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fevereiro 2012 / Por aí / A carreta literária

Texto publicado na edição #107

A carreta literária

A casa era bonita. Tinha paredes de cores fortes: azul. Laranja. Colunas amarelas. As plantas do jardim interno cresciam com […]

> Por ADRIANA LISBOA

A casa era bonita. Tinha paredes de cores fortes: azul. Laranja. Colunas amarelas. As plantas do jardim interno cresciam com a opulência do Caribe. Mas na rua ventava um vento bom, e havia mojitos demais na festa, e as conversas já tinham todas chegado aonde tinham que chegar. Então, o mais sensato era voltar à rua e seu nome curioso (Tumbamuertos). O caminho ao hotel era simples: seguir até a Calle del Santísimo e depois sempre em frente, até o teatro. Dali por diante eu me virava.

O Hay Festival de Cartagena de Indias acontece há quatro anos na cidade caribenha que faz pensar em Paraty, um pouco, e em Salvador. Alguém chamou meu nome. Mayra Santos-Febres, a escritora porto-riquenha, também fugia da festa.

Não era a primeira vez que Mayra ia ao festival. Mas era a primeira vez que tinha se deixado levar numa dança e depois num passeio pela área de Getsemani, que não é Cartagena turística, que não se mede pelo afluxo de estrangeiros fantasiados de caribenhos, com linho branco e suor. Pela Calle de Tumbamuertos e pela Calle del Santísimo, passando pelo teatro e pelas mesas ao ar livre onde as pessoas seguiriam bebendo e conversando alto, Mayra me contou essa história.

Eu já tinha sido apresentada a Martín Murillo e já o tinha visto com sua Carreta Literária nas ruas de Cartagena. Mas não conhecia a história que ele contou a Mayra durante a dança e o passeio por Getsemani, e que Mayra agora me contava, madrugada adentro.

Era uma vez um menino, nascido em Quibdó (Chocó, Colômbia) no ano de 1968, cujos pais se separaram quando ele tinha sete anos e que foi viver em Medellín com a mãe. Aos dezoito, rebelde, se foi para a costa do Caribe (“vamonos pa’la costa que el costeño es muy perezoso y allá hacemos plata”, lhe diziam seus amigos). Tornou-se marinheiro de barcos de contrabando. Conheceu, graças a esse ofício, Aruba (que se tornaria para ele o que Cuba era para Hemingway, como diria mais tarde), Panamá, Porto Rico, San Martín, Jamaica, Cancún. Depois foi vender arepas, espécie de broa salgada de milho, em Barranquilla. O dinheiro que ganhava, gastava. O dinheiro que gastava, ganhava.

Até que acabou indo parar em Cartagena. Morando num pequeno quarto de hotel sem banheiro, cujo espaço era suficiente para uma cama, foi ganhar a vida vendendo água. Com um diferencial, que impulsionou seu negócio: percebendo que os vendedores ambulantes de doces compravam água quente do fornecedor, passou a lhes oferecer água gelada. Pequenino lance de mestre.

Mas o que lhe agradava mesmo eram os jogos de basquete (“um esporte muito ético”). Seu sonho era ser comentarista da NBA. E por causa desse sonho Martín Murillo, ex-marinheiro de barcos de contrabando, ex-vendedor de arepas e atual vendedor de água em Cartagena, começou a ler. A lógica era aristotélica, conforme me contava Mayra naquela madrugada: para ser um bom comentarista de basquete, era preciso falar bem. E como aprender a falar bem? Lendo. Lendo os melhores autores. E quem seriam os melhores autores? Possivelmente aqueles que ganharam o Prêmio Nobel?

Um dia, lá estava Martín Murillo vendendo água a Jaime Abello Banfi, diretor da Fundação Nuevo Periodismo Iberoamericano, organização criada por Gabriel García Márquez. Empenhado em seu projeto de chegar à NBA, Martín lia Saramago na ocasião, ao que consta — seu autor favorito ao lado de, claro, Gabo. Ele e Jaime Abello Banfi começaram a falar de leitura. Martín acabou ganhando de presente vários livros da Fundação, e encontrou no diretor algo informalmente próximo de um padrinho literário.

Obcecado pelos livros e pela leitura, começou a economizar dez mil pesos dos quarenta mil diários que ganhava vendendo água e investi-los em sua biblioteca pessoal. A sugestão de transformar essa paixão numa utilidade pública veio do jornalista norte-americano Jon Lee Anderson. Martín colocou cento e poucos livros de sua coleção pessoal num carrinho como os dos vendedores ambulantes, com as palavras carreta literária. ¡leamos! pintadas em verde sobre fundo amarelo.

Na ocasião em que Mayra me contava a história ouvida na véspera entre uma dança e um passeio por Getsemani, Martín já andava pelas ruas de Cartagena com uma credencial do Hay Festival. A camiseta branca que ele veste hoje, com sua imagem junto à Carreta Literária, cria uma curiosa impressão de espelhos antepostos, reproduzindo uma imagem ao infinito, e divulga seu negócio — que não é um negócio, porque Martín não vive disto: a Carreta Literária empresta livros de graça e na base da confiança. O homem que a conduz pelas ruas, avatar de algo precioso e esquecido, ou desconhecido, algo ligeiramente fora deste mundo, não ganha mais a vida vendendo água: ele tem hoje um emprego na Emisora Atlántico. Por conta de sua história com os livros, já deu entrevistas à CNN e à BBC e participou de debates formais, mas insiste — e estamos, creio, todos habilitados a entender esse espanhol: “Mí oficina es la calle, con todo respeto yo soy como las putas. A mí me faltan horas y horas de lectura pero nunca haré lo que hacen muchos intelectuales, encerrarse con sus conocimientos”.

Como sua existência flerta com a dos personagens de ficção, me dou a liberdade de pensar para Martín Murillo o capítulo seguinte: ele por fim se torna comentarista da NBA, entremeando à ética do basquete certa ética literária, feita de frases preciosas e um tanto excêntricas. Vive oficialmente em Aruba. Em sua casa, é possível pegar livros emprestados. Beber uma água (ou uma cerveja) gelada, por conta do anfitrião. E, entre uma coisa e outra, dançar.

 

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