Tudo é narrativa

dezembro 2017 / Tudo é narrativa / A arte sequestrada

Texto publicado na edição #212

A arte sequestrada

O que ocorre em Fortaleza é só um sintoma do que devasta o país inteiro

> Por Tércia Montenegro

Ilustração: Kleverson Mariano

Ilustração: Kleverson Mariano

158 artistas expondo em 15 espaços da cidade, sob a organização de 9 curadores: uma colaboração voluntária que fez a efervescência cultural em Fortaleza durante um mês. Foi belo, foi revigorante — além de marcante em termos históricos. Mas foi, acima de tudo, necessário. O Salão de Abril Sequestrado representou uma iniciativa da classe artística contra a inexplicável mudez da Prefeitura, que em 2017 deixou que os meses se desenrolassem, sem dar qualquer resposta à pergunta “Não vai ter Salão de Abril este ano?”. O compromisso, assumido desde 1964 pela administração pública, parecia ignorado pela atual gestão. Era grande o risco de que este — que é o mais antigo salão de artes em vigor no país — passasse a ser desconsiderado e, por conseguinte, fosse extinto.

Para quem não conhece a história deste evento artístico, cito o resumo produzido para o site oficial http://www.salaodeabril.com.br/:

Lançado em 1943, como iniciativa da Secretaria de Cultura da União Estadual dos Estudantes (UEE), o Salão de Abril foi encampado em seguida por artistas que atuavam na cidade nos anos 1940. Foi assim que, a partir da segunda edição do Salão, em 1946, a Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP) assumiu a sua realização, tornando-se a entidade responsável por sua continuidade até 1958. Faziam parte da SCAP artistas como Antônio Bandeira, Aldemir Martins, Barrica, o suíço Jean Pierre Chabloz, o jovem Estrigas, a sua futura mulher Nice Estrigas, Sérvulo Esmeraldo e, mais tarde, Dona Heloisa Juaçaba e muitos outros artistas que vieram em suas edições até os dias atuais.

Agora, totalmente fora das oficialidades, o Salão Sequestrado aconteceu como estratégia de salvamento — sem perder por isso o prumo das excelentes trocas estéticas. A organização costurou temas e propostas múltiplas, com uma eficiência impecável, num prazo quase impossível. E os espaços utilizados, dentre galerias e sedes culturais autônomas, envolveram também as afetividades urbanas. A Vila Vicentina, o Poço da Draga, o Parque do Cocó são locais que levantam questões muito sérias relativas à preservação do patrimônio paisagístico e das comunidades hoje, em Fortaleza. Envolver esses ambientes na proposta do Salão reforçou o seu gesto político. Trata-se de defender, de modo amplo, o que está sendo ameaçado, o que por um triz pode ser condenado ao sumiço.

Não raramente, a técnica do descaso é adotada em nosso país: em vez de recusar claramente uma atitude ou compromisso — o que provocaria réplicas imediatas, polêmicas —, a pessoa simplesmente vai deixando correr o tempo, evitando o assunto, “matando no cansaço”, como se diz. Foi esse o destino empoeirado, aliás, que sofreu uma escultura produzida por Flávio de Carvalho, em homenagem a Garcia Lorca — e que depois viria igualmente a ser salva através de um sequestro. Em matéria assinada por Lais Modelli para a BBC Brasil, publicada em 30 de setembro, somos informados de que o monumento foi danificado em 1969 numa explosão misteriosa, possivelmente associada ao Comando de Caça aos Comunistas. As ruínas da obra foram levadas pela Prefeitura de São Paulo para um lugar desconhecido e, apesar de todos os esforços do artista que a criou, nenhuma satisfação foi dada, acerca do seu paradeiro.

Esperava-se que a escultura simplesmente fosse esquecida, bem como a figura que ela homenageava — o poeta Lorca, até hoje um exemplo de resistência a governos repressores.

Entretanto, em 1979 o futuro cineasta Fernando Meirelles, que à época estudava na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), descobriu o esconderijo da escultura num depósito. Com um grupo de amigos conspiradores, ele conseguiu raptar a obra de Flávio de Carvalho, que depois foi remontada e exposta no vão livre do Masp, até finalmente ser restituída ao local onde primeiro esteve, a Praça das Guianas.

Aqui, a similaridade do gesto de sequestro é uma feliz coincidência. Nos dois casos trata-se de uma captura não para ocultar algo; ao contrário, sequestrar a arte só pode ter por finalidade expandi-la, torná-la viável, tirá-la de qualquer congelamento. Mas, para além desse aspecto, há o sentido jurídico do termo: um sequestro para o cumprimento da tutela de urgência, verdadeira medida cautelar para a asseguração do direito.

Depois que o Sequestrado abriu suas atividades, o secretário Evaldo Lima prometeu, em entrevista concedida ao jornal O Povo no dia 29 de setembro, um Salão com mostra retrospectiva do acervo da Prefeitura, a acontecer no último mês de 2017. Como devo entregar este texto ao Rascunho com antecedência e você, leitor, já está dentro deste futuro dezembro, talvez seja interessante fazer uma pesquisa na internet para saber se esta promessa realmente se cumpriu. O que posso dizer, nesta perspectiva cética em que me encontro, é que a cidade está aguardando, assim como espera para os anos seguintes um compromisso público fortalecido na direção da arte e da cultura. Não deveria ser necessário lembrar que esses elementos são parte crucial na formação do pensamento e da própria humanidade — mas esta anda tão enxovalhada, que já bastante gente vai pensando que se trata de um luxo… O que ocorre em Fortaleza é só um sintoma do que devasta o país inteiro.

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