Ensaios e Resenhas

agosto 2011 / Ensaios e Resenhas / A arte do inacabado

Texto publicado na edição #136

A arte do inacabado

A visão de um menino sobre as tempestades da guerra e do exílio e sua comparação às bruscas mudanças de […]

> Por PAULA CAJATY

A visão de um menino sobre as tempestades da guerra e do exílio e sua comparação às bruscas mudanças de humor do rio Drina, na cidade bósnia de Visegrad, foram as formas que Sasa Stanisic encontrou para retratar a enxurrada de sangue que sérvios, bósnios e croatas impuseram à Europa Oriental após a queda do Muro de Berlim e o racha da unidade soviética. A descoberta de que nenhuma varinha mágica pode mudar a realidade e de que deixar obras inacabadas pode não ser tão divertido quanto parece são os ganchos essenciais para compreender como o amadurecimento de um adolescente é possível no contexto de uma guerra civil que interrompeu milhares de vidas e dilacerou milhões de famílias e infâncias.

Não é, contudo, a primeira vez que as margens do Drina produzem um autor fascinante: Ivo Andric, croata, já havia escrito A ponte sobre o Drina e foi premiado com o Nobel de Literatura em 1961. Entre 1992 e 1995, contudo, Visegrad e seu Drina protagonizaram um relato bem mais trágico, tornando-se palco dos horrores de uma guerra violenta e traiçoeira. Mais recentemente, o livro Da rosa ao pó (Gustavo Silva, Tinta Negra, 2011) também buscou resgatar essas “histórias da Bósnia pós-genocídio”. No entanto, com relação à Guerra da Bósnia, que completará 20 anos em 2012, o melhor a fazer primeiro é ler o livro de Stanisic, já que compreender as intrincadas forças raciais, sociopolíticas e religiosas que desaguaram nos três anos de conflito, com requintes de crueldade, ódio, genocídio e violações em massa, é uma tarefa difícil e que certamente exigirá bastante do leitor.

Sasa, um escritor bósnio cuja experiência, fortuna crítica e premiação contradizem a pouca idade, opta por uma narrativa suavemente furiosa e, sobretudo, intensamente poética, com metáforas preciosas e silêncios bem pontuados, conferindo o tom perfeito e único que o livro assumiu. Ao ler Como o soldado conserta o gramofone, algo se cala diante da profundeza e da impetuosidade das memórias do menino Aleksandar: a história de um tempo que devemos guardar com carinho; e uma outra, sobre um tempo perverso que não pode ser esquecido.

Bem diferente de outro relato de guerra, feito pelo alemão Bernhard Schlink em O leitor, que apresenta prosa seca e contundente e economia absoluta em palavras e descrições, aqui os relatos se misturam entre delírios e realidades, aproximando o que se gostaria que tivesse acontecido, o que realmente aconteceu e o pouco que restou na lembrança em um registro inocente, leve, quase divertido e deliciosamente fantasioso da juventude.

Uma mistura
No livro de Stanisic, ele também um fugitivo e refugiado da Alemanha, o protagonista e narrador Aleksandar Krsmanovic idolatra o avô Slavko e todo o ufanismo pela grande República Iugoslava que ele encarnava. A ex-Iugoslávia, representada pelo líder Tito, se despedaça com rapidez ao tempo em que Tito vai morrendo progressivamente, seja como líder político ou como o próprio ideal nacionalista. Aleksandar não deixa de ser ele também um sinal dos novos tempos: filho de pai sérvio e mãe muçulmana, ele é “uma mistura”, não obstante o sangue sérvio prevalecesse no clã familiar.

A morte do avô Slavko leva consigo a tranqüilidade de um tempo de paz. O avô Rafik já havia falecido antes dele, consumido pela tristeza, pelo desemprego e pelo álcool, afogando-se no Drina. É de forma rápida e contundente que a guerra encontra as ruas e se precipita para dentro das residências de Visegrad, por sobre a ponte do Drina, tomando toda a região. Nesse momento, instaurado o cerco a Visegrad e a Sarajevo, o núcleo familiar de Aleksandar finalmente se dá conta da imperiosidade da fuga. Aleksandar vê tudo com seus olhos de menino, anota tudo em listas com registros de lugares, circunstâncias e pessoas que ele vai levar durante sua fuga através da região sérvia até a Alemanha, e que, como peças de um mosaico, servirão para que ele possa resgatar a vida e a identidade que precisou deixar para trás.

