionando. E dentro teria uma escada de verdade, não na entrada do prédio, mas dentro, como as casas na tevê. E nós teríamos um porão e pelo menos três banheiros, desse jeito quando nós tomássemos banho não teríamos que avisar todo o mundo. Nossa casa seria branca com árvores ao redor, um jardim grande e grama crescendo sem cerca. Era sobre essa casa que o Pai falava quando segurava um bilhete de loteria e era essa a casa com a qual a Mãe sonhava nas histórias que ela contava pra gente antes de irmos pra cama.

Mas a casa na Rua Mango não é do jeito que eles disseram, não mesmo. Ela é pequena e vermelha com degraus apertados na frente e janelas tão pequenas que você poderia pensar que elas estão segurando a respiração. Os tijolos se esfarelam em alguns lugares, e a porta da frente está tão inchada que você tem que empurrar com força para entrar. Não tem pátio, só quatro pequenos olmos que a prefeitura plantou perto da sarjeta. Atrás tem uma garagem pro carro que não possuímos ainda e um pequeno pátio que parece bem menor entre os dois prédios de cada lado. Tem escadas na nossa casa, mas são escadas comuns, e a casa tem só um banheiro. Todo mundo tem que dividir quartos — a Mãe e o Pai, o Carlos e a Kiki, e a Nenny e eu.

Quando morávamos na Loomis, uma freira da escola passou e me viu brincando lá na frente. A lavanderia no andar de baixo tinha sido coberta com tapumes porque havia sido roubada dois dias antes e o dono tinha pintado na madeira SIM ESTAMOS ABERTOS para não perderem clientes.

Onde você mora? ela perguntou.

Ali, eu disse apontando pro terceiro andar.

Você mora ali?

Ali. Eu tive que olhar para onde ela apontava — o terceiro andar, a pintura descascando, tábuas de madeira que o Pai tinha pregado nas janelas para que nós não caíssemos. Você mora ali? O jeito que ela disse fez eu me sentir como se eu fosse nada. Ali. Eu morava ali. Acenei com a cabeça.

Foi então que eu soube que eu tinha que ter uma casa. Uma casa de verdade. Uma pra qual eu pudesse apontar. Mas não é essa. A casa na Rua Mango não é isso. Por enquanto, a Mãe diz. Temporário, o Pai diz. Mas eu sei como são essas coisas.

Cabelos
Todo mundo na nossa família tem o cabelo diferente. O cabelo do meu Pai parece uma vassoura, todo em pé. E eu, meu cabelo é preguiçoso. Ele nunca obedece prendedores de cabelo ou faixas. O cabelo do Carlos é grosso e liso. Ele não precisa pentear. O cabelo da Nenny é escorregadio de liso — escorre das mãos. E a Kiki, que é a mais nova, tem o cabelo que parece pelo.

Mas o cabelo da minha Mãe, o cabelo da minha Mãe é como pequenas rosetas, como doces espiralados, todo encaracolado e lindo porque ela o prende em rolinhos o dia inteiro, é doce pôr o nariz dentro quando ela te abraça, quando ela te abraça e você se sente segura, é o cheiro quente de pão antes de assar, é o cheiro de quando ela dá espaço para você no lado dela na cama ainda quente da sua pele, e você dorme por ali, com a chuva lá fora caindo e o Pai roncando. O ronco, a chuva e o cabelo da Mãe que cheira a pão.

Print Friendly