Durante o tempo em que termina seus estudos na Alemanha, Aleksandar escreve cartas para a vizinha Asija que ele protegera dos soldados sérvios e que sumiu antes da saída para Belgrado. Ele escreve também para sua avó sérvia Katarina, que, por “ter o nome certo” preferiu ficar na cidade sitiada a se refugiar em outro país.

Assim como igualmente um mergulho mais fundo no rio de Aleksandar, apenas a releitura permite adentrar nos graus mais profundos e na dimensão mais exata das metáforas exibidas no curso do livro. Nele se encontram a guerra escondida dentro da própria família do menino, a história do homem dos três pontinhos, um livro de autoria do narrador intitulado Quando tudo era bom, a busca por Asija e uma espetacular partida de futebol, tendo a vida como prêmio durante um cessar-fogo. Por fim, Aleksandar registra seu retorno a Sarajevo e a Visegrad, garimpando em busca de si mesmo e de Asija no rio do tempo, para compreender que tudo permaneceu lá, impossível de ser reencontrado. E, como um rio, tudo era igual, mas havia se transformado para sempre.

O último capítulo é o mais intenso, e mais grave, quando o protagonista, já adulto, repara como sua própria vida se tornou uma “arte do inacabado”, e se une ao que restou de sua família em Veletovo, um sítio rural próximo a Visegrad, numa cena trágica e delirante junto ao túmulo de seu avô Slavko, com o Tio Miki — um genocida sérvio — para um acerto de contas.

O posfácio de Marcelo Backes é imprescindível, tanto pelo resgate das entrelinhas possivelmente perdidas na tradução, como pela contextualização histórica e referência sobre a pouca informação disponível acerca de um dos genocídios mais recentes da História. Abre, assim, para o leitor, a vontade de continuar descobrindo sobre os inúmeros Aleksandars que foram eternamente marcados nessa guerra.

Apesar de todo o genial talento de Stanisic, infelizmente o livro recebeu do The Guardian alguma crítica negativa pela forma desordenada de contar a história da guerra bósnia — como se recriar o relato de uma infância partida pudesse ser algo diferente de caótico, desordenado e confuso. A ausência de crítica jornalística consistente nos EUA, porém, contrasta com o sucesso do livro entre os leitores que, de modo efusivo, registram na internet a belíssima narrativa e o grande talento do jovem escritor, que esteve presente no Brasil, no Fórum das Letras de Ouro Preto, em 2009.

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SASA STANISIC

Nasceu em 1978, na ex-Iugoslávia, em Visegrad, cidade no leste da atual Bósnia-Herzegóvina. Filho de pai sérvio e mãe bósnia, testemunhou em 1992, aos 14 anos de idade, o cerco à sua cidade natal pelas tropas sérvias. Logo após, fugiu com seus pais para morar com o tio que trabalhava como imigrante no sul da Alemanha. Stanisic terminou os estudos na Alemanha e graduou-se em 1997 em Filologia Alemã e Eslava na Universidade de Heildelberg. Quando seus pais seguiram para os Estados Unidos, passou um tempo como professor convidado da Universidade Bucknell. Ao regressar à Alemanha em 2004, terminou o mestrado em Heidelberg e doutorado em Literatura Dramática e Novas Mídias no Deutsches Literaturinstitut, de Leipzig, em 2005. É escritor residente na Universidade de Graz, na Áustria. Publica em vários jornais e revistas, assim como em seu blog. Seu romance de estréia, finalista do Prêmio Alemão do Livro de 2006 e ganhador de vários prêmios, foi vendido para 30 países e os direitos para filmagem estão sendo negociados.

A chuva não acabava nunca, a estrada estava entupida, a cada pouco éramos obrigados a parar. Em dado momento, homens mascarados portando armas e luvas brancas correram atrás de dois homens ao longo da fila de carros. Os homens estavam amordaçados, seus olhos atados com um pano, e eu queria prometer que pararia de me recordar das coisas nos próximos dez anos, mas vovó Katarina era contra esquecer.

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Sasa Stanisic
Trad.: Marcelo Backes
Record
336 págs.